A poucas semanas do início do plantio da soja, a comercialização de fertilizantes para a próxima safra continua atrasada. A estimativa de empresas e analistas é que, do volume total estimado para 2026/27, entre 15% a 20% ainda não tenha sido comercializado, levantando dúvidas em relação ao tamanho do mercado neste ano.
Nos últimos meses, as projeções para as entregas de fertilizantes em 2026 convergiram para aproximadamente 45 milhões de toneladas, bem abaixo das 49 milhões de toneladas do ano passado. Mas, com a insistente demora nas compras de nutrientes para a principal cultura do País, os especialistas começaram a refazer as contas.
“Se o mercado não está rodando hoje, 25 de agosto, quando é que vai rodar?”, indagou Jeferson Souza, analista de inteligência de mercado da Agrinvest, durante o Congresso Brasileiro de Fertilizantes, realizado nesta terça-feira em São Paulo.
Nos cálculos dele, cerca de 15% dos fertilizantes necessários para a safra de soja não foram vendidos. “A pergunta é: vai rodar os 15% que faltam ou eles vão se transformar em 10%? Ou em 5%? Eu não tenho resposta. Porque esse mercado que sobrou é o que depende mais de crédito.”
E é aí que está o gargalo, tanto na distribuição como nos próprios bancos. Segundo o country manager da Mosaic no Brasil e Paraguai, Eduardo Monteiro, a aversão ao risco levou os grandes distribuidores a liberar crédito aos produtores com garantias. Mas, para fechar negócio e liberar o produto, eles aguardam a formalização dessas garantias.
“Tem muito atraso em decorrência disso, os distribuidores estão sendo muito rigorosos nessa liberação”, disse Monteiro ao The AgriBiz. Ao mesmo tempo, os bancos estão mais restritivos nos empréstimos devido ao elevado grau de inadimplência na agricultura.
A Mosaic estima que 20% do mercado de fertilizantes para soja ainda não tenha rodado. “Em anos bons, nessa época tudo já estaria vendido”, disse Felipe Pecci, vice-presidente comercial da Mosaic.
Segundo ele, o prazo para que o agricultor tome uma posição está no limite. “Qualquer coisa que a gente demore mais para colocar para dentro da porteira começa a pressionar o sistema e pode desencadear em custos mais altos”, afirmou o executivo, referindo-se principalmente ao valor dos fretes.
A região mais atrasada na comercialização, segundo ele, é o Centro-Sul. No Cerrado, o mercado está praticamente fechado.
Qual é o tamanho do mercado?
Com a lentidão na definição da demanda às vésperas do plantio, as entregas de fertilizantes podem ficar abaixo das 45 milhões de toneladas. “Essa é a nossa previsão, mas com viés de baixa”, disse André Pessôa, CEO da Agroconsult, que vê parte dos estoques de fertilizantes sendo consumidos diante da demora na definição dos volumes deste ano.
“Eu também estava trabalhando com 45 milhões de toneladas até o final do primeiro semestre. Mas esse número, hoje, para mim traz grandes incertezas pela questão do crédito”, acrescentou Souza
Além da falta de empréstimos disponíveis, outro indício de que o mercado possa ser menor do que o esperado é o ritmo das importações. “Nosso line-up está secando”, observou o analista da Agrinvest.
Para Monteiro, da Mosaic, as entregas devem ficar entre 42 milhões e 45 milhões de toneladas neste ano, impactadas não só pelo crédito, mas também pelos preços elevados dos fertilizantes, ocasionados por conflitos geopolíticos, como a guerra entre Estados Unidos e Irã e entre Rússia e Ucrânia.
“Preços elevados significam uma pior relação de troca, que significa redução de consumo. E redução de consumo é algo perigoso, porque ela não é só redução de custo, mas também de produtividade”, disse o country manager da Mosaic.
Segundo Monteiro, os agricultores brasileiros devem diminuir a aplicação de fósforo de 20% a 25% nesta safra de soja, o que pode reduzir a produtividade entre 5% e 7%. “É algo importante, que deve impactar a renda do produtor.”
Para André Pessôa, apesar de os cortes na aplicação de fósforo terem sido planejados “dentro da razoabilidade técnica”, o menor uso do nutriente é uma preocupação, especialmente para a próxima safra. “Com essa extração tão alta [de nutriente do solo], ano que vem vai ter que repor. Já chegou perto do limite.”




