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No Egito, megaprojeto quer transformar deserto em lavoura

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Com 96% do território formado por desertos, o Egito depende muito da importação para assegurar sua segurança alimentar. Ao mesmo tempo, abriga um trecho relevante de um dos maiores rios do mundo, incluindo sua famosa foz.

Seria possível conciliar esses extremos para fortalecer a agricultura local e reduzir a dependência externa no fornecimento de comida?

A resposta do Egito é um massivo — faraônico, para não perder o mote — projeto para estender o rio Nilo e converter um imenso pedaço de deserto em áreas agrícolas.

Chamada Novo Delta, a empreitada foi anunciada em 2021 e deve custar ao menos US$ 15 bilhões. O projeto é uma aposta do presidente Abdel Fattah el-Sisi, no poder desde 2014, e se insere no plano Visão do Egito 2030, que mira a maior expansão agrícola da história do país.

Mapa do Egito

No Egito, a área agricultável tem diminuído cerca de 2% ao ano desde os anos 1990, por causa de desertificação e expansão urbana. Em paralelo, o país vive uma pressão demográfica: sua população de quase 120 milhões de pessoas, segundo o Banco Mundial, a maior do mundo árabe, deve crescer para 165 milhões até 2050.

Isso é um problema grave dada a dependência de importações: segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), o país importa cerca de 40% de sua demanda por alimentos. Apenas no trigo, o país importou 13,3 milhões de toneladas em 2025, segundo a Fastmarkets, em uma demanda estimada em 20 milhões de toneladas por ano.

A commodity ilustra a vulnerabilidade egípcia. Entre 2017 e 2022, 82% das compras vieram da Ucrânia e da Rússia, segundo a Reuters. Com a guerra entre os países, essa rota foi interrompida, e o Egito precisou originar trigo de outros produtores, com um sobrepreço de 40%.

Em outros itens alimentares, a importação bateu em 15 milhões de toneladas em 2024, a um custo de US$ 19 bilhões, segundo o governo.

Nesse contexto, expandir a agricultura para produzir mais internamente é imperioso, diz Antonio Cabrera, ex-ministro da Agricultura no governo Collor e presidente do Grupo Cabrera, com atuação em cadeias como soja, café e carne. Durante visita recente ao país, ele conheceu detalhes do projeto Novo Delta.

“No Brasil, a produtividade começa na semente. Lá, começa na água. O Egito tem 500 metros cúbicos por habitante por ano. Aqui, são 14 mil litros/ano. Mesmo nosso estado mais seco, Pernambuco, tem 1,3 mil litro por habitante/ano. Portanto, para o Egito esse investimento é uma questão de sobrevivência.”

Nos planos do governo, as novas áreas vão cultivar principalmente trigo e milho, além de vegetais, frutas e ervas. Haverá parcerias com cerca de 150 empresas, e plantas de processamento de alimentos serão instaladas na região. Entre obras, lavouras e agroindústrias, a estimativa oficial é de gerar 5 milhões de empregos.

O Novo Delta visa ainda reforçar as exportações agrícolas, principalmente para União Europeia, Oriente Médio e África. O país espera saltar de 6,5 milhões de toneladas em 2022 para 13 milhões em 2030, subindo a receita de US$ 3,3 bilhões a US$ 7 bilhões.

Escassez histórica

O Novo Delta não é a primeira tentativa egípcia de fomentar a produção em meio à falta de água. Em sua milenar história, a agricultura local se baseou na constrição hídrica.

Entre 2015 e 2020, o país irrigou 500 mil hectares ao longo das bordas do Nilo, em curiosas estruturas circulares verdes contrastando com o marrom claro do deserto. Isso permitiu algum aumento de produção, mas, para dar conta da crescente pressão alimentar, o país se viu obrigado a fazer mais.

Um fator geopolítico agravou a situação. Em 2011, a Etiópia, que também abriga um trecho relevante do rio Nilo, anunciou um projeto de uma hidrelétrica para dobrar a geração de energia no país, cobrindo 60% da população, ao custo de US$ 5 bilhões.

Mas o Egito reagiu, pois o represamento de água para a usina diminuiria o fluxo do Nilo, agravando os temores alimentares. Após tentativas de mediação na ONU, o Egito ameaçou atacar a Etiópia e destruir a usina. O projeto foi abandonado, mas a represa permaneceu. E a redução no fluxo de água intensificou a urgência do megaprojeto.

Canais, tubulações e bombas

A ideia geral do megaprojeto é criar um novo trecho a oeste do Delta do rio Nilo (ver mapa acima), com 114 quilômetros de extensão. O trajeto inclui um rio artificial de 50 quilômetros partindo do extremo norte do braço Roseta do delta do Nilo — um dos dois remanescentes, junto do Damieta, a leste, enquanto outros cinco desapareceram por desertificação.

Esse trecho de canal se conectará a outro, de cerca de 25 quilômetros, formado por tubulações subterrâneas que conduzirão a água para um terceiro fragmento, de cerca de 40 quilômetros, também composto de tubulações, mas na superfície.

Parte do canal do “novo rio” já está pronta, inclusive com água desde junho de 2024, assim como tubulações subterrâneas e na superfície.

Mais de 20 plantas de bombeamento vão empurrar água até a estação de tratamento Al Hammam, concluída em 2023, que recicla 7,5 milhões de metros cúbicos por dia — a maior do mundo, segundo o Egito. A partir dali, a água abastecerá redes de irrigação nas áreas de cultivo, em complementariedade com um reservatório subterrâneo.

O plano do que vem sendo chamado o maior rio artificial do mundo inclui a construção de estradas, silos e infraestruturas de energia no trajeto. “O projeto foi concebido próximo dos principais eixos rodoviários, portos e aeroportos”, comenta Cabrera.

Tudo para viabilizar a conversão de 924 mil hectares de deserto em terras produtivas. Atualmente, a área agriculturável do Egito é de cerca de 3,97 milhões de hectares — um pouco menor que o Rio de Janeiro. Até 2030, o plano é chegar a 6,3 milhões —acrescentando, portanto, quase 2,4 milhões de hectares, pouco mais que um Sergipe.

Para isso, há alguns desafios ainda a superar. Falta tecnologia para dessalinizar a água do reservatório subterrâneo. O solo local demanda muito preparo e fertilizantes. E há dúvidas sobre a capacidade de engenharia e mobilização de trabalhadores no deserto, além de críticas do ponto de vista ambiental.



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