A área de soja do Brasil deve crescer na safra 2026/27 no ritmo mais lento em duas décadas. A projeção da Datagro, divulgada pelo Canal Rural nesta sexta-feira (21), aponta 49,3 milhões de hectares e produção estimada de 185,6 milhões de toneladas. Depois de anos de expansão acelerada de fronteira e incorporação de pastagens, o número sinaliza um ponto de inflexão: o ciclo de crescimento da principal cultura do país entra em fase de consolidação.
Os fundamentos por trás da desaceleração são estruturais, não conjunturais. O executivo de grãos e oleaginosas da Cofco no Brasil, em entrevista à Folha Mercado, prevê redução da safra 2026/27 por uma combinação de três fatores: efeitos do El Niño sobre o regime de chuvas, menor crescimento da área plantada e restrição de crédito rural. Quando uma das maiores tradings do mundo passa a precificar oferta mais apertada, o mercado escuta — o ritmo menor de crescimento da oferta brasileira tende a sustentar os preços internacionais do grão, ainda que a demanda chinesa siga como principal variável.
O fator climático ganha contornos oficiais. O Ministério da Pesca e Aquicultura orientou produtores e municípios a planejar a atividade diante do El Niño com efeitos esperados até março de 2027, horizonte que cobre praticamente todo o ciclo da safra de verão. O aviso, divulgado pelo Canal Rural, mostra que o fenômeno deixou de ser hipótese de monitoramento e virou variável de planejamento público — com implicações que vão do calendário de plantio à contratação de seguro rural.
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Para a cadeia de proteína animal, a leitura é direta. Soja e milho respondem pela maior parte do custo de produção de aves e suínos, e a perspectiva de oferta de grãos crescendo menos — com prêmio climático embutido — descola a trajetória do custo de ração da trajetória do preço da proteína, hoje deprimida no mercado interno. O USDA registrou nesta semana vendas de 1,43 milhão de toneladas de soja e 205 mil toneladas de milho para o ano comercial 2026/27, evidência de que a demanda internacional segue firme diante da oferta mais contida.
Há ainda um alerta de infraestrutura: o rompimento de um armazém da Cooperoeste, com capacidade para 42 mil toneladas, espalhou mais de 30 toneladas de milho no Oeste do Paraná, sem feridos graves. O episódio, isolado, escancara a dependência do sistema produtivo de uma logística de armazenagem que será testada por safras grandes em ritmo de crescimento menor — ou seja, com menos folga para absorver perdas.
O conjunto do dia desenha a tendência: o agro brasileiro sai da década da expansão de área e entra num ciclo em que produtividade, clima e custo de capital definirão a competitividade — e repassarão a conta para toda a cadeia a jusante.
Da Redação




