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Indústria aposta em ‘comida sem cor’ para driblar custo elevado de corantes…

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Bloomberg — Parker Alford ficou intrigada ao ver uma nova versão de picolés, então comprou-os imediatamente para seus três filhos pequenos. Ao retirar as embalagens, as crianças mostraram-se céticas. Pareciam apenas “gelo”.

Isso é proposital. Os picolés que a moradora de Crestview, na Flórida, de 30 anos, comprou não eram apenas isentos de corantes artificiais — eles não tinham cor alguma. No fim das contas, os meninos não se importaram: um picolé com sabor de framboesa, na verdade, não precisa ter cor para ter um sabor bom.

À medida que as empresas de alimentos correm para se livrar dos corantes artificiais — uma transição complexa e onerosa — algumas descobriram que é mais fácil eliminar completamente as cores do que substituí-las por corantes naturais extraídos de alimentos como cenouras negras e abóboras.

É provável que esses ingredientes fiquem mais caros à medida que mais empresas do setor passem a utilizá-los. Por exemplo, os carotenoides, derivados da abóbora, podem ter um aumento de preço de até 600% à medida que a demanda cresce, de acordo com um relatório encomendado pela Associação Nacional de Confeiteiros (NCA, na sigla em inglês). O preço da curcumina, derivada do açafrão, pode disparar em mais de 3.000%.

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No entanto, abrir mão totalmente dos corantes é uma aposta arriscada para um setor que há muito depende de tons vibrantes para atrair os consumidores e intensificar suas percepções de sabor. Pesquisas têm demonstrado repetidamente que as pistas visuais relacionadas à cor influenciam o que as pessoas dizem sentir no paladar, afirmam especialistas do setor alimentício.

“Quando se oferece às pessoas alimentos sem corantes e se pede que definam o sabor, elas têm dificuldade em identificar exatamente qual é o sabor”, afirmou Amy Usiak, diretora de pesquisa e desenvolvimento da JPG Resources, empresa que trabalha com fabricantes de alimentos para reformular produtos.

As empresas estão sob pressão tanto dos consumidores, que buscam cada vez mais os chamados alimentos com “rótulo limpo”, quanto do secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., que instou os fabricantes a eliminar os corantes alimentícios à base de petróleo, citando possíveis riscos à saúde.

Leia também: Fabricantes de sorvete prometem remover corantes artificiais até 2028 nos EUA

Embora o governo federal americano não tenha proibido a maioria dos aditivos, muitas grandes empresas do setor alimentício se comprometeram a eliminá-los gradualmente até o final de 2027. Alguns estados, incluindo a Virgínia Ocidental, aprovaram leis com o objetivo de restringir o uso de corantes artificiais, embora essa proibição esteja sendo contestada na Justiça.

No início, as empresas substituíram os corantes artificiais por naturais sempre que possível — por exemplo, misturas em pó para bebidas em sachês opacos.

Os tons de vermelho, amarelo e laranja revelaram-se os mais fáceis de substituir. Restam agora os produtos mais difíceis, como bebidas de longa duração servidas em garrafas transparentes. Cerca de 7% dos produtos alimentícios e de bebidas vendidos nos EUA no ano passado, em termos de valor, continham corantes artificiais, de acordo com o relatório da NCA.

Os corantes naturais apresentam desafios específicos, pois costumam ser mais caros, têm prazo de validade mais curto, podem ser sensíveis a mudanças de temperatura e provêm de culturas sazonais que nem sempre são cultivadas nos EUA, o que torna as empresas dependentes de importações.

A Jel Sert, fabricante dos picolés Otter Pops, Fla-Vor-Ice e Kool Pops, tem como meta remover todos os corantes de seus produtos até o início de 2028.

“É um desafio”, afirmou Matt Ingemi, diretor de estratégia da Jel Sert, ao se referir à tentativa de utilizar corantes naturais em picolés. “Em um ambiente líquido altamente ácido dentro dessa embalagem, os corantes naturais tendem a se alterar muito rapidamente — e não de maneira positiva.”

Leia também: PepsiCo muda receita das batatas Lay’s para reduzir uso de corantes artificiais

Muitos corantes naturais oxidam em poucos dias, às vezes escurecendo no processo, informou a empresa. Todas as suas três marcas de picolés são vendidas à temperatura ambiente, o que representa um desafio.

Assim, em vez de utilizar corantes naturais, a empresa deixará de usar corantes por completo e, em vez disso, colocará imagens coloridas na embalagem para indicar o sabor. “Vamos tornar isso divertido”, disse Ingemi.

A Jel Sert já está vendendo uma linha de picolés incolores feitos com concentrado de suco de maçã — a variedade que os filhos de Alford experimentaram — que são mais caros do que os com corantes artificiais. O preço por picolé na Amazon é aproximadamente o dobro do da versão com corantes. A empresa está agora trabalhando em uma nova fórmula que elimina os corantes artificiais sem aumentar o preço.

