Gostaria de retomar um tema sobre o qual venho falando há alguns anos: o chamado “inverno demográfico”, isto é, a rápida redução das taxas de fecundidade e suas consequências para o futuro das sociedades. A grande verdade é que o problema demográfico do mundo não é o que alguns chamam de “explosão populacional”, mas, cada vez mais, a redução da população, o envelhecimento e a diminuição do número de pessoas em idade ativa.
Os dados atuais confirmam essa preocupação. Ainda que eu tenha ressalvas quanto a algumas premissas e projeções da ONU, seus dados mais recentes já evidenciam uma mudança importante no cenário demográfico mundial. A organização projeta que a população mundial atingirá cerca de 10,3 bilhões de pessoas em meados da década de 2080 e, depois disso, começará a declinar. Com relação à taxa global de fecundidade está atualmente em torno de 2,25 filhos por mulher, muito abaixo dos 3,31 registrados em 1990.
Portanto, a questão mudou profundamente. Durante décadas fomos bombardeados pela ideia de que o grande perigo para a humanidade seria o excesso de população. Hoje, os próprios dados internacionais mostram que muitos países enfrentam exatamente o problema contrário: faltam crianças, faltam jovens e, no futuro, faltarão pessoas para sustentar uma população cada vez mais envelhecida.
E o Brasil também está entrando rapidamente nesse processo. Segundo o IBGE, a taxa de fecundidade total brasileira caiu de 2,32 filhos por mulher em 2000 para 1,58 em 2022 e aproximadamente 1,57 em 2023. O Instituto projeta a continuidade desse processo, com uma taxa de 1,47 em 2030 e 1,44 em 2040.
Sem dúvida, esses números são extremamente preocupantes. Para que uma população se mantenha relativamente estável no longo prazo, sem considerar os efeitos da migração e de acontecimentos extraordinários, utiliza-se como referência uma taxa de fecundidade próxima de 2,1 filhos por mulher. O Brasil está muito abaixo desse nível e, segundo as projeções do IBGE, continuará abaixo dele nas próximas décadas.
Não estamos, portanto, diante de uma questão secundária. Estamos diante de uma transformação que afetará a Previdência Social, o mercado de trabalho, o crescimento econômico, o sistema de saúde, a arrecadação tributária e, principalmente, a própria estrutura da sociedade. Uma população que envelhece rapidamente e não consegue repor suas gerações perde dinamismo econômico e social.
Mas, afinal, por que as pessoas estão tendo menos filhos?
É evidente que existem razões econômicas. O custo de criar filhos aumentou, os jovens se casam mais tarde, há dificuldades de acesso à moradia e muitas famílias enfrentam insegurança financeira. Mas acredito que seria um erro atribuir o fenômeno apenas à economia. É importante salientar que, no passado, as famílias eram, felizmente, numerosas e a situação geral da vida era muito pior do que atualmente, tanto no aspecto econômico quanto nas questões de saúde e de recursos médicos.
Existe também uma transformação cultural profunda. Durante décadas, construiu-se uma visão segundo a qual a realização individual deveria ocupar o centro da existência humana. Carreira, consumo, autonomia e liberdade individual passaram, muitas vezes, a ser apresentados como valores superiores à constituição de uma família.
Não se trata de negar a importância da liberdade individual ou da realização profissional. O problema surge quando o individualismo transforma o casamento, a maternidade, a paternidade e os filhos em obstáculos ao projeto pessoal. Uma sociedade que ensina seus jovens a enxergar os filhos apenas como custo, sacrifício ou impedimento para a realização individual dificilmente conseguirá reverter suas taxas de natalidade apenas oferecendo incentivos financeiros.
É preciso mudar também a cultura. A família precisa voltar ao centro e é justamente nesse ponto que considero extremamente importante o artigo recente de Fabio Fuiano, publicado no site italiano Corrispondenza Romana, sobre a necessidade de uma restauração da família.
Fuiano sustenta que a solução para o declínio demográfico passa por trazer novamente o casamento e a família para o centro da sociedade e do ordenamento jurídico. Ele recorre às reflexões de Henri Delassus para defender a ideia de que a família não é apenas uma associação de indivíduos, mas a célula fundamental da sociedade.
Essa reflexão merece ser levada muito a sério. Durante grande parte da história, a sociedade não foi organizada simplesmente a partir de indivíduos isolados, mas de famílias. O homem e a mulher constituíam um lar; desse lar nasciam os filhos; os filhos formavam novas famílias; e dessa rede de famílias surgiam comunidades, cidades e nações.
Quando a família é fortalecida, a sociedade se fortalece. Quando a família se desagrega, a sociedade também sofre as consequências. O Papa Leão XIII, na encíclica Sapientiae Christianae, já afirmava que a família pode ser considerada o “berço da sociedade civil” e que dela depende, em grande parte, o destino dos Estados.
