A produção de etanol de milho cresce ano após ano no Brasil, mas ainda enfrenta uma série de desafios para se firmar diante do consumidor internacional. Em um mundo cada vez menos multilateral, a capacidade de diálogo do País é uma necessidade para garantir a perenidade da indústria, afirmou Gustavo Mariano, VP de Trading da Inpasa.
“A grande dificuldade que temos hoje é a integração das regulamentações [internacionais], porque isso passa por um cenário geopolítico mais fragmentado internacional”, afirmou, durante o Congresso Brasileiro do Agronegócio. “A indústria, toda a cadeia de produção, não só a nossa, precisam de previsibilidade”.
Competência para aumentar a produção, o Brasil já provou que tem. O País produzia em 2004 cerca de 7 milhões de toneladas de milho safrinha, um montante que deve superar as 110 milhões de toneladas neste ano, por força principalmente da industrialização.
Porém, escoar essa produção ainda depende de uma série de desafios — alguns até considerados já superados sob uma ótica interna. Um deles é a discussão entre food versus fuel (ou seja, o quanto a produção de biocombustíveis competiria com a de alimentos).
No Brasil, a característica de produção de duas a três safras no mesmo ano esvazia esse dilema. Nos Estados Unidos, o etanol usa o milho de primeira safra (ou seja, uma expansão aconteceria sobre outras culturas) enquanto no Brasil, esse crescimento acontece sobre áreas de soja.
“Acho que a gente ainda tem um trabalho forte a demonstrar que aqui não é food versus fuel, aqui é food plus fuel e plus feed”, destacou Mariano, apontando o amplo espaço para crescer.
No País, hoje, contou, o uso de hectares de soja produzindo milho safrinha está na casa dos 35% a 38%. No ano passado, o JP Morgan chegou a um cálculo semelhante, afirmando que o País poderia acrescentar 90 milhões de toneladas de milho à produção sem desmatamento.
Para os gringos, contudo, esse argumento ainda não é tão claro. No mesmo painel, Gastón Perez, CEO da Bosch América Latina, ressaltou a necessidade de continuar explicando as particularidades brasileiras sobre essa produção, especialmente para os europeus.
“Food versus fuel é uma discussão que todos temos que puxar. O problema é que eles [europeus] avaliam no olhar deles isso como um jogo de soma zero, como se o que tirasse de um lado, levasse para o outro. A América Latina não é assim. A produção vira complementar, fica mais rentável para o produtor. Isso é contraintuitivo para eles”, destacou.
Onde o Brasil já avançou
Apesar das dificuldades de fazer o consumidor estrangeiro entender a produção latino-americana, o Brasil tem conquistado avanços relevantes no diálogo internacional, especialmente no que diz respeito ao desmatamento e à produção de biocombustíveis.
“Vejo um ganho de protagonismo nas discussões sobre desmatamento. Antes, esperava vir para reagir, agora, é possível falar do que vem pela frente”, destacou.
No campo do etanol, Mariano está confiante de que o País seja capaz de construir um diálogo produtivo com a IMO (a Organização Marítima Internacional) no campo dos biocombustíveis, por exemplo.
Quando as discussões sobre descarbonização da frota marítima começaram, não se levava em consideração o etanol, por exemplo. Agora, outros biocombustíveis também estão em via de ser reconhecidos, lembrou o vice-presidente da Inpasa.
“Temos um caminho difícil pela frente de geopolítica para ser feito, mas estamos confiantes de que será possível, de alguma forma, construir esse caminho”, afirmou.
Uma reunião na IMO, prevista para novembro, pode decidir se o etanol será aceito como um combustível menos poluente para o cumprimento das metas de descarbonização do setor. De acordo com dados compilados pela Agência Infra, um mercado de consumo estimado de R$ 75 bilhões a R$ 150 bilhões ao ano pode se abrir.
Em evento promovido pela Fastmarkets também nesta segunda-feira (10), Renato Zicardi, diretor de Trading Internacional da Inpasa, detalhou o potencial que “cada pequeno percentual” tem sobre o setor.
“Se o mundo colocar 10% de etanol no arcabouço de possibilidades do marítimo, estamos falando de 60 bilhões de litros de demanda adicional. O Brasil nem produz isso. O E32 foi importante, mas a gente olha também para outras avenidas de crescimento.”
Jeremias Mariano Panichek, Senior Commodities Trader da FS, reforçou a importância da atuação diplomática e comercial do Brasil para se eleger a esse setor.
“A via que mostra o principal incremento de margens, pelo menos no curto prazo, é o advocacy para a inclusão do etanol como combustível para transporte marítimo. Tem todo um trabalho da delegação brasileira para que, em dois anos no máximo, tenhamos as primeiras certificações.”




