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Nova Fronteira aprova plano de recuperação com deságio de 70%

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Quase dois anos após entrar em recuperação judicial com R$ 600 milhões em dívidas, o grupo agropecuário Nova Fronteira conseguiu aprovar o plano de reestruturação com os credores, reduzindo o passivo e dando uma chance de resgatar a confiança do mercado com a companhia liderada por João Paulo Marquezam da Silva.

Os membros da família Marquezam da Silva também fazem parte do processo de recuperação judicial, por atuarem como produtores rurais na pessoa física.

Concentrada em Mato Grosso, a Nova Fronteira tem mais de 25 mil hectares de terras próprias. O grupo é grande na pecuária, possuindo um confinamento com capacidade estática para 15 mil cabeças (além de animais a pasto), somados a 6 mil hectares de soja e 1,5 mil de milho.

A história agropecuária da família Marquezam começou em 1985, quando Hélio Alves da Silva e a esposa, Maria Madalena, fundaram a Nova Fronteira, comprando uma fazenda em Mirassol D’Oeste (MT). Até 2012, o grupo tinha 10 mil hectares. O grande salto veio na pandemia, quando a família se alavancou no meio do boom das commodities, adquirindo fazendas.

Assim como ocorreu com diversos produtores, a queda dos preços dos grãos (e do boi gordo, notadamente em 2023) castigou os resultados do grupo. Na safra 2022/23, o grupo teve um prejuízo de R$ 80 milhões.

“Nós nunca quisemos chegar nesse ponto. Vínhamos expandindo a operação, melhorando a eficiência, mas a queda de commodities, aumento da taxa de juros e o endividamento de curto prazo não estava condizente com o nosso fluxo. Não conseguimos alongar”, disse Marquezamda Silva ao The AgriBiz.

Antes da recuperação judicial, a Nova Fronteira buscou alternativas de financiamento, o que incluiu uma tentativa de levantar R$ 50 milhões com a emissão de um CRA no fim de 2023. Diante do receio dos potenciais investidores, a operação não saiu do papel, o que apertou ainda mais o fluxo de caixa, de acordo com o produtor rural.

Segundo ele, o cenário tornou a recuperação judicial uma saída inevitável para que o grupo conseguisse preservar as terras e repactuar as dívidas para que elas coubessem na nova realidade de mercado.

“Nenhum produtor quer ir para a recuperação judicial. É traumático, complexo, mas foi uma última alternativa. Antes de entrar em RJ, liquidamos todo o caixa existente”, disse Marquezam da Silva.

Os credores da Nova Fronteira

Na recuperação judicial, os bancos estavam entre os principais credores, somando mais de R$ 325 milhões em passivo. O restante da dívida era com a Agrolina, que vendeu uma fazenda em Mato Grosso para a companhia da família Marquezam da Silva.

Embora seja relevante, a compra da fazenda da Agrolina não foi a gota d’água para o estrangulamento financeiro, argumentou o produtor. Nesse caso, a operação fora construída com prazo longo, com dez anos para quitar. “O que não estava no longo prazo era dívida bancária”, disse.

Entre os bancos — a maior parte com garantia real —, os maiores credores eram BRB, com uma dívida de R$ 70 milhões, seguido por Rabobank (R$ 57 milhões), Caixa Econômica (R$ 54 milhões), Banco do Brasil (R$ 40 milhões) e Banco da Amazônia (R$ 32 milhões), entre outros.

“Foi muito difícil. Você perde fornecedor, que não quer mais estar contigo. Foi traumático, não foi bem aceito no começo”, admitiu Marquezam.

Ao longo do processo, o grupo conseguiu convencer a maior parte dos credores, o que permitiu a aprovação do plano. Ainda assim, nem todos saíram felizes com o desfecho.

O Banco do Brasil, por exemplo, votou contrariamente ao plano de recuperação judicial. Por outro lado, outros credores mudaram de postura ao longo do processo. A Caixa, que tinha objeções no começo do ano, aprovou o plano na negociação final, em agosto.

Nas negociações, houve até uma rara mediação entre Nova Fronteira e Agrolina, conduzida pelo Ministério Público.

“O MPMT chamou credor e devedor e falou ‘vamos negociar’. Cada linha do contrato foi negociada, um ponto essencial para o grupo, porque é uma área de terras extensa que foi repactuada e vai entrar no fluxo de pagamentos”, contou Victor D’Elia, advogado no ERS, escritório que assessorou o grupo.

Outras surpresas também apareceram no processo, como a negociação com cooperativas de crédito, que se mostraram dispostas a entrar dentro do plano de recuperação judicial, mesmo tendo créditos extraconcursais, ressaltou o advogado do grupo.

O plano de recuperação, já homologado pela Justiça, teve a adesão de 76% dos credores, com aprovação de 100% dos trabalhistas, 84,2% dos credores com garantia real, 66,6% dos credores quirografários e 100% das micro e pequenas empresas.

A próxima safra

Com as negociações finalizadas, o grupo estima uma média de 70% de deságio no valor da dívida original — considerando as diferenças de descontos entre cada uma das opções previstas no plano. A carência para pagamentos, na média, será de três anos, com pagamento nos dez anos seguintes.

Marquezam da Silva confia que o grupo vai gerar pelo menos R$ 20 milhões em caixa por safra, o que seria suficiente para honrar os pagamentos ao longo dos próximos anos.

Para a safra 2026/27, que está prestes a começar, a Nova Fronteira vai plantar a área de soja graças à parceria com um arrendatário. “A pessoa arrenda, financia combustível, produto, garante renda e divide lucro”, explicou Marquezam.

Na pecuária, a lógica é parecida, com os pecuaristas deixando o gado para engorda no confinamento do grupo, o que reduz os riscos de não conseguir dinheiro para custear a produção.

No médio prazo, o produtor rural vislumbra atrair um sócio. “Vamos trabalhar arduamente para quitar todas as dívidas e, tendo a possibilidade de entrada de um novo sócio na estrutura, uma joint-venture, acho muito válido”, disse o produtor.



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