Essa visão não é apenas religiosa. Ela pode ser observada também sob a perspectiva econômica e demográfica. Sem novas famílias e sem novos filhos, não existem novas gerações. Sem novas gerações, não existe renovação da população. E sem renovação da população, uma sociedade começa lentamente a envelhecer, encolher e perder dinamismo.
Considero oportuno refletir aqui sobre a Revolução Francesa e sobre as profundas transformações iniciadas na chamada modernidade e intensificadas por aquele processo aparentemente revolucionário.
Não pretendo afirmar que a Revolução Francesa tenha sido a causa direta e exclusiva de todas as ideologias revolucionárias que surgiram posteriormente. Isso seria uma simplificação histórica. Entretanto, é inegável que a Revolução Francesa representou uma ruptura profunda com instituições, tradições e formas de organização social que haviam estruturado a Europa durante séculos.
Entre essas rupturas, ocorreu uma crescente valorização do indivíduo como unidade fundamental da sociedade, acompanhada por um forte processo de secularização e pelo enfraquecimento de instituições tradicionais, especialmente da Igreja e, em diferentes contextos, da família.
O próprio artigo de Fabio Fuiano, inspirado em Henri Delassus, apresenta essa crítica: quando a sociedade passa a considerar apenas indivíduos isolados, deixando de reconhecer a família como sua célula fundamental, ocorre uma desorganização da própria estrutura social.
Posteriormente, outras experiências revolucionárias e ideológicas — entre elas o comunismo, o fascismo e o nazismo — também promoveram profundas rupturas com instituições, tradições e concepções anteriores de sociedade, embora por caminhos, fundamentos e objetivos, aparentemente diferentes entre si.
É importante, portanto, distinguir essas ideologias: elas não são iguais e possuem diferenças entre si. Mas podemos reconhecer que existe, na história moderna, uma sucessão de rupturas com instituições tradicionais e com determinadas concepções da pessoa humana, da família e da sociedade, inclusive em relação à visão cristã que marcou profundamente a civilização ocidental.
O grande paradoxo é que, depois de décadas de preocupação com o chamado excesso populacional, hoje muitos governos procuram, diante do envelhecimento populacional, estimular seus cidadãos a terem mais filhos.
Parece que o Estado agora quer aquilo que, em determinados momentos, ajudou a desestimular. O fenômeno é bastante curioso. Durante décadas e até nossos dias, diversos países adotaram políticas de controle da natalidade e difundiu-se a ideia de que menos filhos significariam maior prosperidade e liberdade.
Hoje, diante do envelhecimento populacional, vários desses mesmos países estão oferecendo benefícios financeiros, incentivos fiscais e outras medidas para estimular os casais a terem filhos. Mas os resultados continuam, em muitos casos, modestos. Isso acontece porque não se muda uma cultura apenas com dinheiro. Se durante décadas uma sociedade transmite a mensagem de que o sucesso está no indivíduo, na carreira, no consumo e na autonomia, não será suficiente simplesmente oferecer um benefício financeiro para que os casais tenham filhos.
A verdadeira necessidade é reconstruir uma cultura favorável à família e mostrar novamente que, embora os filhos envolvam custos, responsabilidades e sacrifícios, eles não podem ser reduzidos a uma simples questão econômica. Eles representam a continuidade da própria sociedade.
A defesa da família, portanto, não é apenas uma questão moral ou religiosa; é também uma questão econômica e de interesse nacional.
Quem nascerá para trabalhar daqui a vinte ou trinta anos? Quem pagará impostos? Quem sustentará os sistemas previdenciários? Quem ocupará as profissões necessárias ao funcionamento da sociedade? Quem cuidará dos idosos? Quem produzirá novos conhecimentos, empreenderá e criará riqueza? A resposta é simples: as novas gerações.
Por isso, a demografia não pode ser tratada como um assunto exclusivamente estatístico.
Uma criança hoje representa um futuro trabalhador, profissional, empresário, cientista, professor, médico, engenheiro, agricultor, pai ou mãe de família. A redução dos nascimentos representa, portanto, uma redução da capacidade futura de uma nação.
O próprio IBGE utiliza suas projeções populacionais como instrumento para planejamento público e privado, justamente porque a evolução da população afeta profundamente os indicadores econômicos e sociais.
É premente salvar a população fortalecendo a família. Não acredito que a solução esteja simplesmente em incentivar as pessoas a terem filhos. A solução deve ser outra: criar uma sociedade em que formar uma família e ter filhos volte a ser uma possibilidade desejada, respeitada e valorizada.
