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EXCLUSIVO: C6 Bank compra a Alymente e entra no bilionário mercado de benefícios

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Durante cinco décadas, o mercado de benefícios se resumiu às ofertas do vale-refeição e do vale-alimentação, concentradas nas mãos de pouquíssimas empresas. Entretanto, esse cenário vem sendo redesenhado a partir da chegada de diversos players com apetite para desafiar esse status quo.

O C6 Bank é o mais novo peso-pesado a entrar nessa disputa. E o atalho escolhido pelo banco digital está sendo anunciado nesta quinta-feira, 3 de setembro, com a aquisição de 100% das operações da Alymente, startup fundada em 2017, por ex-funcionários da Stone, e dona de um cartão multibenefícios.

Os termos da transação, antecipada com exclusividade ao NeoFeed, não foram divulgados. Mas o que fica bem claro é que, com esse movimento inorgânico, o C6 Bank queima algumas etapas e acelera em direção a um mercado que movimenta mais de R$ 150 bilhões por ano.

“Essa era uma das peças que faltava na nossa prateleira para empresas”, diz Ricardo Botelho, head de pessoa jurídica do C6 Bank. “E com a Alymente, que já tem um produto validado e grandes empresas no portfólio, nós já começamos com tração para escalar mais rápido essa operação”.

Cofundador e CEO do banco digital, Marcelo Kalim já havia tornado pública a intenção do C6 Bank de ingressar nessa arena há exatos 16 dias. E mesmo não revelando qual seria o caminho para tirar esse plano do papel, ele deu uma pista sobre a tese reforçada agora por Botelho.

“O segmento de benefícios é bastante complementar ao que já ofertamos para pequenas e médias empresas”, disse Kalim, naquela oportunidade, ao NeoFeed. “Vamos entrar com esse produto totalmente integrado ao nosso app e ao nosso cartão ainda nesse semestre”.

Alguns dados ajudam a explicar por que o C6 Bank escolheu a Alymente para tirar esses planos do papel. A startup atende mais de 100 mil beneficiários por meio de uma carteira que já ultrapassa 1,2 mil companhias. E que inclui desde pequenas empresas até nomes como Heineken, Nissan e Pernod Ricard.

Essa base de clientes tem acesso a um cartão que não se restringe aos benefícios de refeição e alimentação. Áreas como transporte, telemedicina, apoio psicológico e acesso a academias também estão incluídas nessa oferta.

Ao mesmo tempo, o portfólio da Alymente envolve outros recursos destinados aos departamentos de recursos humanos, como gestão de frotas, despesas corporativas, premiações e reembolsos de funcionários. Mas, na visão da companhia, esse leque ainda tinha suas lacunas.

“Mais de 70% da nossa base vinha demandando soluções financeiras que só um banco consegue, de fato, oferecer”, diz André Purri, cofundador da Alymente. “Isso aumenta a nossa diferenciação e ter o C6 como o motor por trás dessas ofertas dispensa apresentações”.

Apesar dessa afirmação, vale citar alguns indicadores do C6 Bank para se ter uma dimensão da sua operação. No primeiro semestre de 2026, o seu lucro líquido cresceu 20% sobre igual período, um ano antes, para R$ 1,25 bilhão. Já a receita líquida avançou 48%, para R$ 6,26 bilhões.

Com um total de ativos de R$ 171 bilhões e um retorno sobre o patrimônio anualizado (ROAE) de 38%, o banco digital fechou a primeira metade do ano com uma carteira de crédito de R$ 99,8 bilhões, alta de 38%, e 42 milhões de clientes.

Embora não divulgue quantas empresas compõem essa base, o C6 Bank aponta que houve um crescimento de 30% no número de clientes PJ nos últimos 12 meses. Nessa mesma toada, a companhia também vem aumentando o volume de ofertas à disposição desse público.

Hoje, esse portfólio inclui frentes como conta digital, máquinas de pagamento, cartões, crédito e investimentos. E, muito em breve, também passará a contar com uma linha de folha de pagamentos, abrindo mais uma porta para ampliar a presença nesses clientes.

A combinação desses produtos e serviços com os benefícios da Alymente é a aposta do C6 Bank para se diferenciar da concorrência, mesmo largando depois dos rivais nessa corrida. Entretanto, antes que isso aconteça, será preciso cumprir alguns trâmites.

Como parte desse processo, uma das etapas é a obtenção do sinal verde do Banco Central para a transação. A expectativa é de que essa aprovação venha em um prazo de dois a três meses.

Superada essa fase e concluída a aquisição, o banco irá incorporar o time de 40 profissionais da Alymente, cuja marca deixará de existir. Com um cartão emitido pela Mastercard, a operação passará a se chamar C6 Benefícios e será comandada por Purri.

“Vamos ter todas essas ofertas na mesma plataforma”, diz Botelho. “A empresa vai poder fazer toda a gestão do seu negócio num único lugar e os nossos clientes pessoa física que porventura sejam beneficiários dessas companhias também vão acessar todos os recursos dos benefícios no nosso app”.

Nas empresas, a ideia não é priorizar nenhum perfil, e sim, companhias de todos os portes. Já para escalar essa operação, o plano é explorar as vendas cruzadas nas bases do C6 Bank e da Alymente. E, em paralelo, usar o apelo dessa oferta mais completa, em uma única plataforma, para atrair novos clientes.

