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A arte dos presos políticos que a ditadura não apagou

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A exposição “Não se assuste, pessoa”, em cartaz na Estação Pinacoteca, parte da aparente contradição entre o verso de “Dê um rolê”, dos Novos Baianos, lançado em 1971, e o contexto de repressão e medo da ditadura militar. A mostra reúne cerca de 400 desenhos produzidos por presos políticos entre 1968 e 1979, sobretudo em presídios paulistanos, e propõe uma leitura que vai além da denúncia.

Com curadoria de Tálisson Melo, a exposição mostra como desenhar, pintar e criar eram formas de preservar a humanidade e a dignidade no cárcere. As obras registram saudades, afetos e a ligação com o mundo exterior. Parte do acervo foi preservada por Alípio Freire e Rita Sipahi e doada ao Memorial da Resistência em 2023.

A mostra também aproxima trabalhos feitos na prisão de obras posteriores dos artistas Sérgio Sister, Sérgio Ferro e Carlos Takaoka, além de produções de artistas que permaneceram em liberdade. A participação feminina é menor, em parte porque o artesanato, predominante entre as mulheres, tinha função de sustentar as famílias e pagar advogados. Por fim, trabalhos de artistas contemporâneos refletem sobre a permanência da violência e de valores antidemocráticos no presente.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

O ano era 1971. O Brasil vivia o período mais violento da ditadura militar, sob o comando do general Emílio Garrastazu Médici, e Novos Baianos lançaram Dê um rolê. A música começa com um verso provocativo diante daquele contexto: “Não se assuste, pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa”. Como imaginar uma vida boa em meio à repressão, à violência e ao medo?

É justamente dessa aparente contradição que parte a exposição Não se assuste, pessoa, em cartaz na Estação Pinacoteca, em parceria com o Memorial da Resistência, em São Paulo.

A mostra reúne obras produzidas por presos políticos durante a ditadura militar, sobretudo em presídios paulistanos, e as coloca em diálogo com trabalhos produzidos à época e por artistas contemporâneos.

No início da pesquisa, o curador Tálisson Melo estava inclinado a interpretar aquelas obras pelo viés da denúncia, uma leitura recorrente quando se trata da produção cultural durante a ditadura.

Essa perspectiva poderia aproximá-las, por exemplo, de trabalhos de artistas ligados à Nova Figuração, como Rubens Gerchman, Antonio Dias e Carlos Zilio — este último chegou a ser preso durante o período.

“Fui entendendo que isso aparece nos trabalhos, mas não era o central”, diz o curador, em entrevista ao NeoFeed. “É importante olhar para esses trabalhos também como uma afirmação da humanidade dessas pessoas e uma forma de preservar suas dignidades. Falar de saudade, por exemplo, desenhar pessoas e paisagens com as quais você se conecta do lado de fora, é, de alguma forma, uma maneira de escapar da prisão.”

As obras fazem parte da coleção organizada pelo casal de militantes políticos Alípio Freire e Rita Sipahi. O acervo foi doado ao Memorial da Resistência em 2023.

“Antes de deixar a prisão, os presos passavam pela Auditoria de Guerra. Nesse momento, levavam uma sacola com seus pertences, e os desenhos corriam o risco de ficar retidos”, conta a advogada Rita ao NeoFeed. “Por isso, muitos entregavam suas produções ao Alípio.”

A coleção preserva cerca de 400 desenhos feitos no cárcere entre a edição do Ato Institucional nº 5, em 1968, e a promulgação da Lei da Anistia, em 1979. Jornalista, escritor e artista plástico, Alípio ficou preso no presídio Tiradentes entre 1969 e 1974.

Banho de sol

No banho de sol, o artista Sérgio Sister aproveitava para desenhar. Em um dos trabalhos, figuras humanas cercam uma forma amarela e alaranjada, acompanhadas da inscrição “à nossa família”. Ao lado, uma obra recente do artista, marcada pela geometria e pela exploração da cor, cria um contraste imediato com o desenho feito no cárcere.

