A televisão aberta brasileira entra em uma nova fase com a TV 3.0, mas a transformação vai muito além da evolução tecnológica dos aparelhos e dos padrões de transmissão. O desafio, discutido no painel “A Revolução da Televisão Aberta no Brasil: O Valor da Televisão em um Mundo Conectado”, no Congresso da SET Expo 2026, é repensar o papel da radiodifusão em um ambiente no qual televisão, internet, streaming e redes sociais estão cada vez mais integrados.
Para Wilson Diniz Wellisch, secretário de Serviços de Radiodifusão do Ministério das Comunicações, a inovação é essencial para preservar a relevância do setor. “A inovação é importante para que a radiodifusão continue sendo importante na vida das pessoas”, afirmou. Segundo ele, o governo trabalha na desburocratização do setor e em linhas de crédito subsidiado para apoiar a implantação da TV 3.0, estimadas em cerca de US$ 500 milhões.
A mudança no comportamento do público não significa, porém, perda do papel social da televisão. Para Octavio Penna Pieranti, conselheiro diretor da Anatel e presidente do Gired, a TV continua sendo assistida por mais de cinco horas diariamente e mantém atributos ainda mais relevantes diante da proliferação de conteúdos digitais. “A TV tem credibilidade. Vivemos o boom de conteúdos em que a credibilidade se perde”, afirmou. Segundo ele, a televisão também é espaço para a cultura nacional, o debate dos problemas do país e a realidade local. “A TV 3.0 significa garantir direitos, e esta é também uma das funções da Anatel”, disse.
Para Cristiano Flôres, presidente executivo da ABERT, a discussão sobre a TV 3.0 precisa ir além da tecnologia e considerar o papel estratégico da radiodifusão. “Não é só um processo de inovação tecnológica. Precisamos pensar para que se presta o desenvolvimento dessa tecnologia e qual é o valor da TV aberta nesse mundo conectado”, afirmou. Flôres chamou atenção para os efeitos colaterais da transformação digital e defendeu uma comunicação social mais estruturada, além de uma política de Estado que reconheça a inovação como determinante para o futuro do país.
Para ele, a discussão passa também pela competição e pelas regras que determinam como os conteúdos chegam ao público. “Não queremos privilégio, mas hoje vemos discriminação no acesso ao conteúdo da radiodifusão. Não podemos permitir que gatekeepers criem barreiras de acesso da nossa população ao nosso conteúdo”, disse. O termo se refere aos intermediários, como plataformas digitais, que podem influenciar quais conteúdos chegam ao público e de que maneira. Na avaliação de Flôres, cabe ao governo estabelecer regras e políticas que garantam esse acesso e um ambiente competitivo, sem que agentes privados assumam funções que são do Estado.
A capacidade de adaptação da televisão foi defendida de forma enfática por Samir Nobre. Para ele, a fragmentação do consumo não representa o desaparecimento da TV aberta, mas sua presença em diferentes ambientes. “É claro que vão dizer que a TV aberta está morrendo. Sempre vão falar do primeiro colocado”, afirmou, destacando que as empresas de TV aberta são hoje empresas de tecnologia e com presença em diferentes frentes.
Segundo Nobre, as emissoras estão hoje na TV aberta, no streaming e nas redes sociais, ao mesmo tempo em que surgem novas formas de geração de receita. “A TV aberta está inserida em tudo, inclusive no streaming. A TV aberta é hoje também uma empresa de tecnologia”, disse. Nesse cenário, a TV 3.0 será um ambiente de convergência, no qual o usuário sequer saberá exatamente de onde vem o conteúdo que consome. “Quem enxerga a TV aberta apenas como convencional está enganado”, concluiu.
A transformação preserva ainda uma dimensão cultural. Gerson Inácio de Castro, presidente da ASTRAL, defendeu que a televisão seja reconhecida como patrimônio nacional. “A TV aberta é um valor cultural brasileiro. A TV brasileira precisa ser tratada como patrimônio do país”, afirmou. Já Sergio Di Santoro Bruzetti, conselheiro deliberativo da SET e coordenador do Módulo de Mercado do Fórum SBTVD e do GT TV 3.0 da SET, destacou a evolução técnica do setor. “Hoje temos uma radiodifusão reconhecida por suas produções, transmitindo com qualidade cada vez melhor”, afirmou.
Paulo Henrique Castro, presidente da SET e CEO da Mediatech Lab, fechou o debate dizendo que a TV 3.0 representa uma oportunidade para o Brasil construir uma nova radiodifusão. O desafio é fazer com que a tecnologia amplie a capacidade de entrega da televisão sem comprometer seus atributos essenciais, como credibilidade, acesso e relevância para a população.