“Velhos conhecidos”

Ao ingressar nessa nova fronteira, o C6 Bank vai encontrar, mesmo que indiretamente, “velhos conhecidos”, de uma outra disputa: os grandes bancos, que têm participações nas principais empresas do setor de benefícios.

A relação inclui a Ticket, com o Itaú Unibanco; a Alelo, com o Bradesco e o Banco do Brasil; e a Pluxee (ex-Sodexo), com o Santander. Ao lado da VR, esse trio ainda domina mais de 80% de um mercado com receita anual superior a R$ 150 bilhões e com aproximadamente 22 milhões de usuários.

Essa cifra bilionária tem origem no Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), responsável por reger as práticas dos segmentos de vale-refeição e vale-alimentação. E que, nos últimos sete anos, passou a atrair startups dispostas a avançar no terreno controlado, até então, por esse quarteto.

Fundada em 2019, assim como o C6 Bank, a Flash foi um desses novos players. Desde então, a companhia encorpou sua oferta de benefícios flexíveis com as linhas de gestão de pessoas e de despesas. E, mais recentemente, ganhou um bom fôlego para seguir enfrentando as grandes rivais.

O reforço veio com a captação de um aporte Série D de R$ 150 milhões, liderado pela Battery Ventures e por Kevin Efrusy, sócio da Accel Partners, onde ganhou fama como um dos primeiros investidores do Facebook. Antes dessa rodada, a Flash já havia levantado mais de R$ 800 milhões.

A primeira leva de novatas também incluiu nomes como a Caju, a Swile, a Raiô e a própria Alymente, comprada agora pelo C6. Na sequência, essas startups ganharam a companhia de empresas como PicPay e iFood. Mais recentemente, quem também se juntou a esse batalhão foi o BTG Pactual.

André Purri, cofundador da Alymente (à esq.), e Ricardo Botelho, head de PJ do C6 Bank

Em 20 de agosto deste ano, o banco de André Esteves anunciou sua estreia nesse espaço com o lançamento do cartão BTG Benefícios, integrado ao seu aplicativo e a uma plataforma de gestão digital para as empresas clientes.

Em paralelo a essa movimentação intensa, uma série de mudanças no âmbito regulatório por trás do PAT alimentou ainda mais o interesse desses novos players pelo setor. Após um longo período de discussões e trâmites, muitas dessas novas regras passaram a vigorar, de fato, neste ano.

Uma dessas principais mudanças envolveu o modelo de arranjo aberto, que estabelece que qualquer cartão de benefício deve ser aceito em qualquer maquininha também na esfera do PAT, tal como acontece com cartões convencionais.

Historicamente, o modelo que predominava no setor eram os arranjos fechados, nos quais as empresas líderes de mercado eram, ao mesmo tempo, emissoras, bandeiras e adquirentes.

“Os arranjos abertos derrubaram uma barreira de entrada importante”, diz Botelho, do C6 Bank. “A partir dessa mudança, nós começamos a avaliar e entendemos que fazia todo sentido entrar nessa disputa.”

O novo arcabouço também limitou as taxas cobradas de restaurantes a um teto de 3,6%, além de proibir os rebates, como ficaram conhecidos os descontos concedidos pelas companhias de benefícios às empresas, especialmente as de grande porte, que contratavam os seus serviços no âmbito do PAT.

Antes mesmo dessa proibição, essa era justamente uma das práticas que as empresas entrantes no setor usavam como argumento para criticar e combater o domínio exercido por Ticket, Alelo, Pluxee e VR.

Apetite judicial

Nesse contexto, a tensão crescente entre os dois lados se traduziu também na esfera judicial. Em um desses episódios, a Associação Brasileira das Empresas de Benefícios ao Trabalhador (ABBT) moveu um processo no qual alegava que as startups atuavam de maneira ilegal no PAT.

Essa disputa teve seu último capítulo em março deste ano, quando o Tribunal de Justiça de São Paulo julgou improcedentes as acusações de concorrência desleal feitas pela associação, que havia encampado a “defesa” das quatro grandes do setor. Isso não encerrou, porém, os conflitos nesse front.

Outro processo movido pela ABBT, agora no âmbito do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) tem como alvo o iFood. Entre outros pontos, a entidade alega que a empresa favorece o iFood Benefícios em sua plataforma de delivery, em detrimento da concorrência.

Em uma amostra de como esse caldeirão ainda promete muitas reviravoltas, a ABBT pode ganhar, em breve, o reforço de um antigo “desafeto” nessa ação. A Flash, um dos principais alvos da associação, pediu recentemente sua admissão como terceira interessada nesse processo.

À parte desse fogo cruzado, Purri, da Alymente, enxerga um saldo positivo nas batalhas travadas nessa trincheira do mercado de benefícios, ao ressaltar que “quanto mais competição, melhor”, pois quem acabará sendo beneficiado serão os clientes na ponta, sejam eles as empresas ou seus beneficiários.

“O mercado é muito grande. Isso sem falar de outros benefícios além de refeição e alimentação”, diz ele. “No passado, 95% desse bolo estava nas mãos de quatro empresas. Agora, tanto essas companhias como as entrantes vão ser obrigadas a se desafiar e a inovar. Vai ser benéfico para todo mundo.”



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