A aproximação entre trabalhos realizados durante a prisão e obras posteriores permite perguntar que marcas aquela experiência deixou na trajetória desses artistas.

No caso de Sister, a produção tomou um caminho bastante distante da figuração presente nos desenhos feitos na prisão, ainda que a compartimentação dos temas e das cores siga presente.

“Sister vai para essa produção geométrica, de exploração cromática, não tem um conteúdo figurativo ou de denúncia ou qualquer coisa nesse sentido. Mas o Ferro, por exemplo, continua a trabalhar a dimensão da alegoria, do simbólico”, aponta o curador.

Sérgio Sister, Sérgio Ferro e Carlos Takaoka eram artistas e também militantes políticos. Os três estiveram presos no Tiradentes, não por causa de suas obras, mas pela atuação na resistência ao golpe militar.

O artista Sérgio Sister aproveitava os banhos de sol na prisão para desenhar (Foto: Beto Assem/Acervo Memorial da Resistência de São Paulo)

A mostra traça ainda um paralelo entre a produção realizada pelos presos e aquela produzida, no mesmo período, por quem permaneceu em liberdade. Uma gravura de Evandro Carlos Jardim, que nunca foi detido, por exemplo, apresenta um pássaro engaiolado. Ao lado, dois desenhos de Carlos Takaoka mostram pássaros coloridos em liberdade.

A criação fazia parte do cotidiano no cárcere, conta Rita, que também foi presa e ficou na ala feminina, conhecida como Torre das Donzelas.

“No pátio, nos dias de visita, às vezes eram organizadas pequenas exposições, com dois, três ou quatro trabalhos de presos políticos”, lembra. “A visita era também uma oportunidade de socializar essas obras e mostrá-las às famílias. Existia um ateliê na prisão.”

Amigos e familiares levavam materiais de desenho e pintura aos presos, que os compartilhavam entre si. As obras também circulavam do lado de fora, algumas eram vendidas para ajudar no sustento das famílias; outras, dadas de presente.

Em 1976, a crítica e historiadora da arte Radha Abramo enviou ao jornalista Marco Antônio Tavares Coelho, então preso, instruções para exercícios de desenho de observação. Ele difundiu o material entre os demais.

“Vamos desenhar”

A exposição tem predominância de trabalhos assinados por homens. Rita explica essa diferença pela natureza da produção das mulheres na prisão. “Nós tínhamos atividade de artesanato. Eu tenho toda uma coleção de artesanato feita no presídio”, explica. “Mas artesanato não é considerado arte.”

Mais do que expressão artística, o artesanato tinha função utilitária. As peças eram vendidas para ajudar na compra de alimentos — as mulheres podiam cozinhar no presídio — e, principalmente, no pagamento dos honorários dos advogados.

Os poucos desenhos de mulheres presas políticas presentes na exposição são de Rita e da arquiteta Ângela Soares. “Quando ela chegou ao presídio, estava muito mal, tinha sido muito torturada”, conta a advogada, que lhe fez uma proposta simples: “Vamos desenhar”.

O primeiro desenho de Ângela foi o rosto do companheiro, que havia sido morto. Depois, Rita propôs que as duas desenhassem para sua filha, Camila. Juntas, coloriram uma folha de papel acompanhada de frases como: “O sol ilumina uma, duas, três… vezes pessoas, coisas, vento, amor”.

A exposição reúne ainda trabalhos de artistas contemporâneos que cresceram durante ou nos estertores da ditadura, como Jaime Laureano, Marilda Dardot e Clara Chaim, que refletem sobre a permanência da violência e de valores antidemocráticos após a redemocratização.

Pedro Marighella, neto de Carlos Marighella, apresenta uma obra que aproxima as experiências de militância na Bahia e em São Paulo. Crescido em meio a trabalhos produzidos por presos políticos, o artista incorporou essa memória à obra, que remete a uma grande carta e traz, no verso, uma dedicatória retirada de um desses trabalhos: “Que tudo faça exatamente como se deseja. O mundo será melhor”.



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