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Por que o Chaco se tornou a nova fronteira dos brasiguaios

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É fácil encontrar no YouTube vídeos de influenciadores do agro citando as maravilhas do Chaco. “Plantio de soja sem adubo”, diz a chamada de um deles. É um exagero do mote que vem consolidando a produção agrícola nessa região semiárida a noroeste do Paraguai, uma derradeira fronteira agrícola na América do Sul.

Na porção leste do Paraguai, precisamente na região conhecida como Alto Paraná, a atratividade não é recente; há mais de cem anos, produtores brasileiros começaram a se instalar no país. Agora, agricultores e empresas brasileiras avançam em direção ao Chaco, que fica na metade norte do Paraguai — o Alto Paraná está na metade sul.

Algumas partiram do Brasil, como a BrasilAgro, de incorporação e conversão de terras e produção agrícola. A empresa atua no Paraguai desde 2012 por meio de uma subsidiária chamada Palmeiras, com sede em Assunção e quase 15 funcionários.

Outras nasceram lá e fizeram o trajeto inverso. É o caso da Inpasa, líder em etanol de milho no País, que tem um perfil diferente de atuação no vizinho. É o caso também da Agrihold, holding de insumos agrícolas trinacional, com atuação também na China.

A eliminação das fronteiras envolveu ainda os frigoríficos, como a JBS e a Minerva, que há anos vêm incorporando plantas no Paraguai. E há uma onda recente puxada pelos bioinsumos, com brasileiras como Agrivalle e Gênica abrindo negócios no vizinho.

De malucos a visionários

Na BrasilAgro, o namoro com o Paraguai começou ainda nos anos de 2012 e 2013. O que atraiu a atenção da empresa para a região foi o viés explorador de abrir fronteiras, lembra Julio Piza, que ocupava a cadeira de presidente da empresa na época da expansão.

“Não era muito diferente do que era o Piauí vinte anos atrás, quando fomos para lá. Não tinha nada. Janela ideal de plantio, o que fazer com a logística de grãos… Fomos aprendendo tudo”, lembra Piza.

Em todas as frentes, a integração entre os países vem se intensificando. “Tem crescido o interesse. Estamos sendo muito acessados por produtores brasileiros querendo conhecer nossa operação lá”, explica Eduardo Marrey, diretor comercial da BrasilAgro.

Segundo ele, a empresa analisa o investimento no Paraguai “não com base na foto, mas no filme”. Isso significa que há anos bons e ruins, mas, na média, o resultado é positivo. “Estamos contentes e vemos potencial para explorar mais.”

Nova fronteira

Se antes a presença dos brasiguaios era mais disseminada no Alto Paraná, nos anos recentes o foco tem se desviado para o Chaco. “É um solo com fertilidade muito grande, o que é importante, pois o adubo responde por 40% do custo da soja. O custo de produção lá fica em menos da metade do que no Brasil”, afirma Marrey.

A BrasilAgro já começou pelo Chaco. Atualmente, mantém no país quase 60 mil hectares na fazenda Morotí, na região de Boquerón, 20 mil dos quais com produção.

“No começo, éramos tidos como malucos. Depois, viramos visionários”, diz Marrey.

Em maio, a companhia anunciou a venda de 921 hectares para um comprador não identificado, em um negócio de US$ 1,5 milhão. Ou seja, US$ 3.062 por hectare. Eis outra vantagem do Chaco, segundo os especialistas: o preço da terra.

Segundo Daniel Meireles, sócio da Acres, as terras no Alto Paraná chegam a custar entre US$ 8 mil e US$ 15 mil por hectare. No caso do Chaco, esses valores são de US$ 300 a US$ 800. “O que eu tenho visto com clientes comprando no Chaco? Reserva estratégica de longo prazo”, afirma.

Duas safras de soja

A produtividade também vem melhorando. Em relatório recente sobre a safra no Chaco, a StoneX notou que “os rendimentos da soja em maio superaram estimativas e atingiram 2,4 toneladas por hectare”. Para efeitos de comparação, a produtividade média no Brasil foi de 3,7 toneladas por hectare em 2025/26, segundo a Conab.

Para a StoneX, com os rendimentos na nova fronteira, o Paraguai deve colher 12,3 milhões de toneladas de soja nesta safra, incluindo 1,4 milhão em safrinha. No país, o clima não exige vazio sanitário para evitar pragas, como no Brasil. Por isso, muitos plantam soja também na segunda safra, visando a margem maior que a do milho.

“Temos visto de 7 mil a 8 toneladas de soja por hectare entre verão e safrinha. É muita soja”, ilustra Paulo Alves, CEO da Agrihold.

Ele também tem um relato pioneiro: a holding atua no país desde 1990 por meio da Agrotec. “Começamos sem produto, vendendo serviço de assistência técnica. O mercado era muito diferente, ainda estava começando a soja.”

A empresa logo passou a distribuir insumos agrícolas, em formato asset light que se mantém. Hoje, a Agrotec opera em todo o Paraguai, incluindo o Chaco.

O CEO põe a vantagem do local em números. “O Chaco demanda entre 200 e 250 quilos de fertilizantes por hectare. Não tão pouco quanto os 100 quilos da Argentina, nem tanto quanto Mato Grosso, que aplica 400 a 450 quilos. Com isso, a produtividade chega a 4 toneladas por hectare.”

Plantação de soja em showroom da Agrotec no ParaguaiPlantação de soja em showroom da Agrotec no Paraguai
Plantação de soja em showroom da Agrotec no Paraguai; empresa brasileira opera em várias partes do país vizinho | Crédito: Divulgação

A planilha também agradece. Considerando todos os custos de produção, a comparação é de entre 25 e 30 sacas por hectare no Chaco ante 45 a 50 sacas no Mato Grosso, diz Alves. “A região ainda carece de variedades que suportem a condição hídrica. Mas como nos anos 1970 parecia loucura os gaúchos irem ao Mato Grosso, daqui a 20 anos será realidade.”

O faturamento da Agrihold, holding dona da Agrotec, é de 25% a 30% no país e 70% a 75% no Brasil. A empresa espera crescer no vizinho, mas menos: “O Paraguai é uma piscina, enquanto o Brasil é um oceano e abre um novo Paraguai a cada dois anos”.

Logística e irrigação são desafios

Por outro lado, o Chaco guarda dois desafios. Um deles é a água, em duas frentes: o regime de chuvas é menor, e a água das reservas é salina, segundo Marrey.

O outro é a logística. Segundo ele, o fornecimento de insumos melhorou, mas ainda há dificuldades para escoar a safra — pelos portos fluviais de Assunção e Concepción. “Há investimentos, como na Rota Bioceânica, que vai ligar o Atlântico ao Pacífico. O trecho no Paraguai já está avançado. Mas a armazenagem ainda é incipiente”, explica.

Essa dificuldade é atenuada pelo fato de que boa parte da produção fica no país, em frigoríficos e plantas como as de esmagamento de soja e beneficiamento de algodão.

A JBS investiu recentemente US$ 70 milhões em uma granja no país para abater 50 mil aves por dia até setembro — e 100 mil por dia no auge da capacidade.

“Nossa estratégia é muito clara: diversificar geograficamente, e os investimentos no Paraguai fazem parte desse movimento. A produção local de grãos, aliada a uma política de atração de investimentos voltada para o desenvolvimento regional, torna o país competitivo para a nossa indústria”, diz Gilberto Tomazoni, CEO Global da JBS.



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