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Para Binatural, versatilidade é o nome do jogo no biodiesel

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Aspirante ao rol de maiores produtoras de biodiesel no País, a Binatural chegou aos 20 anos em julho chamando a atenção pelas particularidades, na comparação com as pares do mercado. A começar pela opção por não originar soja, centrando a estratégia no trading de matérias-primas e na versatilidade nas etapas industriais.

Segundo o CEO da empresa, André Lavor, a escolha derivou da expertise dele e do cofundador, o irmão Eduardo, ambos com passagens por empresas de trading antes de empreender. Para equilibrar os custos, a meta é comprar a matéria-prima perto e barato, o que acaba resultando numa menor dependência do óleo de soja.

Enquanto 77% do biodiesel produzido no Brasil vem do óleo de soja, segundo os dados mais recentes da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), na Binatural são 40%.

Os outros 60% são resíduos, como óleo de cozinha usado (UCO, do inglês “used cooking oil”), e matérias-primas alternativas, como gorduras animais, a exemplo do sebo bovino, e outras gorduras vegetais, como de milho, algodão bruto ou palma.

Os percentuais oscilam de acordo com as condições geopolíticas ou sazonais, como saldos de safras ou de abates, segundo Lavor. Mas a regra geral reduz a exposição às oscilações do óleo de soja — embora o CEO relate um cenário de bons preços e disponibilidade. “Temos capilaridade relevante, e contratos de longo prazo que garantem suprimento.”

O fato de a empresa ter armazenamento de óleo de soja e de outras matérias-primas também ajuda a dosar custos e margem — embora ela não divulgue os volumes de capacidade.

Gargalo logístico

A condição menos refinada de parte da matéria-prima da Binatural exige eficiência maior na relação entre custo e transformação, diz Lavor. “Esses óleos têm spreads menores que o de soja, mas exigem bons rendimentos, pois são mais brutos.”

Além disso, no caso do UCO, não há uma estrutura de recolha e logística em âmbito nacional. O governo tentou dar um impulso para isso ao ordenar, em maio, que biodiesel, SAF e diesel verde tenham entre suas matérias-primas ao menos 1% de óleos e gorduras residuais, incluindo o UCO, a partir de 2028.

O CEO e cofundador da Binatural, fabricante de biodiesel, André Lavor
O CEO e cofundador da Binatural, fabricante de biodiesel, André Lavor | Crédito: Divulgação

“As metas sinalizam um caminho, mas a gente só vai tornar viável a logística reversa quando houver políticas públicas de suporte”, comentou Renato Dutra, secretário de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME), na semana passada, em Brasília, na Biodiesel Week. Segundo ele, a ideia é repetir o modelo que disseminou, nas metrópoles, a reciclagem de latas de alumínio.

Enquanto isso não ocorre, a disponibilidade é um gargalo, e cada empresa precisa “se virar” para assegurar sua originação.

Para a Binatural, os diferenciais sustentáveis são essenciais, pois tornam a produção de biodiesel atrativa para potenciais clientes no Brasil e no exterior, pensando nos compromissos de descarbonização em setores como ferrovias, mineração e siderurgia. Um desses diferenciais é “uma das melhores notas no RenovaBio, com 94% menos emissões”, segundo o CEO.

Outra frente é na biomassa, em pesquisas para usar mais fontes de energia além da madeira, como o coco de piaçava e a casca da castanha de baru. Embora não informe a proporção das fontes alternativas, a empresa quer ampliar a destinação, para geração de calor nas caldeiras, de resíduos que seriam descartados.

A Binatural faturou R$ 3,27 bilhões em 2025, um aumento de 25% em relação a 2024. Para 2026, a meta é mais modesta: elevar a receita para R$ 3,4 bilhões, alta de 4%.

São duas plantas, em Formosa (GO) e em Simões Filho (BA). Desde 2021, a primeira foi ampliada, e a segunda, construída, em um plano de investimentos de R$ 500 milhões.

Segundo Lavor, o crédito mesclou capital próprio, bancos, títulos e linhas verdes, como o Eco Invest — foram R$ 40 milhões disponibilizados por meio do programa.

Do total, R$ 100 milhões estão sendo usados em ampliações e melhorias nas usinas para elevar a capacidade, dos atuais 600 milhões de litros para 700 milhões de litros, até o fim de 2027. Em produção, foram 433,5 milhões de litros em 2025, quando o Brasil produziu 9,8 bilhões de litros. Em 2026, a ideia é atingir 480 milhões de litros.

As projeções se escoram principalmente no mercado interno — aposta que, segundo Lavor, fica comprometida com o adiamento para 2027 do novo mandato do biodiesel.

“Nesses 21 anos de marco regulatório, o setor investiu em capacidade se antecipando à demanda futura. Em 2025, o B15 chegou só em agosto. Neste ano, a previsão do B16 era março. Isso impacta os investimentos e gera ociosidade na indústria.”

Como parte do setor, Lavor defende que a mudança “pule” o B16 e vá direto ao B17 — aproveitando o fato de que os testes atuais estão verificando até 20% de mistura.

Embora minoritária no faturamento, a exportação está no horizonte. Não tanto para o biodiesel, 90% da operação, no qual as margens são pouco atrativas, segundo Lavor, mas para outros subprodutos, como ácido graxo, borra e glicerina. Esta é exportada para clientes em indústrias como farmacêutica, cosméticos e química para aviação.

Os fundadores não ambicionam passar a plantar soja, como fizeram outros players que começaram só na fabricação de biodiesel. Também não há projeções para alterar a estrutura de capital, dividida entre os dois irmãos: “Já fomos sondados, mas não está no radar um sócio novo”, diz Lavor.

A Binatural tampouco pensa em produzir etanol de milho ou SAF. Para o CEO, o biodiesel tem mostrado mais potencial de demanda. “Já temos carretas e geradores B100, testamos em termelétricas, e é cada vez mais visto como solução no transporte marítimo, onde pode ser usado ‘drop in’, sem grandes adaptações nos motores.”



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