Bloomberg Línea — A falta de segurança jurídica e de capacidade institucional, a burocracia e as dificuldades nas consultas às comunidades são alguns dos principais fatores que podem frear os investimentos na América Latina até 2027, segundo especialistas consultados pela Bloomberg Línea.
Os advogados do escritório internacional Pérez-Llorca compartilharam com a Bloomberg Línea, em Bogotá, suas perspectivas sobre os desafios que o clima de investimento na América Latina enfrentará, tomando como referência grandes economias da região, como México, Colômbia e Peru, com vistas a 2027.
Os principais desafios que poderiam limitar a chegada de novos investimentos à região em 2027 giram em torno de três temas recorrentes: a capacidade institucional, os processos de consulta às comunidades e a burocracia. “No âmbito institucional, a região ainda apresenta fragilidades que continuam minando a confiança dos investidores”, afirmou Lina Uribe, sócia da área de Direito Societário e Fusões e Aquisições da Pérez-Llorca Colômbia.
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De acordo com dados da OCDE citados pela advogada, apenas 35% da população latino-americana declara ter confiança alta ou moderada em seus governos nacionais, um número bem abaixo da média dos países membros dessa organização. “Isso reflete um déficit de legitimidade que complica a execução de projetos de longo prazo”.
Marcela Chacón Sierra, porta-voz institucional da empresa TTR Data, que acompanha fusões e aquisições na região, destaca que, com vistas a 2027, o principal desafio para a América Latina não seria a falta de interesse dos investidores, mas a capacidade de transformar o capital disponível em projetos viáveis.
“Em 2025, a América Latina e o Caribe receberam US$ 194.233 milhões em IED, um aumento de 1,7%, mas os novos projetos anunciados caíram 10,2% em número e 34,3% em valor, chegando a US$ 114.100 milhões”, segundo Sierra. “Isso permite interpretar que há um ambiente de maior seletividade por parte dos investidores”.
Além disso, para 2027, há um paradoxo: a necessidade de investimento continua sendo enorme.
Um estudo atualizado do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), citado pela executiva da TTR Data, estima que a América Latina e o Caribe precisarão de US$ 1,6 trilhão em investimentos em infraestrutura entre 2025 e 2030, cerca de US$ 266 bilhões por ano, enquanto o investimento efetivo ficou, em média, em apenas 1,7% do PIB entre 2015 e 2023.
Transporte, água e saneamento e energia elétrica representam a maior parte dessa necessidade.
Por isso, segundo Chacón Sierra, o fator diferenciador nas operações de fusões e aquisições (M&A, em inglês) não será apenas a quantidade de capital disponível, mas quais países e projetos podem oferecer previsibilidade regulatória, capacidade institucional e gestão social suficientes para que esse capital chegue efetivamente aos ativos e não permaneça no pipeline.
O desafio da segurança jurídica e física
Em diversas jurisdições da região, “o desafio geral de fundo é a segurança jurídica e a existência de marcos normativos estáveis e modernos que efetivamente estimulem o investimento, sem os quais qualquer avanço pode se tornar complexo”, afirmou Rodrigo Rojas, sócio da área de Fusões e Aquisições da Pérez-Llorca México.
Ele afirmou que a experiência comparativa mostra que, mesmo com marcos regulatórios claros, os prazos para a obtenção e o desenvolvimento de licenças, concessões e autorizações tendem a se prolongar “de forma sistemática” em vários países da América Latina.
Segundo Rojas, a combinação de uma capacidade institucional limitada para conduzir avaliações técnicas complexas, processos de consulta comunitária mal estruturados ou insuficientemente documentados e mudanças nos critérios administrativos no meio do projeto tem resultado repetidamente em disputas de investimento contra Estados da região, “o que, por sua vez, aumenta a percepção de risco regulatório para novos projetos estratégicos em 2027”.
Os juristas apontam que o problema se estende à segurança física, especialmente diante do crescimento de economias informais e ilegais que afetam setores estratégicos da economia, como a mineração.
“Em termos de segurança jurídica, os países têm governos com orientações diferentes, cada um enfrenta desafios distintos, mas o denominador comum, para mim, é a questão da segurança física”, comentou, durante sua visita a Bogotá o advogado peruano Juan Luis Avendaño, sócio do Escritório Financeiro de Pérez-Llorca. “As economias informais ilegais cresceram enormemente no Peru devido à ausência do Estado”, exemplificou.
O aspecto social é determinante, especialmente nos setores de mineração, energia e infraestrutura.
“O caso do Peru é ilustrativo: a OCDE identificou projetos de mineração paralisados, apesar de contarem com autorizações regulatórias, envolvendo um investimento de cerca de US$ 64 bilhões. Isso demonstra que a obtenção das licenças nem sempre garante a execução”, afirmou Marcela Chacón Sierra.
Desbloquear projetos estratégicos
Os advogados destacaram a necessidade de agilizar as consultas às comunidades para oferecer maior segurança aos investidores que buscam desenvolver projetos estratégicos nas áreas de mineração e hidrocarbonetos em 2027.