Isso significa políticas públicas de apoio à família, melhores condições de habitação, educação, saúde e segurança; mas significa também algo muito mais profundo: reconhecer socialmente a importância da maternidade e da paternidade.
Uma mãe que decide dedicar parte de sua vida à criação dos filhos não deveria ser vista como alguém que “deixou de produzir”. Um pai que assume a responsabilidade de sustentar e educar sua família não deveria ser visto apenas como alguém submetido a uma obrigação econômica.
Criar e educar filhos é uma das maiores contribuições que um casal pode oferecer à sociedade. Precisamos recuperar o respeito pela família constituída pelo casamento, pela responsabilidade dos pais e pela importância da convivência entre diferentes gerações.
Precisamos também reconhecer que a família não é inimiga da liberdade. Ao contrário, é na família que a pessoa normalmente aprende a amar, respeitar, compartilhar, perdoar, assumir responsabilidades e viver em sociedade.
E a fundamental dimensão cristã?
Para mim, existe ainda uma dimensão importantíssima que não pode ser esquecida: a dimensão cristã. A civilização ocidental foi profundamente marcada pelo cristianismo e por sua concepção da dignidade da pessoa humana, do casamento, da família e da solidariedade. A família cristã não é simplesmente uma unidade econômica. É uma comunidade de amor, responsabilidade e transmissão da vida.
O amor entre marido e mulher naturalmente se projeta para os filhos e, posteriormente, para a própria comunidade. Essa ideia aparece também no artigo de Fuiano, ao recuperar a reflexão de Delassus de que o amor começa unindo marido e mulher e, pais e filhos e, progressivamente, amplia os vínculos entre as famílias. É justamente essa capacidade de formar vínculos que precisamos recuperar.
Uma sociedade composta por indivíduos cada vez mais isolados pode até possuir riqueza material, mas corre o risco de perder aquilo que a mantém unida. Como recorda a tradição cristã, o homem não foi feito para viver sozinho.
Em 2022, quando escrevi sobre o “inverno demográfico”, eu já chamava a atenção para a queda da fecundidade e para o risco de redução populacional. Quatro anos depois, os dados são ainda mais preocupantes. A fecundidade mundial continua em queda, e as projeções indicam que a população mundial atingirá seu máximo neste século e depois começará a declinar. No Brasil, a taxa de fecundidade já está muito abaixo do nível de reposição e as projeções do IBGE indicam que permanecerá baixa nas próximas décadas. Segundo o IBGE, a população brasileira deverá atingir seu máximo em 2041 e, a partir de então, começará a diminuir.
Portanto, precisamos mudar a pergunta. Alguns ainda dizem que o problema é que nascem pessoas demais. Mas, na verdade, o problema é como criar condições para que as sociedades continuem tendo filhos suficientes para garantir sua própria continuidade.
E a resposta começa pela família, no fortalecimento do casamento entre homem e mulher. Não haverá solução demográfica duradoura se continuarmos tratando a família como uma instituição ultrapassada e os filhos como um obstáculo à realização individual. Precisamos recolocar o casamento, a maternidade, a paternidade e os filhos no centro da vida social.
Precisamos de políticas públicas que apoiem concretamente as famílias, mas precisamos também de uma mudança cultural que volte a apresentar a família como algo positivo, desejável e fundamental para o futuro.
Se queremos salvar a população, precisamos salvar a família.
E salvar a família significa recuperar a ideia de que o ser humano não existe apenas para si mesmo. Ele faz parte de uma comunidade, recebe muito de seus antepassados e tem também a responsabilidade de transmitir a vida, os valores, a cultura e a fé às próximas gerações.
Sem família, não há novas gerações. Sem novas gerações, não há futuro. E sem futuro, nenhuma sociedade, por mais rica e tecnologicamente avançada que seja, conseguirá sobreviver.
A tecnologia e a inteligência artificial foram criadas pelo homem e para servir ao homem. Por que não as utilizar também para ajudar as famílias a serem aquilo que realmente devem ser: lugares de amor, de educação, de formação humana e de construção de uma sociedade melhor?
Roberto Vertamatti é Vice-presidente de Economia da ADVB, Conselheiro da ANEFAC, PhD em Administração pela FCU – Florida Christian University
Referências:
– FUIANO, Fabio. O verdadeiro antídoto para o declínio demográfico? A restauração da família! 19 ago. 2026.
– IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Projeções da População: Brasil e Unidades da Federação – Revisão 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.
– ONU – Organização das Nações Unidas. World Population Prospects 2024: Summary of Results. United Nations, 2024.
– VERTAMATTI, Roberto. “Inverno Demográfico” – Ficção ou Realidade. 14 jun. 2022.
– PAPA LEÃO XIII. Sapientiae Christianae. 1890.
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