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A cota chinesa acabou, mas o boi gordo voltou a subir. Por quê?

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“Estou com um pouco de medo do terceiro trimestre”. Foi assim que Alexandre Mendonça de Barros, um dos economistas agrícolas mais respeitados do País, recomendou aos confinadores que travassem a venda do boi gordo no mercado futuro em meados de março.

Àquela altura, diversos analistas e consultores compartilhavam o receio. Em maior ou menor medida, eles argumentavam que, assim que a cota de exportação de carne bovina à China se esgotasse, um movimento previsto para julho, a arroba sofreria uma forte pressão.

Na virada de junho para julho, quando uma porção de frigoríficos deu férias coletivas, as previsões pareciam se concretizar. O preço do boi gordo chegou a cair por quase duas semanas consecutivas, ficando em R$ 325,08 por arroba em 13 de julho, uma redução de 11,4% em comparação à máxima do ano (14 de abril), de R$ 367,09, conforme o indicador Datagro.

Desde então, uma reviravolta ocorreu, intrigando bastante gente no mercado. “É uma surpresa que o boi tenha parado de cair”, disse César de Castro Alves, gerente da consultoria agro do Itaú BBA.

“É um mercado um pouco diferente do que esperávamos. Deu uma firmada”, concordou Lygia Pimentel, fundadora da consultoria Agrifatto.

Até agora, o movimento foi além de uma interrupção na queda, criando uma pressão altista. Desde 13 de julho, as cotações do boi gordo em São Paulo — praça de referência para o restante do País — já subiram 7,3%, chegando a quase R$ 349 por arroba.

Na B3, os contratos futuros com vencimento em outubro negociam a R$ 354,35 por arroba, sugerindo que os investidores estejam precificando uma escassez de oferta capaz de anular a ausência da demanda chinesa.

Afinal, qual é a oferta de gado?

Ainda há muita confusão sobre o que vem pela frente no mercado de boi gordo, com diferentes interpretações e dados divergentes.

Castro Alves, do Itaú BBA, vê uma redução de oferta apenas sazonal que logo deve ser revertida. Nessa hipótese, o boi voltaria a cair, refletindo uma demanda mais fraca sem o apetite chinês. “Acho que a oferta não vai ser tão ruim, e a demanda vai ser muito ruim”, resumiu.

Na leitura do analista, os confinadores tiveram várias janelas ao longo do ano para travar o preço do boi gordo nos mercados futuro e de opções, ficando com uma “margem muito boa”, de mais de R$ 500 por cabeça.

Diante disso, Castro Alves acredita que uma oferta considerável de gado de confinamento está a caminho. “O viés é para o preço do boi descer, e da carne também”, disse.

O cenário é corroborado por Maurício Nogueira, fundador da consultoria Athenagro. “O mercado futuro está lendo que a restrição de oferta é crônica, o que eu não acredito”, afirmou.

Segundo ele, os indicadores sugerem margens remuneradoras para os confinadores, o que costuma ter correlação com o número efetivo de animais engordados em sistemas intensivos (o que inclui grãos na dieta).

Projeções da Athenagro apontam um lucro de R$ 33,99 por arroba na terminação em confinamento em 2026, o melhor resultado em pelo menos sete anos. Quando se consideram os pecuaristas de ciclo completo, o resultado da engorda intensiva foi estimado em R$ 84,73 por arroba.

“Teve uma restrição de oferta sazonal, mas em algum momento entra o gado de confinamento e de TIP”, disse Nogueira, citando a sigla para o sistema de terminação intensiva a pasto — um semiconfinamento com mais ração.

Algumas fontes sugerem uma aceleração dos confinamentos. Em 24 de julho, o informativo feito pelo Cepea (Centro de Estudos em Economia Aplicada) em parceria com a Tortuga mostrava que a retração dos confinamentos ante 2025, que já foi de 21,4% em maio, diminuiu para apenas 10,2%. Se a curva permanecer como está, é possível que a oferta cresça.

O confinamento pode ficar vazio?

Na pecuária, nem todos convergem com as análises de oferta significativa. Michel Torteli, fundador da FinPec — plataforma que capta recursos com investidores para aplicar na pecuária —, vê um cenário inverso, com confinamentos mais vazios.

“A curva de mercado futuro ficou invertida em março. Então, a turma alojou menos no confinamento por medo”, disse Torteli, que notou um movimento parecido nos confinamentos parceiros da FinPec.

A julgar pelo último relatório de acompanhamento de confinamentos da Cargill, a avaliação da FinPec faz sentido.

Em junho, a taxa de ocupação dos confinamentos monitorados pela Cargill estava em 75,54%, queda de mais de 14 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2025, quando a lotação era de 89,62%.

Além disso, ele avalia que houve uma antecipação de abates significativa no primeiro semestre, reduzindo a oferta para o restante do ano. “O gado do mercado interno acabou”, disse.

No primeiro trimestre, os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram um crescimento de 3,3% nos abates, que foram puxados pelos frigoríficos com inspeção municipal e estadual.

Se a hipótese da FinPec estiver certa, o espaço para a queda do boi gordo seria muito limitado. “Qual é a hora da verdade? Se tiver realmente uma falta de boi, os preços não voltam mais e vai subir muito”, resumiu uma fonte.

Cenas para os próximos meses.



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