“O relacionamento com a comunidade é algo que, há 30 anos, de repente não recebia atenção e que hoje é um fator capaz de determinar o sucesso ou o fracasso de qualquer projeto”, afirmou Avendaño. “Esse tipo de projeto, que exige grandes investimentos, não é executado da noite para o dia, mas sim ao longo de vários anos.”
Para atrair esse investimento, ele argumentou que são necessárias regras claras, estabilidade, ordem e segurança. “É preciso um governo que tome decisões e se comprometa com o sucesso desses projetos”.
O presidente regional da Pérez-Llorca Colômbia, Mauricio Piñeros Perdomo, afirmou durante o encontro que as consultas prévias exigidas para qualquer projeto de mineração, energia ou petróleo podem ser “uma dor de cabeça” no país. “(…) São muitas comunidades, e vemos projetos que exigem até 15 consultas prévias”.
Entre 2011 e 2026, foram registrados na Colômbia 12.588 processos de consulta prévia; dos que foram iniciados entre 2022 e 2026, apenas 16% foram protocolados, enquanto 77% permanecem em andamento.
Iniciativas legislativas recentes buscam resolver esse gargalo, fortalecendo a autoridade reguladora, criando sistemas de informação e estabelecendo prazos claros para as ações do governo, sem reduzir o tempo dedicado ao diálogo com as comunidades.
No México, Rodrigo Rojas identificou um problema semelhante, embora também associado à burocracia e à suposta perda de experiência técnica em algumas instituições públicas.
Ele explicou que os investidores não devem mais se limitar a estruturar os aspectos contratuais, regulatórios e de licenciamento, mas também devem se empenhar em explicar os projetos às diversas autoridades envolvidas.
De acordo com sua análise, essa situação aumentou os custos e a incerteza para as empresas, especialmente em setores como infraestrutura e energia.
O escritório de advocacia explicou que, no Peru, segundo o Instituto Peruano de Economia, os prazos para o desenvolvimento de projetos de mineração se prolongaram consideravelmente, chegando, em alguns casos, a 45 anos entre a concessão e o início das operações, em grande parte devido a barreiras regulatórias e administrativas.
O Chile, a Bolívia e o Equador também enfrentam tensões semelhantes entre a implementação da consulta prévia, conforme a Convenção nº 169 da OIT, e a necessidade de oferecer segurança aos investidores.
Capacidade institucional e burocracia
A capacidade institucional e a burocracia também representam importantes gargalos para as empresas.
A OCDE estima que os encargos administrativos possam representar entre 2% e 4% do PIB.
E o BID constatou que as empresas latino-americanas dedicam até 10% do seu tempo ao cumprimento de trâmites, de acordo com dados compartilhados pelos advogados.
Nesse contexto, os advogados de Pérez-Llorca alertaram que as mudanças regulatórias e tributárias podem levar os empresários latino-americanos a retirar capital de seus países e diversificar seus investimentos em outros mercados.
“Segundo a OCDE, apenas o Brasil, a Costa Rica, o México e o Peru dispõem de mecanismos para coordenar a regulamentação entre o governo central e os níveis subnacionais”, acrescentou Marcela Chacón Sierra. “Em sete dos 11 países analisados, esses mecanismos ainda não existem.”
O avanço na simplificação regulatória também é desigual.
Chacón Sierra argumentou que o Chile, o México e a Colômbia contam com estruturas regulatórias relativamente mais desenvolvidas, enquanto o Brasil enfrenta problemas decorrentes de competências regulatórias sobrepostas e o Peru, dificuldades de implementação.
No caso específico do México, outro fator de incerteza para as decisões de investimento no país é a revisão do T-MEC.
Embora o tratado continue em vigor atualmente e os três países tenham concordado em dar continuidade às revisões anuais, ao longo de 2026 já foram realizadas várias rodadas de negociações bilaterais entre o México e os Estados Unidos sobre regras de origem, segurança econômica, automóveis, aço, alumínio, agricultura e outros temas.
Para as empresas, mais do que a incerteza quanto à vigência imediata do tratado, o desafio para o próximo ano estará em antecipar como determinadas regras e condições de acesso ao mercado norte-americano poderão ser alteradas, especialmente em setores altamente integrados às cadeias regionais de abastecimento, segundo Rodrigo Rojas.
Por fim, será preciso observar como as reformas no sistema judiciário se concretizarão na prática. No México, a reforma do Poder Judiciário foi realizada no ano passado, mas será nos próximos anos que poderemos avaliar com maior clareza seus efeitos sobre o funcionamento das empresas, a resolução de controvérsias e a percepção de segurança jurídica.
“Uma consequência que observamos nos últimos meses é o aumento do recurso à arbitragem e aos meios alternativos de resolução de controvérsias como mecanismos para lidar com determinados conflitos, especialmente em operações de investimento, infraestrutura e contratação”, concluiu Rojas.




