Os preços futuros do açúcar passam por um rali desde meados de agosto, num movimento que se tornou ainda mais pronunciado nos últimos dias.
Nesta quinta-feira, os contratos com vencimento em outubro de 2026 voltaram a se aproximar da máxima em 16 meses, aos 18,76 centavos de dólar por libra-peso — num movimento de valorização que se estendeu até os contratos da safra 2028/29. O que justifica a alta?
Tem fundamento, mas tem também (e principalmente na última semana) um movimento especulativo sustentando as cotações do açúcar na bolsa de Nova York.
“Os fundos fizeram uma reviravolta. Eles vinham vendidos no açúcar por longos meses e, em poucas semanas, reverteram essa posição para ficarem comprados, aumentando semana a semana essa posição”, explica Marcelo Bonifácio Filho, analista de inteligência de mercado da StoneX.
Os últimos dados divulgados pelo CFTC, com a posição de 1º de setembro, mostraram que os fundos adicionaram mais 28.500 lotes comprados naquela semana, chegando a mais de 132 mil lotes comprados, o que equivale a 6,7 milhões de toneladas, lembra Arnaldo Corrêa, sócio-diretor da Archer Consulting, empresa especializada em assessoria para o mercado de futuros de commodities.
“Temos um longo caminho pela frente, mas ainda acredito que a direção do mercado é para cima”, disse Corrêa, ao The AgriBiz.
O fundamento que sustenta essa mudança dos fundos — de mudarem de “vendidos” para “comprados” — está apoiado principalmente nas mudanças climáticas e em seus impactos em grandes produtores de açúcar, levando o mercado a ver uma oferta mais restrita do adoçante no mundo.
Desde agosto, ficou mais claro o impacto da produtividade abaixo do normal na Índia, por exemplo, com os preços em Maharastra, um dos principais polos do adoçante, subindo mais de 60% até o final do mês passado (na comparação com julho).
Diante da alta nos preços, o governo indiano tem sinalizado medidas como uma cota de importação de um milhão de toneladas de açúcar bruto isenta de imposto, além de fazer com que distribuidores reduzam seus estoques, com a finalidade de melhorar o cenário local de oferta do adoçante.
A reação do governo indiano ocorre em resposta a incertezas em relação à produção, com o El Niño coincidindo com o início da moagem de cana por lá (nos meses de outubro e novembro) em meio a baixos estoques das safras 2024/2025 e 2025/26.
“A Índia vai importar pelo menos 500 mil toneladas de açúcar nesta safra. Cerca de 250 mil devem vir das refinarias costeiras, o que não mudaria tanto o fluxo comercial, mas reforça o risco de estarmos indo para um cenário mais apertado”, diz Lívea Coda, coordenadora de inteligência de mercado na Hedgepoint.
Queda na produção europeia
A Índia não é a única impactada pelo clima. Na União Europeia, o calor intenso levou a perdas principalmente na França, Alemanha e Reino Unido, dado que a escassez de chuvas aconteceu logo após o plantio da beterraba (a principal fonte de açúcar na região), impactando tanto a produção interna quanto as exportações.
“Entre os países, a França foi a mais impactada, como o maior produtor de beterraba no bloco. Além do calor, os baixos preços do açúcar já tinham levado produtores na Europa a diminuírem área”, lembra Mariana Zechin, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA.
Na França, a produção deve ficar cerca de 20% abaixo da média dos últimos cinco anos, lembra Corrêa. Na Alemanha, uma das principais organizações que representa a indústria local mostrou uma projeção de queda de 23% na produção de açúcar em relação ao ano passado, somando 3,3 milhões de toneladas.
E o Brasil?
No Brasil, as incertezas em relação aos impactos do fenômeno climático estão no Centro-Sul. Na primeira quinzena de agosto, a produção de açúcar caiu 7,9%, para 3,31 milhões de toneladas, apesar de um crescimento de 2% na moagem, segundo dados divulgados pelo Ministério da Agricultura.
“As usinas estão com dificuldade de maximizar a produção de açúcar porque, com a chuva, o ATR [açúcar total recuperável] está menor do que a média de cinco anos para essa quinzena. A média é de 150 [quilos por tonelada], estamos em 140”, nota Coda.
As chuvas também já começam a causar percalços na colheita. Com isso, a consultoria corrigiu as projeções para a moagem da safra 2026/27, apontando para uma queda de 700 mil toneladas em relação às estimativas anteriores. Se confirmadas, devem levar a uma produção de 39,2 milhões de toneladas de açúcar na safra brasileira.
Só na primeira quinzena de setembro, as usinas já perderam de dois a três dias de atividade, segundo estimativas da StoneX. E os meses mais críticos de chuva ainda nem chegaram.




