O presidente da Fenabasc, Rodrigoh Henrique, afirmou que o Banco Central tem observado a possibilidade de criar uma plataforma compartilhada e federativa de dados de fraudes. Em painel no Anti Scam Forum, evento organizado pela GASA em parceria com Santander na última quinta-feira, 7, o representante da federação dos servidores do BC explicou que a ideia é que essa plataforma funcione como uma infraestrutura digital pública para ajudar no combate a crimes digitais.
Também afirmou que esse arcabouço tem como objetivo evitar a criação de dois sistemas financeiros, um mais forte e mais robusto com empresas que investem grandes somas de dinheiro em proteção e cibersegurança e outro com empresas que não podem investir e que com isso serão alvos de criminosos para serem veículos de seus ganhos com golpes e fraudes, em especial com as organizações criminosas se estruturando cada vez mais em um modelo que chamou de ‘crime as a service’.
Ainda em camada de discussão (não é um trabalho em desenvolvimento pelo regulador financeiro), a plataforma compartilhada e federativa – se desenvolvida – entraria como um nivelador, ao garantir um piso mínimo de segurança comum entre as instituições financeiras, dos bancos incumbentes aos digitais e cooperativas.
A diretora do capítulo brasileiro da GASA, Renata Salvini, alertou que é necessária a cooperação no ecossistema e a criação de uma rede de “dados do bem”.
Dois casos apresentados de empresas que tentam abraçar o ecossistema são Santander e OLX, assim como ações da Febraban.
Privado contra o cibercrime

Da esq. para dir: Rafael Fernandes, MPMG; Raphael Mielle, Febraban; Paulo Nascimento, OLX; Ivo Roberto Costa, PF; Guilherme Favaro, Santander (crédito: Henrique Medeiros/Mobile Time)
Guilherme Favaro, head de prevenção à fraude no banco, revelou que as contestações de clientes de forma integral são enviadas ao Banco Central, de forma a marcar contas suspeitas. Explicou ainda que o banco tem o desafio de tratar fraudes e golpes como um desafio de saúde pública digital, não apenas de responsabilidade individual. Também disse que a estratégia do banco para definir se uma ação é fraudulenta ou não ocorre em microssegundos e está baseada em dados, comportamento, histórico com inteligência artificial e machine learning em tempo real. Mas reforça que o desafio na maioria dos casos é a comunicação.
Por sua vez, Paulo Nascimento, senior manager law enforcement reach na OLX, afirmou que os dados necessários para desbaratinar quadrilhas digitais estão no setor privado, como provedores de serviços e big techs. Com isso, o marketplace saiu da postura retroativa e passou a atuar mais firmemente com o governo no combate ao crime digital com captura e armazenamento de dados de porta lógica de origem de conexões. Essas informações são vitais para forças de segurança rastrearem e identificarem criminosos junto às operadoras. Além disso, Nascimento pede que o projeto tentáculos da Polícia Federal com a Febraban seja estendido para provedores de aplicação, não apenas para o ecossistema financeiro.
Pela federação de bancos, Raphael Mielle, diretor de serviços e segurança, explicou que estão trabalhando para proteger o sistema financeiro e apoiar instituições de todos os portes. Em ações práticas, a Febraban tem atuado com:
- Acordo de cooperação técnica (ACT) com o Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI) para integrar o sistema bancário com a carteira de identidade nacional (CIN) em validação biométrica centralizada e, assim reduzir a abertura de contas falsas;
- O apoio em conjunto ao MED 2.0 do Banco Central junto com Zetta, o que inclui melhores scores antifraude e uso de IA dentro do regulador.
Mas lembra que o setor brasileiro de finanças investe pesado em segurança digital e que não é uma disputa de curto prazo. Miele compara esse avanço com as agências físicas que por anos tiveram custos em segurança (circuito fechado de TV e comunicação direta com polícias) para evitar assaltos presenciais à mão armada. Como resultado de décadas de investimento, o primeiro semestre de 2026 foi o primeiro da história sem assaltos em agências bancárias no estado de São Paulo.
Governo contra o cibercrime
Pelo lado do Estado, o delegado da Polícia Federal, Ivo Roberto Costa, afirmou que o crime organizado está claramente migrando para o digital, em uma evolução de tarefas do mundo físico, como os assaltos aos bancos. Com isso, a PF também tem evoluído e criou uma diretoria dedicada ao cibercrime em 2023 e um projeto de prevenção para ter diálogo da corporação com a sociedade sobre crimes digitais que culminaram em ações como a prisão de uma quadrilha que realizou golpes via Pix da ordem de R$ 800 milhões.
Mais recentemente, a PF criou o CyberFic, um escritório físico em Brasília para juntar o trabalho de “seletividade investigativa” qualificada dos policiais federais com seus pares estaduais, uma vez que os golpes estão conectados. Em uma segunda etapa, o espaço terá representantes do setor privado.
Em outra esfera de combate, Raphael Ramos, advogado da União e Procurador Nacional de Defesa da Democracia na Advocacia-Geral da União (AGU), disse que trabalham principalmente junto aos provedores de hospedagem e plataformas digitais (como Google e Meta) para tirar sites e aplicativos de golpes que fazem anúncios fraudulentos de cunho público, assim como agem de forma coordenada com o BC para efetuar bloqueio de chaves PIx desses criminosos.
E Rafael Fernandes, procurador no Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) reforçou que é impossível acabar com os golpes, mas o objetivo de forma geral é que o seu numeral chegue em um quociente aceitável para a sociedade. Lembrou que o recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelou que 2,2 milhões de golpes foram realizados em 2025, mas como 15% da população adulta brasileira declarou ser vítima de golpe, há um risco de subnotificação e esse número pode chegar até 20 milhões de ações criminosas.
“Isso mostra que a repressão é díficil. Mas só a repressão contra os crimes não é suficiente. Veja, a repressão já não é suficiente no (crime) analógico, imagina no digital”, comenta Fernandes. “Por isso precisamos de diálogo intersetorial para criarmos um ecossistema resiliente”, completou.
Imagem principal, da esq. para dir: Roberto Troncon, Santander; Raphael Ramos, AGU; Raphael Garcia, Anatel; Luana Tavares, INCC; Rodrigoh Henriques, Fenabasc (crédito Henrique Medeiros/ Mobile Time)




