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Quando reduzir a área plantada de soja é mais eficiente?

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Daqui a algumas semanas as plantadeiras entram com mais força no campo e uma nova safra brasileira ganha vida. Mas, financeiramente, a safra 2026/27 já começou faz tempo.

Parte dos insumos já foi comprada, crédito negociado, barter fechado, decisões de tecnologia estão sendo tomadas e parte da produção já foi comercializada. Antes da primeira semente cair no solo, boa parte do resultado econômico da safra começa a ser definida.

O produtor chega à nova safra depois de anos de compressão de margens, juros elevados, crédito seletivo e balanços pressionados. Ao mesmo tempo, o cenário internacional não entrega, por enquanto, uma grande história de escassez capaz de resolver a margem pelo lado da receita. A oferta mundial de grãos continua relativamente confortável, a safra americana avança e a América do Sul volta ao radar.

Isso não significa necessariamente preços baixos. Commodities são commodities e basta uma mudança climática, geopolítica ou de fluxo para alterar rapidamente o cenário. Significa apenas que não parece prudente montar o orçamento dependendo de uma grande alta para fechar a conta.

No ano passado escrevi aqui que seria uma safra para jogar na retranca. Desde então, o dinheiro ficou ainda mais caro, a percepção de risco do crédito rural piorou e o sistema passou a selecionar com mais cuidado quem financia e a que preço. A terra produz devagar, mas o capital cobra rápido.

Agora essa realidade chega a uma decisão importante: quanto colocar em risco na próxima safra?

O produtor não controla Chicago, o dólar, o clima americano ou a demanda chinesa. Mas controla — ou deveria controlar — o que plantar e onde plantar, quanto pretende gastar, quanto precisa de capital e qual margem precisa preservar.

Uma das primeiras reações quando essa conta aperta é economizar no pacote tecnológico. Sementes mais baratas, menor adubação ou redução de aplicações diminuem o desembolso por hectare e aliviam o caixa.

Não há nada de errado nisso. Com capital caro, cada real colocado na lavoura deveria justificar seu retorno. Mas existe uma diferença importante entre eliminar custo e eliminar produtividade.

Talvez a pergunta desta safra não seja “onde posso cortar?”, mas “onde cada real adicional ainda produz retorno?”

Para responder, não basta olhar para o potencial agronômico. É preciso combinar gestão de riscos com controle financeiro, trazendo para a mesma análise produtividade, custo, margem e necessidade de capital. Hoje já existe tecnologia para saber quanto cada cultura, fazenda ou até talhão está realmente deixando de margem. Decidir com médias, quando o capital está caro, pode esconder justamente o hectare que não fecha a conta.

Nem todos os talhões têm o mesmo potencial e talvez não devam receber o mesmo investimento. E a gestão de riscos permite ir além do cenário esperado: quanto aquele hectare entrega se a produtividade decepcionar, Chicago cair ou o custo financeiro permanecer alto? A tecnologia ajuda a enxergar os números; a gestão de riscos ajuda a decidir quanto risco vale a pena correr.

E isso leva a uma decisão mais desconfortável: talvez seja melhor plantar menos.

O agro brasileiro passou anos associando crescimento a expansão. Mais hectares, mais produção, mais faturamento. Mas cada hectare adicional exige capital meses antes de produzir receita. Quando esse desembolso precisa ser financiado a taxas elevadas, a conta do hectare marginal muda rapidamente.

Isso fica ainda mais evidente nas áreas arrendadas. Não basta saber se a terra produz bem. É preciso saber se aquele hectare remunera terra, tecnologia, custo financeiro e risco.

Pode existir uma situação aparentemente contraditória em que reduzir área preserve resultado. Em vez de diluir recursos escassos por toda a operação, talvez faça mais sentido concentrar capital nas melhores áreas, preservar nelas tecnologia adequada e abrir mão daqueles hectares que só fecham a conta sob premissas otimistas.

Produzir menos com margem pode ser melhor do que produzir mais financiando prejuízo.

Não existe regra geral. Estrutura de máquinas, arrendamentos e questões agronômicas tornam cada operação diferente. Mas uma pergunta merece ser feita: qual é o último hectare da minha operação que ainda vale a pena plantar?

Essa talvez seja a manifestação mais concreta do ciclo de crédito que discutimos nesta coluna. Primeiro os juros sobem. Depois os spreads aumentam e o crédito fica seletivo. O produtor protege caixa e reduz investimentos. Em algum momento, essa restrição atravessa a porteira e começa a influenciar tecnologia, produtividade e área.

É quando o ciclo financeiro começa a virar ciclo agrícola.

Por isso liquidez, fluxo de caixa e reputação de crédito continuam tão importantes. Com juros altos, tempo custa dinheiro. A saca guardada esperando preço melhor tem custo e cada hectare adicional precisa ser financiado.

O mesmo vale para a comercialização. Se preço, câmbio e produtividade permitem contratar uma margem adequada, vender parte da produção não significa acreditar que o mercado vai cair. Significa colocar um guard rail na operação.

O problema começa quando a conta depende simultaneamente de produtividade excepcional, recuperação de Chicago e câmbio favorável. Nesse momento, planejamento começa a se parecer demais com uma coleção de apostas.

Talvez esta não seja a safra para buscar a maior área ou o maior faturamento. Pode ser a safra para buscar a melhor combinação entre margem, capital empregado e capacidade de atravessar cenários ruins.

A plantadeira ainda nem entrou no campo, mas boa parte do risco da safra já está sendo plantada.

Direto da Mesa de Risco

Com a safra americana avançando, o foco atravessa novamente o Equador. A oferta global de soja continua confortável e o milho apresenta um balanço menos folgado, enquanto o El Niño ganha importância quando Brasil e Argentina assumem uma parcela maior do risco da oferta mundial.

Seus efeitos não são homogêneos. O Sul do Brasil e partes da Argentina carregam maior risco de excesso de chuvas, enquanto outras regiões podem enfrentar distribuição menos favorável das precipitações. E isso conversa diretamente com nossa discussão: quanto maior a incerteza climática, mais perigoso pode ser economizar justamente na tecnologia que protege produtividade.

Em alguns casos, reduzir hectares marginais e preservar tecnologia nas melhores áreas pode fazer mais sentido do que cortar custos por igual.

E ainda teremos eleição presidencial no Brasil. Pesquisas, política fiscal e expectativas sobre o próximo governo devem adicionar volatilidade, especialmente ao câmbio. Para o produtor, o Real pode tanto amortecer quanto amplificar os movimentos de Chicago durante a comercialização da safra.

Clima, política e crédito vão dividir espaço na mesma tela, mas o mercado é soberano.

Absolutamente não é um ano para dirigir sem guard rails.

***

Rafael Harada é sócio da Rural Capital. Possui mais de 20 anos na gestão de riscos de commodities e de câmbio.



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