22.9 C
Marília
HomeEconomiaA "ressaca" que derrubou marca de uísque de US$ 1,1 bilhão

A “ressaca” que derrubou marca de uísque de US$ 1,1 bilhão

spot_img


Ler o resumo da matéria

Em menos de uma década, a Uncle Nearest Premium Whiskey saiu do anonimato para se tornar um dos maiores fenômenos da indústria americana de destilados.

Fundada em 2017 por Fawn Weaver, a marca cresceu mais de 3.000% em vendas ao resgatar a história de Nathan “Nearest” Green, homem escravizado que foi mentor de Jack Daniel. Avaliada em US$ 1,1 bilhão em 2023, a empresa atraiu investimentos, prêmios e reconhecimento.

O sucesso, porém, deu lugar a uma grave crise financeira. Em 2025, o principal credor acionou a Justiça acusando a destilaria de descumprir metas, atrasar pagamentos, inflar estoques e vender ativos dados como garantia.

Uma auditoria revelou ainda mais de US$ 110 milhões em dívidas, impostos não pagos desde 2018, registros contábeis apagados e dificuldades até para quitar salários.

Diante do cenário, Fawn e o marido foram afastados da gestão, enquanto o caso passou a ser investigado também por autoridades federais.

Há suspeitas de que a empresária tenha ocultado dos credores um empréstimo de US$ 20 milhões ligado à gestora MarcyPen, parcialmente controlada por Jay-Z, o que pode configurar fraude bancária.

Apesar da turbulência, a destilaria segue operando e Fawn mantém intensa presença pública, inclusive com participações recentes no programa de TV Shark Tank.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Em novembro de 2024, a americana Fawn Weaver, fundadora e CEO da destilaria Uncle Nearest Premium Whiskey, participou do Global Women’s Summit, evento anual sobre liderança feminina organizado pelo jornal The Washington Post.

Entrevistada no palco, Fawn, hoje com 49 anos, contou que, desde a fundação em 2017, a marca havia crescido mais de 3.000% em vendas — um resultado na contramão de um setor pressionado pela queda no consumo e pelas barreiras comerciais, como as tarifas impostas pelo atual governo americano, que reduziram as exportações de marcas nacionais.

Por trás do crescimento meteórico da Uncle Nearest havia uma história poderosa de resgate histórico, representatividade e empreendedorismo. Em poucos anos, Fawn transformou a empresa em um dos maiores fenômenos da indústria americana de destilados. Em 2023, ela avaliava o negócio em US$ 1,1 bilhão. Toda essa narrativa de sucesso, no entanto, começou a ruir no ano passado.

Em julho, o principal credor da Uncle Nearest, o banco Farm Credit Mid-America (FCMA), entrou na Justiça contra a empresa. A acusação: desde 2023, a destilaria não cumpria metas semanais de lucratividade, atrasava pagamentos, inflava relatórios de estoque, violava termos do financiamento e vendia barris dados como garantia para quitar outras dívidas.

No mês seguinte, o administrador judicial Phillip Young, nomeado pela Justiça para avaliar a situação financeira da empresa, passou o pente-fino na contabilidade da Uncle Nearest.

Ele descobriu que a destilaria não declarava impostos desde 2018; que registros anteriores a 2024 haviam sido apagados; que a companhia acumulava mais de US$ 50 milhões em dívidas com fornecedores; e credores e que enfrentava dificuldades até para pagar os salários dos funcionários.

Para Young, restavam apenas duas alternativas: um refinanciamento ou a venda da companhia. O problema era que nenhum banco ou comprador se mostrava disposto a assumir uma dívida estimada em pelo menos US$ 110 milhões.

A única saída seria a execução das garantias pelos credores, um processo que poderia transferir o controle dos principais ativos da empresa aos financiadores em questão de meses.

Enquanto isso, a Uncle Nearest perdia cerca de US$ 1 milhão por mês. O ex-diretor financeiro Mike Senzaki foi afastado e passou a ser alvo de uma investigação separada.

A destilaria continua em operação. Mas, em dezembro de 2025, Young demitiu Fawn e seu marido, Keith Weaver, cofundador e presidente da empresa. Em julho, o administrador judicial escalou o caso para a esfera federal, encaminhando documentos à Securities and Exchange Commission (SEC) e ao Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Nova York.

O envio do caso ao tribunal nova-iorquino está relacionado a um empréstimo de US$ 20 milhões concedido pela MarcyPen, empresa de capital de risco parcialmente controlada pelo empresário musical Jay-Z. Segundo Young, Fawn ocultou esse financiamento dos credores da Uncle Nearest, o que pode configurar uma violação das leis federais de fraude bancária.

