Bloomberg Línea — A Track&Field tem observado uma mudança recente no comportamento do seu consumidor. As peças de roupas em tamanhos menores têm ganhado participação nas vendas da rede brasileira de vestuário esportivo.
O movimento ocorre de forma ampla em todas as linhas, tanto em peças femininas quanto masculinas, e a companhia atribui a transformação ao efeito dos análogos de GLP-1, os injetáveis para perda de peso conhecidos como canetas emagrecedoras.
“Não posso abrir o número ainda, mas já enxergamos um aumento da participação de tamanhos menores na grade. Começa já uma migração para tamanhos menores, tanto masculino quanto feminino”, disse à Bloomberg Línea Fernando Tracanella, CEO da Track&Field desde 2023.
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A conexão está no fato de a varejista de moda esportiva estar posicionada no segmento de alta renda, justamente o que tem maior acesso às terapias de emagrecimento.
O tratamento com canetas como Ozempic, Wegovy e Mounjaro chega a passar de R$ 2.000 por caixa mensal nas doses mais altas, gasto que se repete enquanto durar o uso.
“Nosso cliente é um cliente talvez com poder aquisitivo um pouco maior. Talvez tenha alguma relação com isso também [uso das canetas emagrecedoras]”, afirmou o executivo, falando sobre as razões por trás da migração para peças menores.
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Com 448 lojas no país e em Portugal, a rede vem se reorganizando para atender essa rotina inteira do consumidor que busca treinar e manter a alimentação controlada.
Há pouco menos de três anos, o grupo passou a operar em algumas lojas uma operação de venda de comida saudável e suplementação batizada de TFC Food & Market.
O negócio hoje opera em 17 unidades, mais uma loja no escritório da empresa, e as vendas do formato cresceram 34,8% no segundo trimestre, com alta de 29,2% no número de clientes atendidos.
“As lojas com o TFC, as lojas reformadas onde nós colocamos o TFC, tiveram crescimento de 15 pontos percentuais acima das reformadas sem o TFC”, disse Tracanella.
A expansão, ainda assim, é seletiva: a companhia avalia metragem, fluxo e visibilidade antes de liberar cada unidade, e a maior parte dos balcões fora de São Paulo está em franquias, em capitais como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, João Pessoa e Salvador.
“Com muito cuidado. São algumas lojas que realmente fazem sentido, do ponto de vista de tamanho, do ponto de vista de frequência de clientes, do ponto de vista de visibilidade para a marca. Não é uma operação hoje escalável como as lojas físicas”, afirmou o CEO sobre a ampliação do formato.
Suplementos já respondem por cerca de um quarto das vendas do TFC, atrás apenas de comidas, e mesmo assim a rede descarta fabricar os seus, movimento que concorrentes do varejo e da indústria brasileira de proteína vêm fazendo.
A aposta é curar marcas de terceiros e distribuí-las no balcão físico e no TF Mall, o marketplace da companhia, que encerrou junho com 36 marcas ativas, 19 a mais que um ano antes.
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“Temos muito foco aqui na parte de vestuário, na parte de experiências, e não temos planos de verticalizar essa parte de suplementação, a parte também de cuidados com a pele”, disse Tracanella.
A mudança no corpo do consumidor chega junto com a fragmentação do varejo esportivo brasileiro. O beach tennis abriu espaço para o tênis, impulsionado pelo efeito do tenista João Fonseca nas transmissões de TV e por empreendimentos imobiliários de alto padrão que passaram a incluir quadra no projeto.
Marcas como Lacoste e Slyce abrem lojas de olho na onda do tênis no Brasil. Já o Grupo Live! e a varejista C&A (com a marca Ace) avançam sobre a categoria athleisure.
Diante desse cenário competitivo, a Track&Field responde com escala e produto. São mais de 40 modalidades cobertas, cerca de 4.000 eventos esportivos previstos para este ano pela TFSports, sua plataforma de inscrição em provas e aulas, e um tênis desenhado para musculação, categoria que cresceu junto com a busca por fortalecimento muscular.
“O mercado cresce numa velocidade que absorve novos entrantes. E do nosso lado, a gente tem que focar muito no nosso trabalho aqui em produto, em inovação, em tecidos mais tecnológicos”, afirmou Tracanella.
Resultado do segundo trimestre
No segundo trimestre, a receita líquida da companhia atingiu R$ 279,7 milhões, um crescimento de 15,5% na comparação anual. A geração de caixa medida pelo Ebitda avançou 15,9% com margem de 23,5%. O lucro líquido ajustado alcançou R$ 44,3 milhões, alta de 8,2% em 12 meses, com margem de 15,8%, evidenciando o crescimento sustentando do negócio de franquias e a eficiência operacional.
O BTG Pactual manteve recomendação de compra para a ação da Track&Field (TFCO4), com um preço-alvo de R$ 19,00 em 12 meses, e classificou o segundo trimestre como ligeiramente acima de suas projeções.
O banco destacou a aceleração sequencial das vendas em mesmas lojas, que vinham de 12,1% no primeiro trimestre, e a estabilidade da margem Ebitda ajustada, sustentada por ganhos em despesas administrativas que compensaram a pressão sobre a margem bruta causada pelo maior peso do canal de franquias no mix de receitas.
Os dados podem ter atraso de ate 20 minutos.
A tese positiva se apoia em quatro pilares: modelo asset light, de baixo investimento próprio em ativos e alto retorno sobre o capital, alinhamento com franqueados via royalties sobre a venda ao consumidor final, capilaridade nacional com formato de loja flexível, além do ecossistema de eventos esportivos.
A TFSports segue diluindo resultado, com impacto de 3,8% da receita líquida no Ebitda consolidado, ou 2,2% ajustando o descasamento das receitas de patrocínio, ante 2,4% um ano antes.
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