A Visa vem trabalhando há dois anos no desenvolvimento de soluções baseadas em segurança pós-quântica para incorporar em seu ecossistema de pagamentos. O nome pode soar futurístico, mas o mercado acredita que a computação quântica deve ameaçar a cibersegurança a partir de 2030.
A tecnologia, que promete avanços significativos para a humanidade, consegue resolver problemas matemáticos de forma dinâmica e extremamente rápida. Marcelo Silva, diretor de cibersegurança da Visa, explica que “a corrida da computação quântica hoje é a multiplicação de qubits limpos ou qubits lógicos, que são uma combinação de controle de erros com os da física quântica para que se tenha exatamente com precisão um poder computacional suficiente”.
Só que da mesma forma que pode ser usada para fins lícitos e ajudar-nos, ela também pode ser usada para a quebra de criptografias, conseguindo acesso a informações sensíveis no sistema de pagamentos, como dados de cartões, transações e dos próprios usuários. De acordo com o executivo, isso deve se tornar realidade no chamado “Q-day”, que grandes players, como Google e Microsoft, estimam que será em 2029.
O espaço de tempo, no entanto, não é motivo para os criminosos ficarem inativos quanto a isso. Um exemplo disso é o Harvest Now, Decrypt Later (HNDL) que, em tradução livre, é “colha agora, descriptografe depois”, ou seja, hackers recuperam dados para, com a computação pós-quântica, conseguir descriptografá-los.
Papel e estratégia
Desde 2024, a empresa vem trabalhando no seu programa de segurança pós-quântica. Se no começo era apenas um projeto técnico, atualmente, é um programa global com equipe própria e que trabalha em parceria com o comitê de risco e os departamentos de legal e de negócios.
Nessa empreitada, o diretor da Visa, revela que a conscientização tem sido um dos principais pontos tratados e não só dentro da empresa, mas fora dela também. “Estamos nos comunicando com clientes e parceiros para abordar a relevância da computação pós-quântica, sobretudo quando se trata da segurança do consumidor final”, diz. Nesse diálogo, também estão os bancos centrais de diversos locais, como o da Austrália, Brasil, Inglaterra, Nova Zelândia e União Europeia, além de governos.
“Nós entendemos que o nosso papel é mais amplo, pois não há como focar somente na Visa. É necessário focar em todo o ecossistema da indústria de pagamento, por isso, estamos trabalhando tanto internamente quanto externamente, com emissores, adquirentes e comércios”, destaca Silva. O movimento acompanha a expansão dos serviços de consultoria em cibersegurança e solução em nuvem oferecidos pela companhia.
O contato mais próximo também revela que o mercado tem um pequeno percentual de empresas e instituições trabalhando com a tecnologia. Para o executivo, isso não é algo restrito à indústria de pagamento e tem um pouco da natureza humana. “Muitas vezes, as pessoas precisam de algo disruptivo para mudarem. Infelizmente, acredito que muitas empresas só vão se mover quando chegar o Q-Day”, observa. Ele adverte que o movimento pode sair caro e afastar clientes. “Aquilo que você poderia planejar torna-se um esforço de remediação”, afirma.
Soluções e arquiteturas
Por ora, a bandeira de cartões não pensa em ter o seu próprio computador quântico, mas ela vem trabalhando em soluções de segurança, juntamente com instituições acadêmicas, pela National Science Foundation, dos Estados Unidos. Os testes são realizados no laboratório pós-quântico da empresa com algoritmos existentes.
Conforme avança no desenvolvimento, a Visa implementa a tecnologia em seu ecossistema. Silva explica que os principais sites da companhia possuem uma proteção híbrida, que junta protocolos clássicos com soluções pós-quânticas. Além disso, a tecnologia exige o Transport Layer Security (TLS ou Segurança da Camada de Transporte) 1.3 , protocolo criptográfico que garante privacidade, autenticação e integridade de dados na internet.
Por essa razão, a Visa começou uma transição da versão 1.2 para a mais nova e notou diferenças positivas. “As chaves por sessão passaram a ser únicas em toda a comunicação via TLS, o que reforça a segurança do ecossistema”, observa o executivo.




