A reputação do agronegócio brasileiro destaca-se como a mais bem avaliada no país, impulsionada por uma percepção altamente favorável entre o público feminino. No entanto, especialistas alertam que a robustez do setor na percepção interna ainda não se traduz em reconhecimento de marca e agregação de valor no mercado internacional, evidenciando uma lacuna estratégica na comunicação.
Os dados integram o estudo inédito Marca Brasil, conduzido pela consultoria portuguesa OnStrategy e apresentado em São Paulo. O levantamento revela que o agro é o segmento econômico com o maior diferencial positivo entre a avaliação das mulheres e a média do público interno geral.
O Agro e o Contraste Setorial
Na avaliação de desempenho setorial numa escala de 0 a 10, a percepção feminina atua como uma “lente de contraste”, acentuando as virtudes dos segmentos fortes e evidenciando as vulnerabilidades dos mais fragilizados:
-
Desempenho Positivo: A nota das mulheres para o agronegócio supera em 0,12 ponto a média interna geral. Os setores de Turismo e Energia/Tecnologia também apresentaram saldo positivo, ambos com +0,07 ponto.
-
Desempenho Negativo: Em contrapartida, a Indústria registrou o pior resultado entre o público feminino, situando-se 0,44 ponto abaixo da média geral. O segmento de Bancos e Seguros ficou 0,37 ponto atrás (com nota absoluta de 6,46 contra 6,83 da média), enquanto o Varejo oscilou -0,08 ponto.
-
Atributos Determinantes: De acordo com José Antonio Silva, country manager da OnStrategy no Brasil, o agro destaca-se em atributos como admiração, confiança, qualidade de produtos e serviços, inovação e diferenciação — pilares que poderiam servir de referência para a reestruturação de imagem da indústria e do setor financeiro.
O Poder da Narrativa de Origem e Afeto
A aprovação do agronegócio entre as mulheres está diretamente conectada à forma como o setor comunica a produção de alimentos e o cuidado ambiental.
Para a pesquisadora da USP e mentora de lideranças rurais Lorena Mangabeira, o setor ganha força quando abandona a linguagem puramente fabril e adota narrativas humanas. Ela cita o mercado de cafés especiais — em grande parte liderado por mulheres — como exemplo de sucesso na construção de valor internacional por meio do resgate do atributo “cuidado” e das histórias de vida dos produtores.
O Desafio da Comunicação Internacional
Apesar da imagem sólida no ambiente doméstico, o agronegócio brasileiro enfrenta o desconhecimento do consumidor final no exterior, avalia o professor e consultor José Luiz Tejon. Para o especialista, a falta de uma promoção pragmática da origem dos produtos torna o país vulnerável em negociações comerciais e disputas geopolíticas:
-
Vulnerabilidade B2B: Sem o reconhecimento da população global sobre como o Brasil produz alimentos e fibras, as negociações entre empresas (B2B) perdem força e ficam suscetíveis a polarizações políticas internacionais.
-
Agregação de Valor e Terroir: Tejon defende uma estratégia ativa de divulgação baseada em rastreabilidade, certificações de sustentabilidade e diferenciação por biomas, conectando a produção agrícola à gastronomia e à cultura local.
-
Indicações Geográficas (IGs): O fortalecimento dos territórios produtores ganha impulso com a promoção do Sebrae. Atualmente, o Brasil conta com mais de 150 Indicações Geográficas reconhecidas pelo INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), volume que quintuplicou nos últimos cinco anos, expandindo o valor das regiões para além das commodities tradicionais.
Metodologia da Pesquisa
O levantamento global da OnStrategy entrevistou 470,6 mil pessoas em 27 países, das quais 192,4 mil residem no Brasil (com 56% de participação feminina na amostra nacional). As entrevistas online foram aplicadas entre outubro de 2025 e março de 2026. A consultoria classifica a reputação do agro e do turismo como “robustas”, atuando como motores ativos na construção da imagem internacional da marca Brasil.




