A consolidação de um fenômeno El Niño com intensidade de “forte a muito forte” a partir de setembro representa uma ameaça direta à produtividade e à qualidade das lavouras brasileiras no ciclo 2026/2027. O alerta foi emitido pelo secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Guilherme Campos, em entrevista à CNN Brasil.
Segundo o secretário, o risco climático atinge o setor produtivo em um momento de acentuada vulnerabilidade financeira. A combinação de endividamento acumulado desde a safra passada, margens de rentabilidade espremidas e custos financeiros elevados pressiona a tomada de decisão do produtor antes do início do plantio.
Panorama dos Riscos para o Ciclo Agrícola 2026/2027
| Vetor de Risco | Fator Pressionador | Impacto Potencial na Lavouras |
| Clima (El Niño) | >80% de probabilidade de alta intensidade (INMET/INPE) | Chuvas excessivas no Sul, seca no Norte e calor extremo |
| Crédito e Custos | Taxas de juros altas e endividamento prévio | Redução na compra de fertilizantes e defensivos |
| Área e Produtividade | Manutenção da área plantada com menor investimento | Queda do rendimento por hectare e da qualidade do grão |
| Gestão de Risco | Morosidade na liberação de verbas para o Seguro Rural | Encarecimento dos prêmios das apólices no mercado |
Endividamento e Redução do Investimento em Insumos
Apesar de consultorias e órgãos públicos projetarem volumes globais de produção expressivos, Guilherme Campos avalia que o principal gargalo não será o encolhimento da área cultivada, mas a perda de potencial produtivo por hectare. Para balancear o orçamento doméstico e operacional, agricultores tendem a reduzir o pacote tecnológico aplicado no solo.
“O produtor rural está numa situação bem delicada. Endividamento, queda na margem dos seus produtos, aumento de custos, a taxa de juros continua sendo muito alta. A área plantada, acho difícil cair. Mas pode cair na qualidade daquela safra. É a conta: o produtor rural na ponta tem que puxar daqui e dali, economiza na compra de fertilizantes e insumos”, disse Guilherme Campos, Secretário de Política Agrícola do Mapa.
O secretário destacou ainda que, embora os recursos do Plano Safra estejam disponíveis, os juros praticados — mesmo subvencionados — ainda pesam sobre o caixa das propriedades empresariais.
Alerta Climatológico: Incêndios e Eventos Extremos
Projeções do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam mais de 80% de probabilidade de um El Niño severo. Os desdobramentos esperados para o mapa agrícola nacional incluem:
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Região Sul: Aumento do volume de precipitações durante as fases de plantio e desenvolvimento vegetativo, com risco de encharcamento do solo.
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Regiões Norte e Matopiba: Estiagem prolongada e irregularidade na distribuição de chuvas.
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Calor Extremo e Queimadas: A elevação generalizada das temperaturas em diversas regiões produtoras acende o alerta para focos de incêndio não apenas em lavouras e palhadas, mas em áreas de reserva florestal nativa.
Necessidade de Seguro Rural, Renegociação e Fundo Garantidor
Para mitigar a exposição do agronegócio aos choques climáticos e financeiros, o secretário defendeu a estruturação urgente de mecanismos de socorro ao setor:
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Seguro Rural: Classificado como “absolutamente essencial”, o instrumento enfrenta o risco de encarecimento. A demora na liberação das verbas de subvenção faz com que as seguradoras elevem o valor do prêmio à medida que as previsões do El Niño se confirmam.
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Renegociação de Passivos: Campos defendeu a reestruturação das dívidas rurais vencidas e a criação de um fundo garantidor para dar suporte às repactuações bancárias.
O secretário concluiu ressaltando que o desgaste financeiro do produtor não é um fenômeno isolado deste ano, mas um processo contínuo de deterioração de margens iniciado em 2025 e agravado pelo custo do capital.




