Bloomberg Línea — A pressão que consumiu os balanços do Banco do Brasil (BBAS3) por mais de dois anos saiu do campo e chegou à conta corrente do cliente de varejo.
No segundo trimestre, a carteira de pessoas físicas superou o agronegócio como principal origem de novos créditos problemáticos, indicador que mede a variação do saldo vencido acima de 90 dias somada às baixas para prejuízo.
O balanço divulgado nesta quarta-feira (12), depois do fechamento do mercado, mostra lucro líquido ajustado de R$ 7,3 bilhões no primeiro semestre, queda de 34,2% sobre o mesmo período de 2025 (R$ 11,2 bilhões), com retorno sobre o patrimônio líquido de 7,9%, ante 12,6%.
A rentabilidade permanece a menor entre os grandes bancos brasileiros no trimestre. O Itaú Unibanco registrou 24,3%, o Bradesco alcançou 16,2% e o Santander Brasil, 12,5%.
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Na carteira de varejo do BB, a inadimplência acima de 90 dias chegou a 8,41% em junho, ante 6,82% em março.
A formação de novos créditos problemáticos no segmento passou de R$ 5,66 bilhões para R$ 11,84 bilhões em três meses, e o índice de cobertura, que mede quanto o banco tem provisionado para cada real vencido há mais de 90 dias, recuou de 147,9% para 125,8%. Os atrasos acima de 30 dias na mesma carteira subiram de 9,30% para 11,42%.
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A leitura do trimestre isolado é melhor que a do semestre. Entre abril e junho, o lucro somou R$ 3,9 bilhões, com alta de 3,3% em 12 meses. A margem financeira bruta cresceu 9,6% na comparação anual, para R$ 27,5 bilhões, e o índice de eficiência acumulado em 12 meses ficou em 28%.
“A geração de receitas segue sólida, evidenciando a capacidade negocial do banco, a força do conglomerado e o relacionamento próximo com os clientes”, informou a instituição em comunicado.
Agro piora nos atrasos acima de 30 dias
Na carteira ligada ao agro, a inadimplência acima de 90 dias praticamente parou de subir, com avanço de 0,05 ponto percentual no trimestre, para 6,27%.
A formação de novos créditos problemáticos caiu pelo segundo trimestre consecutivo, de R$ 7,18 bilhões para R$ 5,72 bilhões, e a cobertura voltou a crescer, de 156,1% para 165,2%, após quedas sucessivas desde junho de 2025.
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O sinal contrário está nos atrasos de curto prazo. A inadimplência acima de 30 dias da carteira agro subiu de 7,35% para 8,97% no trimestre, patamar que antecede a migração para faixas mais longas. O banco associa a melhora nos indicadores de 90 dias ao endurecimento das garantias.
O teste da nova política está adiante. A pontualização dos vencimentos rurais caiu de 87% em janeiro para 74% em julho, menor patamar da série divulgada.
Ações do Banco do Brasil (BBAS3)
Os dados podem ter atraso de ate 20 minutos.
Entre agosto e dezembro, a participação da safra contratada após julho de 2025 sobe de 35% para 57% do volume que vence a cada mês.
Os pedidos de recuperação judicial de clientes do setor somaram 167 no trimestre, ante 162 nos três meses anteriores, com volume de R$ 1,45 bilhão.
Dois anos de crise no crédito rural
O BB completou cerca de dois anos de deterioração no crédito rural. O discurso da gestão sobre a inadimplência do agronegócio mudou de eixo a cada revisão de guidance.
O banco responde por cerca de metade do financiamento rural do país e opera programas como Pronaf e Pronamp, o que o deixa mais exposto ao ciclo agrícola do que os concorrentes privados.
Em agosto de 2024, o banco elevou pela primeira vez a projeção de PCLD (Provisão para Créditos de Liquidação Duvidosa) por causa do agro. Desde então, a explicação oficial sobre o problema, em teleconferências com investidores e analistas, oscilou entre causas sazonais a estruturais.
Em maio de 2024, a justificativa eram as enchentes no Rio Grande do Sul. Em novembro daquele ano, na segunda revisão de provisões, passou a ser a queda dos preços de soja e milho, três meses depois de executivos dizerem que os atrasos estavam sob controle, apesar de apontar sobre a atuação de escritórios de advocacia orientando produtores rurais a entrarem em recuperação judicial.
Em maio de 2025, com o guidance de 2025 inteiro colocado em revisão, a culpa virou contábil. A Resolução 4.966 do CMN (Conselho Monetário Nacional), em vigor desde janeiro daquele ano, passou a exigir provisão pela perda esperada de cada contrato, e não mais pelo calote já ocorrido, o que antecipou ao balanço um prejuízo antes diluído no tempo.
Em novembro de 2025, o agro foi descrito como detrator do resultado e o produtor alavancado no mercado de capitais, apontado como origem do problema. Na revisão de maio de 2026, a justificativa migrou para o cenário geopolítico e seus reflexos nos indicadores macroeconômicos. O critério de concessão de crédito do próprio banco nunca apareceu entre as causas listadas.
A vice-presidência de Agronegócios e Agricultura Familiar foi a última cadeira preenchida pela CEO Tarciana Medeiros, que assumiu o comando do BB em janeiro de 2023. Vaga desde a saída de Renato Naegele, no fim de 2022, era a única das oito vice-presidências sem titular no banco. Luiz Gustavo Braz Lage só foi eleito pelo conselho de administração em maio de 2023.
Projeções mantidas
O banco não anunciou revisão do guidance junto com o balanço. As faixas seguem as divulgadas em maio, com lucro entre R$ 18 bilhões e R$ 22 bilhões e custo do crédito entre R$ 65 bilhões e R$ 70 bilhões.
O quadro por segmento mostra descolamento em relação ao planejado. A carteira de pessoas físicas cresceu 4,4% no acumulado, abaixo do piso de 6% projetado, enquanto a de agronegócios avançou 4,1%, acima do teto de 2%. A de empresas recuou 6,4%, contra piso de -3%.
O banco aprovou R$ 584,9 milhões em juros sobre capital próprio complementares, com pagamento em 11 de setembro.
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