“Por que a Europa ainda fala na disputa de ‘food vs fuel’ no caso dos biocombustíveis brasileiros?” A resposta de Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e ex-Alta Comissária dos Direitos Humanos da ONU, é curta e sem rodeios: “É apenas política. Simples assim”.
Aos 82 anos, a veterana é uma das vozes globais em defesa dos direitos humanos, da sustentabilidade e da segurança alimentar, tendo criado sua fundação dedicada à “justiça climática”.
Neste ano, é convidada especial do GAFFFF, o Global Agribusiness Festival, megaevento de cultura, conteúdo e inovação do agronegócio realizado em São Paulo pela Datagro em parceria com a XP e a Corteva.
A irlandesa respondia a uma pergunta do The AgriBiz: por que produtores, indústrias e reguladores europeus ainda criticam a produção de biocombustíveis no País, sob o argumento de que a produção deles compete com a de alimentos?
Contexto: em meio à aceleração do mercado de biocombustíveis no Brasil na última década, puxado pelo biodiesel e pelo etanol de milho, empresas, associações e o governo federal vêm esbarrando em alegações que ainda se repetem em declarações de europeus: a de que essas cadeias competem com a produção de alimentos.
É o chamado “food or fuel”, um dilema — falso, segundo o agro brasileiro — colocado em discussões globais como impeditivo para a importação de biocombustíveis produzidos a partir de matérias-primas alimentares, como soja, milho e sorgo.
Essa alegação mostra que a União Europeia ainda não entendeu a mecânica da segunda safra no Brasil, em particular no caso do milho? Ou as acusações seriam “apenas políticas”?
Lembrando que em parte relevante do território nacional, é possível produzir duas (por vezes, três) safras completas no mesmo ano-calendário. Além disso, a enorme maior parte do milho consumido pela indústria de biocombustíveis é de segunda safra.
Para Robinson, os europeus entendem, sim, as particularidades da agricultura tropical, mas, mesmo assim, mencionam temores com a segurança alimentar por questões puramente políticas e comerciais.
“Na Irlanda, há preocupação, por exemplo, com a entrada excessiva de carne bovina brasileira. São aspectos de competitividade que, pessoalmente, não apoio. Acho fundamental que as diferentes regiões do mundo compreendam umas às outras e se fortaleçam. A Europa tenta compreender, mas a relação muitas vezes é paternalista.”
Ao lado dela na entrevista, Plínio Nastari, presidente e fundador da Datagro, defendeu uma melhora na comunicação internacional do País. “A gente dá atenção a falácias, conselhos de algumas regiões no sentido de que não pode se fazer isso ou aquilo. É preciso ter sensibilidade no trabalho público; o Brasil serve de exemplo ao mundo de mudança de patamar no agronegócio com sustentabilidade.”
Pobres sofrem mais
Robinson criticou o que vê como um viés socioeconômico no processo de mudanças climáticas. “O multilateralismo se fraturou, e hoje há muita divisão, competitividade e tensão. Seria bom ter um sistema econômico orientado ao bem-estar das pessoas.”
Ela alertou ainda para os riscos implícitos ao El Niño, que neste ano é previsto por meteorologistas com grande chance de se manifestar em intensidade “muito forte”. O fenômeno, afirma, tende a pesar mais sobre os mais pobres.
“Me preocupa a maneira como o fenômeno afetará a segurança alimentar durante o inverno [no hemisfério Norte]. Os mais pobres, que são os menos responsáveis pelas mudanças climáticas e os mais vulneráveis a elas, sofrerão mais.”
Na visão dela, ecoando um pleito muito repetido pelo agronegócio no Brasil, o que a transição ecológica mais precisa é de mecanismos para gerar renda para quem não desmata ou polui. “Seria uma mudança maravilhosa se pudéssemos atribuir um valor econômico à natureza preservada, isso mudaria muita coisa.”
A seu lado, Nastari complementou: “Acredito que sua mensagem — de que o valor da floresta não reside apenas no econômico, mas também na biodiversidade e no potencial de desenvolvimento médico e farmacêutico — é fundamental”.
Retomada?
Em resposta à percepção do The AgriBiz de que neste ano, o sentimento geral de futuro junto ao público de executivos e produtores era mais positivo do que na edição passada do GAFFFF, Nastari respondeu com comedimento.
Segundo ele, apesar da “ligeira melhora” nos preços em algumas cadeias, como soja e açúcar, “permanece a preocupação e a tensão”.
“A agropecuária do Brasil está começando a sair de um momento muito delicado. Juros muito altos, endividamento recorde, preços baixos das commodities até recentemente: não podemos deixar de considerar isso.”
Por outro lado, Nastari considera que o setor está, neste ano, mais disposto a enfrentar narrativas que surgem de fora para dentro.
“E com mais orgulho, com mais intenção de se posicionar no sentido de que somos sustentáveis, sim, e não venham nos impor selos ou rótulos que não colam com a nossa realidade. Essa talvez seja a grande contribuição do GAFFFF.”




