
Os eleitores de Marília distribuíram milhares de votos para candidatos a deputado federal e estadual de diferentes partes do Estado nas eleições de 2022. Quase quatro anos depois, porém, uma parcela significativa desses parlamentares pouco ou nada retribuiu politicamente o apoio recebido nas urnas.
Levantamento do Marília Notícia sobre os 10 candidatos a deputado federal e os 10 candidatos a deputado estadual mais votados no município mostra uma diferença clara entre aqueles que mantiveram relação com a cidade e os que praticamente desapareceram depois da eleição.
O contraste é ainda maior entre os candidatos de fora. Enquanto alguns retornaram, destinaram emendas ou participaram de articulações em favor de Marília, outros receberam milhares de votos sem que fossem identificados recursos, agendas frequentes ou atuação política específica pelo município durante o mandato iniciado em 2023.
Deputados federais: quem manteve a relação com Marília?
Os números oficiais das eleições confirmam que Capitão Augusto (PL) liderou a votação para deputado federal em Marília, com 12.527 votos. Entre os estaduais, Vinicius Camarinha (PSDB) ficou muito à frente dos demais, com 43.171 votos, seguido por Dani Alonso (PL), com 29.499.
Capitão Augusto foi o candidato a deputado federal mais votado pelos marilienses em 2022, com 12.527 votos ou 10,88% dos votos válidos. Foi também, entre os integrantes do grupo dos 10 primeiros, quem manteve uma das relações mais constantes com o município depois da eleição.
Reeleito para a Câmara, Capitão Augusto destinou recursos, participou de articulações políticas e esteve em Marília durante o mandato. A votação na cidade representou uma de suas principais bases eleitorais no Estado: apenas São Paulo e Bauru deram mais votos ao parlamentar naquela eleição.
Na sequência aparecem Walter Ihoshi (PSD), com 10.580, e Juliano da Campestre (Republicanos), com 10.250 votos. Os dois possuem vínculos políticos com Marília, mas não conseguiram se eleger em 2022. Mesmo sem mandato, continuaram participando de articulações relacionadas ao município por meio de parceiros na Assembleia Legislativa e no Governo do Estado.
A partir da quarta posição, contudo, a situação muda.
Os que desapareceram após a eleição
Carla Zambelli (PL) recebeu 5.024 votos ou 4,36% e foi a candidata de fora de Marília mais votada para a Câmara dos Deputados naquele ano. Depois da eleição, não foi identificada nova passagem da então parlamentar pela cidade nem destinação de emendas para o município durante o mandato iniciado em 2023.
Zambelli havia estado em Marília durante a campanha de 2022, acompanhando uma agenda de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ela já havia destinado recursos ao município em período anterior, mas não repetiu a aproximação depois dos mais de 5,2 mil votos conquistados em 2022.
Sua trajetória parlamentar terminou tomando outro rumo. Condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Zambelli deixou o Brasil e foi para a Itália. Em dezembro de 2025, a Câmara chegou a rejeitar sua cassação por não atingir os 257 votos necessários, mas o STF posteriormente manteve a determinação judicial de perda do mandato. Em 2026, a ex-deputada permanece na Itália e os processos relacionados à sua extradição continuam na Justiça italiana.
Logo depois aparece Eduardo Bolsonaro (PL), com 3.759 votos ou 3,26%. O resultado confirmou uma força eleitoral que já havia aparecido em 2018, quando ele foi o candidato a deputado federal mais votado na cidade.
O apoio, porém, não resultou em presença política proporcional. A última passagem identificada de Eduardo por Marília ocorreu ainda na campanha de 2022, durante encontro com apoiadores na loja Havan.
No mandato seguinte, não foram identificadas emendas de sua autoria para Marília, novas visitas ou articulações específicas em favor do município. Eduardo já havia destinado recursos à Santa Casa em mandato anterior, mas o repasse antecede a votação recebida em 2022.
Ricardo Salles, eleito pelo PL e atualmente no Novo, aparece em seguida, com 3.819 votos ou 3,32%. Apesar de exercer normalmente o mandato na Câmara e movimentar dezenas de milhões de reais em emendas destinadas ao Estado de São Paulo, não foi identificada atuação relevante especificamente voltada para Marília no período analisado. A própria Câmara registra emendas estaduais de sua autoria, sem individualizar Marília entre os destinos apresentados nas informações consultadas.
O mesmo distanciamento aparece no caso de Guilherme Boulos (Psol), que recebeu 3.503 votos ou 3,04%,, e foi eleito em 2022 como o deputado federal mais votado de São Paulo, com mais de 1 milhão de votos.
Depois da eleição, não foram identificadas novas visitas, emendas ou articulações específicas de Boulos em favor de Marília. Em 2024, ele disputou novamente a Prefeitura de São Paulo e, posteriormente, licenciou-se da Câmara para assumir a Secretaria-Geral da Presidência da República, cargo que ocupa atualmente.
Vanderlei Macris (PSDB) recebeu 2.785 votos ou 2,42%, mas não conseguiu se reeleger. Depois disso, também não houve atuação identificada em favor de Marília.
As duas últimas posições mostram, por outro lado, que ser de fora não significou necessariamente abandonar os eleitores da cidade.
Vinicius Carvalho, com 2.855 votos (2,48%), e Mauricio Neves, com 2.492 votos (2,16%), foram eleitos e mantiveram relação com o município, com destinação de recursos e agendas em Marília durante o mandato.
Deputados estaduais: atuação em Marília
Na eleição para a Assembleia Legislativa, o eleitor mariliense foi muito mais concentrado nos candidatos diretamente ligados à cidade.
