Não são só as empresas.
As famílias brasileiras também estão afogadas em dívidas, que já consomem R$ 3 de cada R$ 10 da renda disponível.
Há quatro anos, na largada da campanha eleitoral de 2022, uma das principais promessas do então candidato Lula era justamente tirar o peso da dívida de cima dos ombros dos brasileiros.
Mas quatro anos e duas edições do Desenrola depois, as pessoas estão mais endividadas do que nunca.
Os números do Banco Central mostraram que o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas atingiu 28,9% em julho – o maior da série histórica iniciada em março de 2011.
A inadimplência das pessoas físicas também bateu novo recorde: subiu para 5,8%, considerando todas as modalidades de financiamento, e bateu em 7,8% no crédito livre.
O prazo final para a adesão ao Desenrola 2.0 era 31 de agosto, então os números do BC – que vão até julho – ainda não captam o que aconteceu no último mês. Ainda assim, todo o alívio que havia ocorrido com o primeiro Desenrola, que vigorou entre julho de 2023 e maio de 2024, já ficou no retrovisor.
A inadimplência (definida como atrasos superiores a 90 dias) está em níveis recordes em praticamente todas as linhas de crédito para as pessoas físicas.
As concessões do consignado privado, a mais recente alternativa de financiamento pessoal com juros mais baixos, dispararam nos últimos meses. Mas os calotes também cresceram rapidamente e já ficam acima da média geral dos empréstimos com recursos livres.
O atraso nos pagamentos das parcelas dessa nova modalidade atingiu 10% do total, cerca de 4 vezes a inadimplência do consignado para os servidores públicos, que foi de 2,7%.
No rotativo do cartão de crédito, outro recorde histórico. A inadimplência atingiu 65,8%.
As fintechs incentivaram a bancarização e a concessão de crédito. Mas ajudaram também a catapultar o número de pessoas penduradas no cartão.
Dos 96 milhões de brasileiros com cartão, quase 53% não estão com a fatura em dia e usam o rotativo – no qual os juros são da ordem de 15% ao mês.
A questão vem começando a preocupar o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que indicou nos últimos dias a possibilidade de instituir regras prudenciais.
De acordo com o BTG, as ferramentas possíveis seriam maiores exigências de capital e de reserva, além de um aumento no IOF. Isso representaria juros ainda mais elevados na ponta final, mas a preocupação do BC estaria justamente em segurar a oferta de crédito.

O Governo, entretanto, continua jogando na direção contrária. Na semana passada, por exemplo, facilitou ainda mais as condições do Move Brasil, o programa para motoristas de aplicativos e taxistas.
O prazo de financiamento subiu de 72 para 84 meses, mantendo os seis meses de carência do principal. O valor dos veículos subiu de até R$ 150 mil para até R$ 200 mil.
O economista Alberto Ramos, da Goldman Sachs, projeta para os próximos meses uma deterioração nos indicadores de crédito, em razão da Selic elevada, da desaceleração do crescimento do PIB e do enfraquecimento no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, o serviço da dívida em relação à renda disponível nunca havia sido tão elevado.
“No entanto, a atividade de concessão de crédito pelos bancos públicos, juntamente com as linhas de crédito patrocinadas pelo Governo, deve continuar a sustentar o ciclo de crédito,” escreveu Ramos num relatório recente.
Os números mostram que as instituições financeiras públicas e as modalidades de financiamento mais diretamente influenciadas pelo Governo estão avançando mais rapidamente do que o crédito livre e privado.
A expansão do crédito direcionado total, somando pessoas físicas e jurídicas, registrou um avanço real de 8% em julho contra julho do ano passado. Estão aí algumas linhas do financiamento imobiliário e do crédito rural. Já o crédito livre desacelerou e teve uma alta real mais modesta, de 2,5%.
Com os bancos privados aumentando a cautela, os públicos voltaram a ganhar share e já respondem por 41,7% do total do crédito disponível na economia.




