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Novo tratamento contra a doença de Alzheimer avança e passa a estar disponível também em Marília

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As primeiras etapas do tratamento foram realizadas no Hospital do Coração, em Londrina

Uma mulher de 71 anos, com doença de Alzheimer em estágio inicial, recebeu recentemente a segunda infusão de donanemabe (Kisunla), uma das mais novas terapias modificadoras da doença e que busca retardar a progressão do quadro.

As primeiras etapas do tratamento foram realizadas no Hospital do Coração, em Londrina (PR), porque, até aquele momento, não havia em Marília estrutura disponível para a realização das infusões e do acompanhamento necessário.

O donanemabe representa uma mudança importante na forma de tratar a doença de Alzheimer. Diferentemente dos medicamentos tradicionalmente utilizados para controlar sintomas, ele é considerado um tratamento modificador da doença, pois atua diretamente sobre uma das alterações que ocorrem no cérebro.

Produzido pelo laboratório farmacêutico Eli Lilly, o medicamento é um anticorpo que reconhece e ajuda a eliminar as placas de beta-amiloide, proteína que se acumula no cérebro ao longo da doença de Alzheimer. No Brasil, o Kisunla foi aprovado pela Anvisa em abril de 2025 para pessoas selecionadas que se encontram nas fases iniciais da doença, com comprometimento cognitivo leve ou demência leve.

No principal estudo clínico com o donanemabe, chamado TRAILBLAZER-ALZ 2 e publicado no JAMA, uma das principais revistas médicas do mundo, 1.736 pessoas com doença de Alzheimer em estágio inicial foram acompanhadas. O tratamento conseguiu retardar em aproximadamente 35% a progressão clínica no grupo em que apresentou maior benefício.

Isso não significa que a doença seja curada ou que a memória perdida seja recuperada. Significa que o tratamento pode fazer com que a doença avance mais lentamente, aumentando a possibilidade de a pessoa permanecer por mais tempo no estágio em que se encontra, preservando memória, autonomia e capacidade de realizar suas atividades cotidianas.

Quanto mais cedo, maior a oportunidade de benefício

A importância de iniciar o tratamento precocemente tem se tornado cada vez mais clara. Os estudos com donanemabe mostram que o benefício é maior quando a doença ainda está em suas fases iniciais, quando podem existir apenas esquecimentos leves e persistentes e a pessoa ainda mantém sua independência para as atividades do dia a dia. No estudo original, aqueles que estavam no estágio clínico mais precoce apresentaram os maiores benefícios com o tratamento.

Esse tema esteve novamente em destaque durante a Alzheimer’s Association International Conference (AAIC) 2026, um dos principais congressos científicos mundiais dedicados à doença de Alzheimer e às demências, realizado em julho, em Londres. A Eli Lilly apresentou no congresso novas análises dos estudos com donanemabe, incluindo dados sobre acompanhamento prolongado e a duração do benefício clínico.

Os estudos de acompanhamento de longo prazo mostram que o benefício de começar o tratamento mais cedo pode se manter ao longo dos anos. Em uma análise de aproximadamente três anos, divulgada em 2025 e aprofundada posteriormente, quem iniciou o donanemabe mais cedo apresentou risco 27% menor de avançar para um estágio clínico mais grave da doença, quando comparado a quem começou o  tratamento posteriormente.

Para a psicogeriatra Dra. Fernanda Burle, de Marília, que participou do AAIC 2026 em Londres, essa é uma das principais mudanças na abordagem atual da doença de Alzheimer.

“Hoje sabemos que não basta apenas fazer o diagnóstico da doença de Alzheimer. Precisamos fazer esse diagnóstico cada vez mais cedo. Os novos tratamentos modificadores da doença, como o Kisunla, não revertem a doença e não recuperam os neurônios que já foram perdidos. O objetivo é desacelerar sua progressão e, dessa forma, aumentar a possibilidade de preservar memória, autonomia e capacidade funcional por mais tempo.”

A médica explica que a doença de Alzheimer começa a provocar alterações no cérebro muitos anos antes de evoluir para uma demência. Por isso, a fase em que a pessoa apresenta esquecimentos leves, mas ainda permanece independente, tornou-se especialmente importante.

“É justamente nessa fase que temos uma oportunidade maior de interferir na evolução da doença. O que buscamos é prolongar o tempo em que a pessoa permanece bem, independente e no estágio mais inicial possível. Quanto mais tarde iniciamos, maior tende a ser o comprometimento já estabelecido, que o medicamento não consegue reverter.”

Especialistas discutem experiência brasileira com o novo tratamento

Pouco mais de um mês após o congresso internacional, nos dias 14 e 15 de agosto, a Dra. Fernanda também participou, no Hotel Renaissance, em São Paulo, de um encontro científico organizado pela Eli Lilly voltado a um grupo de médicos especialistas em cognição de diferentes regiões do Brasil.

Durante os dois dias, o donanemabe esteve entre os principais temas discutidos, incluindo indicação do tratamento, acompanhamento, segurança e a experiência que começa a se acumular com seu uso no país.

Segundo informações compartilhadas durante o encontro, o donanemabe já vem sendo utilizado em diferentes estados brasileiros, mostrando que a terapia vem deixando de ficar restrita a poucos grandes centros.

Para a Dra. Fernanda, a experiência clínica que começa a surgir no Brasil é coerente com aquilo que já havia sido demonstrado nos estudos científicos.

“O que começamos a observar na prática é muito semelhante ao que os estudos mostraram: o tratamento pode aumentar a possibilidade de a pessoa permanecer por mais tempo naquela mesma fase da doença, sem uma progressão rápida para estágios mais avançados. Evidentemente, cada caso evolui de maneira diferente, mas hoje temos uma possibilidade de tratamento que não existia há poucos anos.”

O tratamento, entretanto, não é indicado para todas as pessoas com doença de Alzheimer e exige avaliação especializada. Antes de iniciá-lo, é necessário confirmar que os sintomas são realmente decorrentes da doença e comprovar a presença das placas de beta-amiloide, o que pode ser feito por exames específicos, como o PET amiloide. A ressonância magnética, por sua vez, é fundamental para avaliar a segurança antes e durante o tratamento.

O custo ainda é uma das principais limitações de acesso. O donanemabe é um tratamento de alto custo e, atualmente, não está incorporado ao SUS. Na saúde suplementar, a situação varia: já existem casos em que o tratamento está sendo custeado por planos de saúde, inclusive após decisões judiciais, enquanto outros pedidos ainda recebem negativa de cobertura.

Tratamento passa a ser realizado em Marília

Para as primeiras infusões desta mulher de 71 anos, ainda foi necessário o deslocamento até Londrina pela indisponibilidade local da estrutura necessária.

Esse cenário agora mudou. Marília já conta com estrutura e equipe aptas a realizar as infusões de medicamentos anti-amiloide, permitindo que outras pessoas que preencham os critérios para esse tipo de tratamento possam realizá-lo na própria cidade.

A chegada dessas terapias torna ainda mais importante reconhecer precocemente mudanças persistentes da memória. Hoje, investigar um esquecimento que começa a se repetir não significa apenas descobrir mais cedo a causa do problema. Para algumas pessoas com doença de Alzheimer, pode significar a oportunidade de iniciar um tratamento justamente na fase em que existe maior possibilidade de retardar a progressão da doença e preservar a independência por mais tempo.



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