É provável que mais marcas optem por produtos sem corantes para determinados itens, pois “financeiramente faz sentido, é fácil e dá para cumprir os prazos”, afirmou Jeff Grogg, fundador da JPG Resources. Mas elas talvez tenham que reconsiderar se um concorrente descobrir uma maneira de usar um corante natural que torne um produto rival mais atraente, disse ele.

Um produto que o setor está acompanhando de perto são os salgadinhos Doritos e Cheetos sem corantes da PepsiCo (PEP), lançados no ano passado depois que participantes de testes que provaram os produtos sob luz vermelha não conseguiram distinguir entre os salgadinhos coloridos e os sem cor.

“O lançamento sinaliza que as grandes marcas estão começando a implementar estratégias de produtos sem corantes em resposta à pressão regulatória”, afirmou o relatório da NCA. A reformulação de um produto costuma custar entre US$ 50 mil e US$ 500 mil, observou o relatório.

Leia também: Kraft Heinz diz que removerá corantes artificiais de alimentos nos EUA até 2027

Em alguns casos, testes com consumidores desafiaram as ideias de longa data do setor sobre a importância das cores, constatando que as pessoas se importam mais com o sabor do que com a aparência — pelo menos quando o alimento em si não está totalmente visível.

“Até o momento, a resposta tem sido positiva a neutra”, especialmente para produtos em que a cor fica oculta pela embalagem, afirmou Steve Cahillane, CEO da Kraft Heinz. “Eles não sentem falta de algo que não veem.”

A empresa planeja remover a cor de seu produto Kool-Aid Jammers no próximo ano, uma decisão facilitada pelo fato de que as bebidas quase transparentes serão vendidas em sachês opacos. Ela também planeja remover a cor de alguns produtos da linha Mio, de intensificadores líquidos que adicionam sabor ou benefícios, como eletrólitos, à água (da categoria de isotônicos).

A PepsiCo chegou a uma conclusão semelhante com seus pós eletrolíticos em porções individuais das marcas Gatorade Zero, Gatorlyte e Propel. Como muitos consumidores misturam as bebidas em garrafas de água opacas, “aproveitamos essa oportunidade para realmente explorar a importância da cor no portfólio”, disse Marissa Pines, vice-presidente de marketing dos pós Gatorade. Os pós sem corantes são brancos e, ao se dissolverem, ficam praticamente transparentes.

A Danone constatou que os consumidores aceitaram o iogurte Light + Fit Greek Key Lime, de cor creme, desde que o sabor permanecesse o mesmo da versão anterior, de cor verde-clara. Uma tampa verde-brilhante indica o sabor. A empresa ainda está trabalhando para eliminar os corantes artificiais dos últimos 2% de seu portfólio.

O cálculo muda, no entanto, quando a aparência do produto é um de seus principais argumentos de venda. Geralmente, trata-se de alimentos em que cor e sabor podem parecer inseparáveis.

Leia também: Secretário de Saúde de Trump cobra fim do uso de corantes artificiais em alimentos

Os consumidores tendem a ter expectativas mais fortes em relação à cor de alimentos ligados de alguma forma a produtos agrícolas, afirmou Daniel Haley, vice-presidente da empresa de ingredientes para alimentos e bebidas Ingredion. Eles querem que o ketchup seja vermelho e que as ervilhas sejam verdes. Mas têm menos expectativas em relação à cor de doces ou bebidas, disse Haley.

O Gatorade pronto para beber, da PepsiCo, é uma das exceções. “Muitas pessoas nem sabem os nomes dos sabores, mas sabem que gostam de uma determinada cor do Gatorade”, disse Pines.

A partir deste semestre, a empresa informou que lançará os sabores ponche de frutas, limão com lima e laranja do Gatorade Thirst Quencher e do Gatorade Zero, coloridos com ingredientes como batata roxa e betacaroteno — resultado de um processo de vários anos em colaboração com fabricantes de corantes e especialistas em cadeia de suprimentos.

A Kraft Heinz ainda está avaliando se deve optar por uma versão sem corante para o seu Kool-Aid Bursts no sabor Berry Blue, que é embalado em um recipiente transparente. O azul está entre as cores mais difíceis de reproduzir naturalmente, pois raramente ocorre na natureza e é difícil mantê-lo vibrante.

Uma opção que a empresa está considerando é tornar a bebida de cor branca opaca e renomear o sabor como “Ice Berry”, disse Caroline Boulos, presidente da divisão de hidratação, sobremesas e refeições da Kraft Heinz.

Kyrissa Mattison é exatamente o tipo de consumidora que está levando os fabricantes de alimentos a abandonarem os corantes artificiais. A mulher de 36 anos, que mora em Queen Creek, no Arizona, evita especificamente comprar alimentos com aditivos para sua família. Mas ela não está pronta para abrir mão das cores.

“Você quer que seu filho desfrute das comidas divertidas do verão”, disse Mattison, que compra picolés com corantes naturais para o filho.

Ainda assim, ela admite que os picolés sem cor têm uma vantagem: não mancham o sofá.

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