Bloomberg Opinion — Não bebo um copo de vinho há mais de 560 dias, mas ainda adoro estar na companhia de enófilos enquanto eles saboreiam, agitam a taça e discutem sua paixão. Por isso, não hesitei em aceitar um convite para ir à casa de meus amigos Jimmy e Diana na semana passada, mesmo que tudo o que eu pudesse fazer fosse saborear os pratos maravilhosamente preparados por eles e não provar a dúzia de safras que haviam reunido para os outros oito convidados, entre os quais estavam sommeliers de restaurantes e especialistas em vinhos.
Uma garrafa de vinho branco, envolta em uma capa preta justa, foi preparada para uma degustação às cegas — um jogo de salão para os conhecedores de vinho — e logo as suposições começaram a voar.
Alguns convidados notaram notas de redução — níveis mais elevados de compostos voláteis de enxofre, frequentemente usados para mascarar o sabor que emerge dos barris de carvalho, um sabor que perdeu popularidade ao longo dos anos. Isso às vezes contribui para notas salgadas também.
Então, seria um chardonnay, que tradicionalmente é envelhecido em carvalho? Se sim, de onde? E o estilo seria californiano ou europeu? O consenso foi de que se tratava de um vinho de clima mais frio. Algumas pessoas ousaram sugerir produtores específicos (estavam erradas). Outra achou que era austríaco. Ela foi a que mais se aproximou.
Era um chardonnay de um vinicultor do sul da Alemanha que imita os grandes vinhos da Borgonha, do outro lado da fronteira com a França.
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O que acontece com o carvalho é que ele também costuma conferir ao vinho uma sutileza “tostada” — um adjetivo que remete a algo “queimado” e que me fez lembrar de “defumado”. Então, embora estivéssemos falando de vinhos brancos, fiz uma pergunta aos especialistas ao meu redor: como toda a fumaça dos incêndios florestais em Bordeaux afetaria os famosos tintos da região?
A área afetada tem quatro vezes o tamanho de Paris; embora os vinhedos em si não tenham sido queimados, a fumaça se espalhou por toda a região. Os produtores franceses ainda estão em um modo de “esperar para ver” se a safra de 2026 estará pronta para consumo.
A história dificilmente serve de guia. O último incêndio comparável a afetar Bordeaux ocorreu em 1949; e mesmo os melhores vinhos, depois de ultrapassarem os 50 anos — a menos que sejam muito bem conservados — não se mantêm em boas condições. A maioria dos vinhos deve ser aberta e apreciada dentro de três anos após o engarrafamento — menos ainda para os brancos e rosés.
Algumas safras de elite, no entanto, destinam-se a ser abertas muitos anos depois — às vezes uma ou duas décadas. Ainda assim, em 2004, a Christie’s leiloou algumas garrafas daquele ano do lendário Château Haut-Brion; citou o guru do vinho Robert Parker, que havia escrito que a safra — que ele degustou em 1995 — “revelou algumas das notas clássicas de charuto, cinzeiro e tabaco, bem como aromas de ervas torradas e frutas maduras”.
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E essas palavras-chave, juntamente com couro e solo da floresta, são marcas registradas de um bom Bordeaux envelhecido. Será que uma safra de Bordeaux de 2026 contaminada pela fumaça seria realmente desastrosa? Não poderia ser comercializada como algo tradicional?
As pessoas na festa (e outras com quem conversei) deixaram bem claro que o tipo de aroma defumado clássico ao qual Parker se referia não era o que se obteria de um vinho contaminado por incêndios florestais. Uma boa safra é a memória líquida do sol, do vento e do solo do ano em que a fruta foi colhida. A contaminação por fumaça também é uma memória, é claro, mas de um trauma.
Embora nenhuma das pessoas com quem conversei tivesse idade suficiente para provar ou condições financeiras para comprar um Bordeaux de 1949 (a Christie’s vendeu suas três garrafas por um valor equivalente a quase US$ 5 mil em valores atuais), elas tiveram a experiência recente de provar vinhos provenientes dos incêndios que afetaram a Austrália em 2019 e a Califórnia em 2020. “É como beber churrasco”, disse meu amigo Jimmy, o coanfitrião. “Não fica bom nem mesmo acompanhando churrasco.”