Vinicius Camarinha (PSDB) recebeu 43.171 votos ou 34,91%, enquanto Dani Alonso (PL) conquistou 29.499 ou 23,86%.
Somados, os dois concentraram quase 59% dos votos válidos para deputado estadual em Marília.
Vinicius foi reeleito para seu quinto mandato na Assembleia Legislativa com 123.316 votos no Estado, sendo Marília responsável por aproximadamente 35% de toda a votação conquistada pelo parlamentar. Em 2024, deixou a Alesp após ser eleito novamente prefeito de Marília.
Dani Alonso, por sua vez, permaneceu na Assembleia e se consolidou como uma das principais responsáveis pela destinação de recursos estaduais para o município. Levantamentos do Marília Notícia mostram sucessivas emendas da parlamentar para Marília durante o mandato.
Depois dos dois candidatos com base direta na cidade, aparece uma longa relação de nomes de fora.
O terceiro colocado foi Eduardo Suplicy (PT), com 2.500 votos ou 2,02%. Ele acabou sendo o deputado estadual mais votado de todo o Estado de São Paulo, com 807.015 votos.
Suplicy chegou a retornar a Marília depois de eleito. Em novembro de 2023, visitou a Associação Canábica Maria Flor e conheceu as atividades desenvolvidas pela entidade.
A visita, entretanto, não foi acompanhada de recursos. Levantamento das emendas estaduais entre 2023 e 2025 realizado pelo Marília Notícia não identificou destinações de Suplicy para o município.
Situação semelhante ocorreu com Sebastião Santos (Republicanos), quarto colocado com 2.115 votos ou 1,71%. O parlamentar foi reeleito e manteve atuação política no interior paulista, inclusive com agendas relacionadas à região, mas não apareceu no levantamento de emendas destinadas a Marília entre 2023 e 2025.
Sargento Neri (Patriota) recebeu 1.973 votos (1,60%), mas não conseguiu se eleger deputado estadual. Posteriormente, voltou sua atuação para a política regional e foi eleito vereador em Garça.
Na sequência aparece Carlos Giannazi (Psol), com 1.826 votos ou 1,48%. Ele foi reeleito com 276.811 votos e terminou como o segundo deputado estadual mais votado de São Paulo, atrás somente de Suplicy. Apesar da votação recebida em Marília, não apareceu entre os parlamentares que direcionaram recursos à cidade no levantamento realizado pelo jornal.
Professora Bebel (PT), com 1.507 votos (1,22%), apresenta situação diferente. A parlamentar mantém uma base política relacionada principalmente à área da Educação e destinou recursos para Marília. Entre as emendas identificadas pelo Marília Notícia, há um repasse de R$ 100 mil ao Hospital Espírita de Marília (HEM).
Outro que manteve relação concreta com o município foi Major Mecca (PL), que recebeu 1.369 votos ou 1,11%.
Além da proximidade política com Juliano da Campestre, documentos oficiais da Assembleia Legislativa mostram que Mecca destinou em 2023 R$ 100 mil para a Associação dos Deficientes Visuais de Marília (Adevimari).
Dr. Ricardo Paoliello (PTB) ficou em nono lugar, com 1.016 votos (0,82%). Candidato ligado a Marília, não conseguiu se eleger.
Fecha o grupo Tomé Abduch (Republicanos), com 916 votos ou 0,74%.
Apesar da votação relativamente pequena em Marília, Abduch teve enorme desempenho no restante do Estado. Recebeu 221.656 votos e foi o sexto deputado estadual mais votado de São Paulo em 2022.
Desde então, distribuiu emendas para diferentes municípios e instituições paulistas e manteve intensa agenda pelo Estado. Marília, porém, ficou fora das destinações identificadas pelo levantamento do Marília Notícia entre 2023 e 2025.
O que os números revelam sobre a representatividade?
O levantamento não significa que um deputado eleito por São Paulo tenha obrigação legal de destinar emendas para cada município onde recebeu votos. Deputados federais representam o Estado, enquanto os estaduais exercem representação igualmente estadual.
Os números, entretanto, ajudam a demonstrar o resultado prático das escolhas eleitorais feitas pelo município.
Entre os candidatos com vínculos diretos com Marília ou com a região, a relação política permaneceu mais frequente mesmo depois das urnas. Capitão Augusto, Vinicius Camarinha e Dani Alonso mantiveram forte atuação; Juliano da Campestre e Walter Ihoshi continuaram articulando mesmo sem mandato.
Entre os nomes de fora, há exceções importantes. Vinicius Carvalho, Mauricio Neves, Professora Bebel e Major Mecca estão entre aqueles que apresentaram alguma contrapartida política identificável, por meio de recursos, agendas ou articulações.
Mas outra parcela expressiva praticamente desapareceu do radar local depois de receber os votos.
Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro, Ricardo Salles, Guilherme Boulos, Vanderlei Macris, Eduardo Suplicy, Sebastião Santos, Carlos Giannazi e Tomé Abduch tiveram situações diferentes entre si, mas compartilham um dado central: a votação obtida em Marília não se converteu em uma atuação proporcional e contínua em favor do município.
Em 2022, milhares de marilienses ajudaram políticos de diferentes correntes ideológicas a conquistar ou tentar conquistar mandatos.
Quatro anos depois, às vésperas de uma nova eleição, o histórico permite ao eleitor fazer outra conta: não apenas quantos votos cada candidato pediu em Marília, mas o que efetivamente fez pela cidade depois de recebê-los.