“Fraudes, sobretudo quando afetam a confiabilidade das informações financeiras, a governança ou até mesmo a liquidez da empresa, podem acelerar ou até desencadear uma crise que culmine em um processo de insolvência”, diz ao NeoFeed a advogada Liv Machado, sócia da prática de Reestruturação e Falência do Tauil & Chequer Advogados, associado ao escritório internacional Mayer Brown.

“Além das perdas financeiras em si, a empresa pode enfrentar restrições de crédito no mercado, perda de credibilidade perante investidores e parceiros e uma deterioração operacional que poderá comprometer sua continuidade”, complementa.

O caos atual contrasta com a euforia que cercava a Uncle Nearest até pouco tempo atrás. Em menos de uma década, a empresa se tornou uma das marcas de uísque mais celebradas dos Estados Unidos.

Sete gerações consecutivas da família Green trabalharam na destilaria de Jack Daniel. Na imagem, ao lado esquerdo de Daniel (de chapéu branco) está George, filho de Nearest (Foto: Wikimedia Commons)

A sede da Uncle Nearest fica em Shelbyville, no Tennessee. A propriedade reúne produção e experiências turísticas, além de um campo de milho orgânico (Foto: unclenearest.com)

Menos de um ano depois de sua fundação, a Uncle Nearest era distribuída em todo o território americano, atraindo um público mais jovem e diverso (Foto: unclenearest.com)

A história começou em 2016, quando Fawn deixou a Califórnia e se mudou para o Tennessee depois de descobrir que Nathan “Nearest” Green, um homem escravizado, havia sido um dos mentores e braço direito de Jack Daniel, fundador em 1866 da destilaria homônima.

Embora a família de Jack Daniel jamais tenha contestado a importância de Nearest Green para a história da empresa, sua contribuição foi sendo apagada da narrativa oficial ao longo das décadas, inclusive dos tours oferecidos aos visitantes.

Para resgatar essa história, Fawn reuniu mais de 10 mil documentos pelos Estados Unidos, reconectando ramos da família Green, que haviam perdido contato entre si ao longo das gerações. A pesquisa resultou no livro, Love & Whiskey, escrito por ela.

Em menos de um ano após a sua criação, a Uncle Nearest já era distribuída no país inteiro, atraindo um público mais jovem e diverso do que as marcas tradicionais, além de captar centenas de milhões de dólares em investimentos, e receber diversos prêmios da indústria.

Fawn criou ainda a Fundação Nearest Green, que oferece bolsas de estudo integrais aos descendentes de Green e que fica sob o comando de Victoria Eady Butler, tataraneta de Nearest. Ela também é master blender da destilaria, a primeira mulher afro-americana a exercer a função de mestre misturadora na história da indústria americana de bebidas.

A Uncle Nearest ainda é dona de cerca de 405 hectares no Tennessee, incluindo o terreno da destilaria original de Jack Daniel, uma das mais visitadas e mais bem avaliadas do mundo.

O que mais surpreende é que, em meio à turbulência atual da empresa, Fawn age como se nada estivesse despencando ao seu redor. Um comportamento que talvez tenha adquirido ao longo de sua história: ela saiu de casa aos 15 anos, abandonou a escola, viveu em conjuntos habitacionais e abrigos para pessoas em situação de rua e tentou suicídio duas vezes aos 20 anos.

Ela continua a criar conteúdo para o Instagram e participou duas vezes do Shark Tank, programa de TV em que investidores avaliam empresas apresentadas por empreendedores. Ambos os episódios foram ao ar em março passado. Em cada participação, ela anunciou um investimento.

No entanto, as negociações feitas no programa passam por um processo de due diligence antes de serem concluídas. E nenhuma das duas empresas recebeu o aporte prometido.

Uma delas, a Beer Girl, startup que desenvolveu uma cerveja em pó para ser misturada à água, perdeu a proposta de aporte de US$ 125 mil e a linha de crédito de US$ 500 mil negociadas no programa.

Já a BRCĒ, fabricante de cadarços de alta tecnologia, garantiu o aporte graças a Daniel Lubetzky, fundador da marca de barras de granola KIND. Inicialmente, ele dividiria o investimento com Fawn, mas acabou assumindo sozinho os US$ 300 mil prometidos em troca de uma participação de 20% na empresa.



Fonte Link

spot_img
spot_img
Fique conectado
16,985FansLike
2,458FollowersFollow
61,453SubscribersSubscribe
Deve ler
spot_img
Notícias Relacionadas
spot_img