Os resultados do Pisa 2025, divulgados pela OCDE em 8 de setembro, trouxeram pela primeira vez o domínio “Aprendizagem no Mundo Digital”, que avalia a capacidade de resolver problemas com ferramentas computacionais, e nele o Brasil registrou 406 pontos, contra média de 500 na OCDE. Na mesma edição, 48% dos estudantes brasileiros declararam usar chatbots de inteligência artificial para aprender ao menos uma vez por semana. Lidos juntos, os dois números contrariam uma das crenças mais difundidas sobre a juventude, a de que crescer com o smartphone na mão produz, por si só, competência digital.
A expressão “nativo digital” foi popularizada por Marc Prensky em 2001, ao sustentar que os jovens criados em contato com computadores, videogames e internet pensariam e processariam informações de maneira diferente das gerações anteriores. A ideia foi absorvida por escolas, empresas e formuladores de políticas públicas, mas não se confirmou. Em revisão publicada em 2017 na Teaching and Teacher Education, Paul Kirschner e Pedro De Bruyckere concluíram que não há evidência de uma geração com habilidades digitais inatas, nem de que os jovens consigam realizar várias tarefas simultâneas sem perda de desempenho.
Parte da confusão vem de tratar como uma coisa só habilidades distintas. Nos testes de desempenho conduzidos por Alexander van Deursen e Jan van Dijk, da Universidade de Twente, os jovens levaram vantagem no manuseio das interfaces, mas não nas habilidades de conteúdo, que dependem mais da escolaridade do que do tempo de exposição à internet. Navegar com velocidade pelo TikTok revela uma fluência operacional real, que diz pouco sobre a capacidade de montar uma planilha de custos, redigir um relatório ou verificar a procedência de uma informação.
O Indicador de Alfabetismo Funcional aplicou em 2024, pela primeira vez, questões em um aparelho celular, e 61% dos jovens de 15 a 19 anos não conseguiram completar uma tarefa que simulava uma compra online, situação cotidiana realizada no dispositivo que essa faixa etária supostamente domina. No mesmo levantamento, o analfabetismo funcional entre jovens de 15 a 29 anos passou de 14% para 16% entre 2018 e 2024, sinal de que a dificuldade no digital começa, muitas vezes, na leitura e na interpretação que qualquer interface exige.
O desenho das interfaces móveis ajuda a explicar essa distância, porque o feed infinito e a recomendação algorítmica dispensam o usuário de buscar, comparar, organizar ou salvar e o treinam para reagir ao que aparece na tela, o oposto do que o trabalho produtivo exige, como hierarquizar informação, manipular arquivos e decidir sem a ajuda de um algoritmo o próximo passo. O Pisa 2025 registrou um dado coerente com esse padrão, já que a leitura apressada, em que o estudante lê rápido mas de forma imprecisa, quase dobrou entre 2018 e 2025 nos países da OCDE, chegando a 9% das respostas.
No caso brasileiro, essa limitação é agravada pelo modo de acesso, já que, segundo a TIC Domicílios 2025, 65% dos usuários de internet acessam a rede exclusivamente pelo celular, proporção que chega a 87% nas classes DE. A edição anterior da pesquisa mostrou que apenas 19% dos usuários haviam utilizado fórmulas em uma planilha e 17% haviam criado uma apresentação de slides, ambas associadas ao tipo de dispositivo. O mito do nativo digital encobre, assim, uma desigualdade socioeconômica ao tratar como geracional uma diferença que é, em boa medida, de acesso a equipamentos, escolaridade e repertório familiar.
No mercado de trabalho, empresas que presumem que os jovens chegam preparados correm o risco de reduzir o investimento em capacitação e só descobrir a lacuna quando o recém-contratado precisa organizar uma base de dados ou avaliar uma fonte. A inteligência artificial generativa torna o quadro mais delicado, porque entrega a resposta pronta e pode dispensar o usuário do processo que leva até ela. Segundo o Pisa 2025, estudantes que usam IA para resumir textos, redigir ou pesquisar tiveram notas mais baixas em ciências, mas o uso aparece associado a melhores resultados quando os alunos aprendem a avaliar o conteúdo gerado, o que desloca a questão da ferramenta para a formação.
A crítica ao rótulo não implica afirmar que os jovens sejam menos capazes do que as gerações anteriores, e sim reconhecer o efeito perverso de dispensar escolas, universidades, empresas e famílias de ensinar aquilo que se supunha que eles aprenderiam sozinhos. A Lei nº 15.100/2025, que o MEC associa ao salto de 37% para 81% na parcela de estudantes em escolas com restrição ao celular entre 2022 e 2025, responde a um problema real de distração, mas retirar o aparelho da sala não ensina ninguém a usá-lo como instrumento de trabalho, o que exige tratar o letramento digital como conteúdo curricular, com progressão, avaliação e prática deliberada.
Para quase dois terços dos usuários de internet no país, o celular é a única porta de entrada para o mundo digital, o que torna a distinção entre usar e dominar ainda mais importante. Rolar um feed, gravar um vídeo e responder a um áudio são habilidades legítimas que as próprias plataformas têm interesse em tornar intuitivas, porque delas depende um modelo de negócio baseado em atenção. O repertório que falta, o de quem usa a tecnologia para produzir, analisar e decidir, não virá da exposição, e supor o contrário transfere para cada jovem o custo de uma formação que também deveria ser responsabilidade das instituições.




