Em abril de 2026, o Banco Rendimento confirmou ter sofrido uma ataque cibernético. Antes disso, o Banco do Nordeste registrou um prejuízo de R$ 146,6 milhões após um ataque ao seu sistema de transações via Pix. Não são episódios isolados, são sintomas de um ambiente em que a sofisticação das ameaças digitais supera, sistematicamente, a capacidade de resposta de organizações que não construíram estruturas robustas de proteção antes de precisar delas. E o problema não se restringe ao setor financeiro, pois só em 2026, ataques via inteligência artificial generativa, deepfakes, phishing altamente personalizado e engenharia social sofisticada já fazem parte do repertório corrente dos criminosos digitais. A superfície de ataque se expandiu com a automação, com a integração de sistemas e com a adoção acelerada de novos modelos operacionais.
Nesse contexto, governança corporativa sólida é aquela que vai além do discurso. É a que se materializa em processos auditáveis, em cultura organizacional de compliance vivida no dia a dia e em certificações que funcionam como marcos de maturidade institucional. Ela fortalece a capacidade das organizações de gerenciar riscos e promove melhora do desempenho organizacional. As normas ISO 37.001 e 37.301, que tratam de prevenção e combate ao suborno e de gestão de compliance, respectivamente, estabelecem um padrão claro de como organizações éticas estruturam suas decisões, definem responsabilidades e criam mecanismos de controle e transparência. Não são selos passivos conquistados uma vez e esquecidos. São processos que exigem revisão periódica, envolvimento da liderança e comprometimento de toda a cadeia operacional.
O mesmo raciocínio se aplica a segurança da informação e a proteção de dados. As normas ISO/IEC 27.001 e 27.701 estabelecem, respectivamente, os requisitos para um sistema de gestão de segurança da informação e para a gestão de privacidade e proteção de dados pessoais. Empresas certificadas nessas normas não apenas reduzem sua exposição a ataques, elas constroem uma arquitetura de confiança com clientes, parceiros e reguladores. Em um setor como o de financiamento de veículos, onde operações envolvem dados cadastrais, financeiros e documentais de milhões de pessoas, essa arquitetura não é diferencial competitivo, mas sim requisito de operação responsável.
Há um dado que contextualiza o desafio estrutural do mercado. A escassez estimada de 750 mil profissionais qualificados em segurança da informação no Brasil, segundo levantamento do Information Services Group (ISG). Isso significa que a maioria das empresas não enfrenta apenas uma questão de vontade, mas de capacidade instalada. E exatamente aí que a governança faz diferença, pois uma estrutura bem definida transforma segurança em rotina e não em emergência. Inventário atualizado, controle rigoroso de identidades e acessos, atualizações de sistemas e correções regulares de vulnerabilidades, monitoramento contínuo com capacidade de resposta rápida e treinamentos periódicos. Esse não é um padrão exclusivo de grandes corporações, mas sim o padrão mínimo de qualquer organização que leve a sério sua responsabilidade com os dados de quem confia nela.
O próprio arcabouço regulatório brasileiro passou a reconhecer isso de forma explícita. A Resolução Contran 1.016/2024, que estabelece o modelo de credenciamento de registradoras no setor automotivo, inclui entre seus requisitos obrigatórios a certificação de segurança da informação e recomenda a de proteção de dados. Não é mais possível operar nesse mercado sem demonstrar, de forma auditável e documentada, que a organização tem estrutura adequada para tratar os dados que processa. A LGPD, por sua vez, reforça esse compromisso no plano legal, com penalidades crescentes para quem a descumpre. A questão é se as empresas chegaram junto com a regulamentação ou se ainda estão correndo atrás de se adequarem.
Além disso, há uma camada de responsabilidade que vai além da conformidade. Governança corporativa bem construída gera confiança mensurável na relação com clientes, que compartilham seus dados a organização; com parceiros, que precisam de previsibilidade nas operações integradas; com reguladores, que esperam transparência e rastreabilidade; e com o próprio time interno, que trabalha melhor quando os processos são claros e as responsabilidades bem definidas. Confiança não é um valor imaterial, é um ativo que protege a operação em momentos de crise e acelera o crescimento em momentos de expansão.




