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Baque em dose dupla: do mel à borracha, os setores afetados pelo combo tarifaço e antidumping dos EUA

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Setores exportadores brasileiros, como aço, alumínio, cobre, mel, suco de limão, borracha e papel não-revestido, enfrentam uma crise tarifária dupla com os Estados Unidos, devido a tarifas antidumping e ao tarifaço imposto pelo governo Trump.

Apesar de alguns setores terem escapado de novas tarifas, a combinação de medidas tarifárias tem gerado dificuldades significativas. O advogado Celso Figueiredo destaca que o processo para contestar tarifas antidumping é complexo e demorado.

Embora a cobrança não elimine totalmente as exportações, ela reduz a competitividade. Setores como o de suco de limão podem ser inviabilizados, enquanto o mel orgânico, que já enfrenta tarifas desde 2021, teve sua sobretaxa reduzida recentemente. O setor de papel e celulose também é afetado, com tarifas de 37,5% e uma diminuição nas exportações para os EUA, gerando preocupações sobre a competitividade no mercado.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Brasília – Uma seleta lista de setores exportadores da economia brasileira vem sofrendo duplamente com os Estados Unidos, na combinação perversa de tarifaço e tarifas antidumping.

Além dos seguidos tarifaços impostos pelo governo do presidente Donald Trump, segmentos como aço, alumínio, cobre, mel, suco de limão, borracha e papel não-revestido têm tido que gerenciar uma dupla crise tarifária junto a Washington.

Esse cenário acontece ainda que alguns setores tenham conseguido escapar especificamente da nova pancada de 12,5% por trabalho forçado (dentro da chamada “Seção 301”), em vigor na última semana. Como é o caso do aço e do alumínio – eles, no entanto, ainda pagam os 50% do tarifaço do ano passado e também enfrentam tarifas antidumping aplicadas pelos americanos nos últimos anos.

O antidumping já estava valendo para esses setores, mas como se trata de uma investigação permanente, há casos em que a tarifa já foi renovada em 2026. Nesse processo, a tarifa pode ser reduzida, anulada ou mantida a cada revisão.

Para o sócio do escritório Barral Parente Pinheiro Advogados e doutor em direito internacional, Celso Figueiredo, que vem atuando diretamente na capital norte-americana com exportadores brasileiros, esses setores vêm sendo “duplamente penalizados”. “Esses produtos estão sendo duplamente afetados. E isso implica em trabalho duplo”, disse Figueiredo ao NeoFeed.

O advogado explica que o processo para reduzir ou isentar uma empresa de ter que pagar uma tarifa antidumping é muito detalhado, pois envolve geralmente anos de rediscussão de preços com apresentação de várias provas técnicas e guichês diversos dentro do governo dos EUA.

O antidumping é um mecanismo de defesa comercial legítimo e validado pela Organização Mundial do Comércio (OMC), usado por um país sempre que ele entende que o preço de exportação praticado pela empresa é inferior ao valor cobrado no mercado interno do país exportador. Nesse caso, o país importador que se julga prejudicado, passa a cobrar uma sobretaxa ao produto trazido do exterior.

Figueiredo chama a atenção ainda que dada a dependência do mercado consumidor norte-americano para algum produto específico, pode acontecer de, mesmo assim, a cobrança de antidumping e tarifaço não ser suficiente para encerrar as exportações brasileiras daquele item.

“Não zera os embarques, mas diminui bastante porque você perde vantagem competitiva em relação a outros países concorrentes”, ressalta. “Estamos atuando cada vez mais com esses processos de investigação por dumping pelos Estados Unidos, fazendo um trabalho também para resguardar posição de mercado deles no Brasil.”

No entanto, há casos de setores com menor volume exportado, como o suco de limão, em que o combo antidumping mais tarifaço certamente deverá inviabilizar totalmente os embarques futuros para os Estados Unidos, diz uma fonte do setor exportador de sucos no Brasil. Ou seja, não compensa mais exportar pelo duplo baque e a empresa terá que parar de exportar para os americanos.

O mel orgânico brasileiro, por exemplo, é um caso simbólico dessa dupla carga tarifária. Empresas exportadoras do produto já pagavam uma tarifa antidumping imposta pelos EUA desde 2021 e em março deste ano a sobretaxa foi renovada, ainda que em patamar menor.

Durante o processo de investigação, os exportadores conseguiram provar que o preço de exportação vem até subindo. A tarifa, que chegou a ser de 30%, não deixou de ser cobrada pelo governo Trump, mas foi revisada de 9% para 5% recentemente.

Renato Azevedo, presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), conta que o baque sofrido em dose dupla pela cadeia industrial apícola só não foi maior, porque os principais concorrentes do Brasil (Índia, Argentina, Vietnã) também vêm respondendo a processos por suposto dumping praticado contra os EUA.

“Claro que é ruim antidumping mais tarifaço. Tarifa é terrível, só aumenta o custo do produto”, afirma Azevedo. “Queremos eliminar essa tarifa [antidumping].”

Atualmente, diz ele, a posição é um pouco mais favorável. Mas no ano passado, as empresas chegaram a parar de exportar. Cerca de 80% dos US$ 117 milhões em embarques brasileiros de mel orgânico (item mais exportado por essa indústria) têm como destino os EUA.

Aproximadamente 55% da produção brasileira é exportada. “É uma dependência gigantesca desse mercado [EUA].”

Outro setor também afetado por essa conjuntura é o de papel e celulose, que terá que pagar um tarifaço de 37,5% (12,5% de trabalho forçado estendido a vários países e 25% da tarifa aplicada ao Brasil).

No caso do papel não-revestido (papel sulfite, miolo do livro, etc), desde 2022 os Estados Unidos cobram uma tarifa antidumping a esses produtos brasileiros – a cobrança vai até o ano que vem.

“A gente percebe há algum tempo já que, por conta desse desequilíbrio do comércio internacional, cada país está protegendo seu mercado”, diz Carlos Mariotti, gerente de política industrial da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), entidade que representa as empresas de papel e celulose.

“E a gente está sofrendo isso no mercado interno também, onde as exportações asiáticas que iam para os Estados Unidos acabam se deslocando para a América do Sul, principalmente para o Brasil.”

Segundo o executivo, as exportações brasileiras do setor para o mercado norte-americano ainda permanecem, mas vêm diminuindo. “Nossa maior preocupação é manter a competitividade”, acrescenta Mariotti.



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