Pelo que ouvi, o efeito é de carvão, não de tabaco; é acre, não tostado; além disso, há um gosto residual de cinza que perdura, com notas de lareira fria e amargor ressecante. Imagine um happy hour com Anton Chigurh, o assassino de Onde os Fracos Não Têm Vez: difícil de aguentar, e você provavelmente não vai querer continuar depois do primeiro gole.
Será que Bordeaux deveria simplesmente abandonar suas uvas? A Austrália praticamente descartou suas colheitas das áreas afetadas pelo fogo e pela fumaça após os incêndios florestais de 2019 e 2020. Os produtores de vinho do país aprenderam muitas lições.
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No site do Instituto Australiano de Pesquisa do Vinho (AWRI, na sigla em inglês) — entidade liderada pelo setor e financiada pelo governo — há guias detalhados sobre o sabor de fumaça no vinho.
Uma solução: carvão ativado — um pó misturado ao vinho na forma de pasta e, em seguida, filtrado após algumas horas ou dias — para atenuar o sabor de cinza. O problema: ele pode afetar a cor do vinho tinto. O AWRI faz outra observação importante.
Alguns vinhos produzidos em áreas contaminadas pela fumaça apresentavam sabor normal nos três primeiros anos após o engarrafamento; no entanto, passaram a apresentar o perfil característico de sabor de cinzas.
A França produz vinho acima da capacidade devido à demanda global. Ela exporta cerca de 35% do que produz; Bordeaux envia uma porcentagem ainda maior para o exterior, 45%. Vinho indesejado seria um desastre nacional.
A complicação adicional para Bordeaux é o efeito da fumaça transportada pela casca da uva — da qual os vinhos tintos dependem para o sabor, a cor e o caráter. Quando a fumaça entra em contato com a baga, ela produz glicosídeos como defesa contra toxinas.
Esses glicosídeos passam a fazer parte da fruta e não são removidos pela lavagem. Dependendo da vinícola, o líquido pode passar várias semanas fermentando e macerando com as cascas. De acordo com o AWRI, durante esses processos, os glicosídeos podem liberar as toxinas que haviam absorvido como mecanismo de defesa. Os vinhos brancos, por outro lado, têm menos contato com a parte externa da uva.
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Embora tenha havido muita fumaça, é possível que a exposição não tenha sido prolongada e concentrada o suficiente para prejudicar as uvas, cuja colheita está prevista para setembro e outubro. O incêndio florestal começou em meados de julho e durou cerca de duas semanas (as chamas de 1949 queimaram por uma semana inteira).
Em comparação, o incêndio na Austrália durou seis meses; o da Califórnia, em 2020, foi mais curto, mas se estendeu de agosto a outubro. Bordeaux espera que a análise química das uvas — uma técnica desenvolvida após os desastres na Austrália e na Califórnia — revele uma contaminação mínima por fumaça. Os amantes de Bordeaux só podem ter esperança — ou aguardar a colheita do próximo ano.
Enquanto isso, a maioria de vocês (não eu, infelizmente) pode se consolar com a experiência contínua do vinho, tanto boa quanto ruim. Há mais de uma década — ainda bebendo e descobrindo as alegrias da uva —, eu acreditava que gostava da taça que acabara de ser servida para mim e meus companheiros em uma mesa encantadora em Copenhague.
Mas minha companheira de jantar não estava nem aí. Depois de girar a taça e cheirá-la, ela declarou: “Souris morte!” Um termo chique de sommelier, pensei, até que alguém traduziu para mim: “Rato morto”. Tudo isso sem fumaça nem fogo.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Howard Chua-Eoan é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre cultura e negócios. Anteriormente, atuou como editor internacional da Bloomberg Opinion e foi diretor de notícias da revista Time.
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