Bloomberg Línea — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia a campanha como favorito na corrida presidencial de 2026, mas o grau de favoritismo embutido nas expectativas do mercado está exagerado em relação ao que os indicadores têm mostrado.
A avaliação é de Christopher Garman, diretor para as Américas da Eurasia, em entrevista ao podcast Radar Eleitoral, da Bloomberg Línea, novo programa semanal para debater os temas relacionados às eleições em outubro que impactam a economia e os mercados.
A cautela de Garman tem origem em um descompasso raro nos modelos que a Eurasia usa para calibrar as apostas eleitorais.
De um lado, a taxa de aprovação de Lula e o histórico de eleições anteriores no Brasil e no mundo apontam para uma vantagem do presidente, que tem como principal adversário o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Do outro, a oposição de direita tem mais aderência aos temas que aparecem no topo das preocupações do brasileiros nas pesquisas de opinião: segurança pública, corrupção e uma sensação de estagnação econômica.
“Nas últimas três eleições que a Eurasia acertou, os dois modelos apontavam na mesma direção. Nesta eleição, eles apontam em direções opostas”, disse Garman.
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O diretor da Eurasia se refere ao fato de que governantes no poder costumam levar vantagem quando têm uma taxa de aprovação acima de 40% seis meses antes da eleição – caso de Lula que tinha 44%
Com base em um banco de dados global de 500 eleições, governantes com patamar de aprovação semelhante venceram 78% das vezes, segundo a consultoria.
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Porém, os dados também mostram que o candidato que se mostra mais preparado para lidar com a principal preocupação dos eleitores costuma vencer as eleições.
Nesse sentido, Garman ressalta o grau de pessimismo com o futuro apontado por institutos. “Se você pega um dado da pesquisa Quaest, por exemplo, 62% dos eleitores acreditam que perderam poder de compra no último ano, mesmo com a renda real subindo entre 4% e 6% ao ano”, disse ele.
Entre as hipóteses para o fenômeno, Garman citou o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas, a memória recente do choque de preços — mesmo com a inflação hoje comportada — e um desgaste da imagem dos programas de transferência de renda entre a classe média, hoje associados por parte do eleitorado a discursos sobre desincentivo ao trabalho.
“Estamos num ciclo eleitoral com grau de pessimismo com o futuro descasado dos dados macro, sensação de estagnação e preocupação com corrupção e segurança. Não é o tipo de ambiente que favorece o presidente”, afirma.
Na avaliação de Garman, segurança pú
blica é o principal ponto fraco de Lula na campanha, tema em que o PT e a esquerda historicamente têm menos credibilidade que candidatos de oposição.
Já em corrupção, o diretor da Eurasia avalia que Lula e Flávio Bolsonaro estão “nivelados por baixo”. O áudio de Flávio com Daniel Vorcaro elevou a rejeição do senador, ao mesmo tempo em que o presidente carrega o histórico de escândalos dos governos petistas e as investigações mais recentes envolvendo o filho Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha.
Por essas razões, a Eurasia atribui a probabilidade de 60% de vitória de Lula, o que Garman classifica como uma ligeira vantagem em uma eleição difícil de prever.
Outros candidatos da oposição
A consultoria atribui 30% de probabilidade a um cenário em que um candidato de direita diferente de Flávio Bolsonaro chegue ao segundo turno contra Lula — patamar que Garman classificou como alto.
O cenário-base da Eurasia continua sendo um segundo turno entre Lula e Flávio, ante nomes como Ronaldo Caiado (União Brasil), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão).
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Para que um desses nomes se torne competitivo, disse Garman, seria necessário atingir entre 15% e 16% das intenções de voto até meados de setembro, com queda simultânea de Flávio para a casa dos 25% — movimento que abriria espaço para o chamado voto útil na reta final da campanha. Garman citou como precedente a disputa entre Aécio Neves e Marina Silva em 2014.
Campanha deve pesar mais
Diante do cenário, Garman afirmou que a Eurasia vai atribuir mais peso à qualidade das campanhas na calibragem das probabilidades de vitória dos candidatos neste ciclo eleitoral — uma mudança em relação à prática usual da consultoria.
Segundo o diretor, campanhas presidenciais costumam ser maus preditores do resultado final, e a Eurasia normalmente não altera as probabilidades atribuídas a um candidato ao longo do período de campanha, apesar da atenção dada pela mídia a discursos e debates.
Ele citou o segundo turno de 2022 como exemplo do efeito que uma campanha bem direcionada pode ter. Segundo Garman, a campanha de Bolsonaro foi dispersa no primeiro turno, mas passou a reforçar de forma mais consistente o histórico de aumentos do Auxílio Brasil, hoje Bolsa Família — o que ajudou a reduzir a distância entre os candidatos e quase resultou na reeleição de Bolsonaro.
Em 2026, na visão de Garman, as campanhas vão precisar ser disciplinadas m reconhecer a sensação de estagnação e, ao mesmo tempo, mostrar que o seu candidato é o mais capaz de romper com ela e trazer mais esperança.
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