Bloomberg Línea — Há cerca de dez meses, Flávio Bolsonaro (PL) era um candidato rejeitado pelo mercado financeiro e pelo centrão. Nas vésperas do primeiro turno, o senador do PL aparece em empate técnico com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A virada recente ocorreu depois que Flávio converteu o escândalo do Banco Master, que ameaçou sua candidatura em maio, em uma ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o ministro Alexandre de Moraes.
A estratégia ajudou a fortalecê-lo na disputa. Pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (1º) mostra Lula com 48% e Flávio com 45% em um eventual segundo turno, empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos. No primeiro turno, o presidente tem 42%, e o senador, 38%.
Na pesquisa AtlasIntel para a Bloomberg News publicada na terça-feira (29), os dois aparecem com cerca de 48% no segundo turno. Se ninguém obtiver maioria dos votos válidos, haverá nova votação em 25 de outubro.
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Apesar do avanço, a estratégia do candidato, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, não encerrou o problema. Flávio é investigado pela Polícia Federal por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e crimes tributários em razão das tratativas com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master, e chega ao domingo (4) sob novas revelações sobre a relação entre os dois. Ele nega irregularidades.
O filho escolhido
Flávio anunciou em 5 de dezembro de 2025 que o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe, o havia escolhido como candidato. O mercado esperava a indicação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. No dia do anúncio, o Ibovespa caiu 4,3%, a maior queda diária desde 2021, e o real recuou cerca de 2,5%.
O senador chegou a condicionar a candidatura a uma negociação. Em entrevista à Record, disse que desistiria em troca da libertação do pai e da recuperação de sua elegibilidade. No Natal, Jair Bolsonaro divulgou uma carta de próprio punho. “Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho, para a missão de resgatar o nosso Brasil”, escreveu.
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As primeiras pesquisas mostravam Flávio 12 pontos atrás de Lula na AtlasIntel e 15 pontos atrás no Datafolha. Entre fevereiro e abril, o senador eliminou a diferença. Em 25 de fevereiro, a AtlasIntel registrou empate pela primeira vez. Um mês depois, Flávio apareceu numericamente à frente, com 47,6% contra 46,6%.
O avanço ocorreu com um discurso calibrado para o eleitor de centro. Flávio defendeu publicamente o jogador Vinicius Junior após ataques racistas, usou linguagem neutra em uma mensagem a apoiadores e disse que não tentaria imitar o pai. “Não preciso explicar meu sobrenome o tempo todo, com todos os prós e contras”, afirmou em abril.
Áudios com Vorcaro
No início de maio, Flávio apareceu em um ato de campanha com uma camiseta com a frase “Master é do Lula”. Dias depois, em 13 de maio, o site Intercept Brasil publicou áudios e mensagens de 2024 e 2025 em que o senador pedia dinheiro a Vorcaro para financiar Dark Horse, filme sobre a vida do pai. Segundo o Intercept, o banqueiro havia se comprometido com cerca de R$ 134 milhões para a produção.
Flávio confirmou os contatos. “O que aconteceu no nosso caso foi um filho em busca de patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a vida do próprio pai”, disse em nota. Ele afirmou que não ofereceu contrapartidas e explicou que havia negado conhecer Vorcaro por causa de uma cláusula de confidencialidade do contrato do filme.
A pesquisa AtlasIntel seguinte mostrou Lula sete pontos à frente, e a parcela de eleitores que associava o caso Master a aliados de Bolsonaro passou a superar a que o associava a aliados de Lula. A campanha de Flávio contestou a metodologia, e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, suspendeu a divulgação da pesquisa em junho.
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A Bloomberg News relatou na época que executivos de pelo menos cinco grandes empresas passaram a evitar associação pública com o candidato. O chefe de comunicação da pré-campanha deixou o cargo, e Tarcísio recusou o convite para acompanhar Flávio em reuniões na Faria Lima.
Nas semanas seguintes, o senador visitou Donald Trump na Casa Branca e pediu a designação das facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, medida adotada pelo governo americano dias depois.
Em seguida, os Estados Unidos propuseram tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com o Pix entre os alvos da investigação comercial.
A campanha de Lula reagiu com o apelido “TariFlávio”. Flávio afirmou que pediu a Trump, ao vice-presidente JD Vance e ao secretário de Estado Marco Rubio que não impusessem tarifas, e enviou um documento ao governo americano contra a medida. As tarifas entraram em vigor em 22 de julho.
Pesquisa Quaest de julho mostrou que 51% dos brasileiros concordavam com a versão de Lula de que o senador havia incentivado a punição.
Crise familiar e chapa pura
Em junho, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou um vídeo de quase 30 minutos em que acusou o enteado de desrespeitá-la em uma conversa sobre a estrutura do PL no Ceará. “Flávio disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu tinha acabado de chegar e não entendia nada de política”, afirmou. Os dois selaram uma trégua em 23 de julho, após um pedido público de desculpas do senador.
A convenção do PL, em 25 de julho, em São Paulo, teve a presença do presidente argentino Javier Milei, que pediu aos presentes para “fazer o Brasil grande de novo”. Flávio chorou no palco e reiterou a promessa de libertar o pai.
A busca por um vice expôs o isolamento da candidatura. O PP vetou a senadora Tereza Cristina, outro partido do centro-direita impediu a escolha da economista Daniella Marques, e Flávio anunciou em 5 de agosto o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), ex-promotor e ex-secretário de Segurança Pública de Alagoas, em uma chapa formada apenas por integrantes do PL.
No lançamento oficial da campanha, em 16 de agosto, em Copacabana, o senador concentrou o discurso em críticas ao governo e ao STF. “Vou ser o próximo presidente da República porque vou enfrentar esse sistema”, disse.
A virada pelo Supremo
O cenário mudou no início de setembro. O ministro André Mendonça, do STF, tornou públicas mensagens que, segundo a PF, Vorcaro enviou a um número atribuído a Moraes, relator do processo que condenou Jair Bolsonaro. Moraes nega a relação. Flávio retomou a defesa do impeachment do ministro, bandeira da campanha desde o início, e passou a associar Moraes a Lula, embora o ministro tenha sido indicado ao STF por Michel Temer.
“Temos que proteger o Supremo de Alexandre de Moraes”, disse em ato na Avenida Paulista no feriado de 7 de setembro, que reuniu o pastor Silas Malafaia e Tarcísio. “Essa laranja podre não pode contaminar o tribunal inteiro.” Em outro comício, resumiu: “Um voto em Lula é um voto em Alexandre de Moraes.”
Segundo a Bloomberg News, um assessor da campanha relatou que a equipe esperava o aprofundamento da crise e avaliava que o candidato se beneficiaria dela, já que o tribunal é alvo histórico da família.
Na pesquisa AtlasIntel publicada em 10 de setembro, Flávio eliminou uma desvantagem de 4,5 pontos e empatou com Lula.
Na rodada de 17 de setembro, cerca de metade dos eleitores disse esperar que a crise no STF prejudique mais o presidente.
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A investigação, porém, continuou. Em setembro, o presidente do STF, Edson Fachin, retirou o sigilo de apurações que mostram que a PF investiga o senador por suspeita de lavagem de dinheiro, corrupção e crimes tributários. Flávio disse que não tem “nada a esconder” e pediu a divulgação integral do caso.
Uma operação separada da PF sobre o uso de recursos do filme teve como alvo um parlamentar que integrou o governo de Jair Bolsonaro e havia participado de um comício com o candidato.
No fim de setembro, a revista Piauí revelou que Flávio viajou da Flórida a Brasília em um jatinho de Vorcaro no início de 2025, e o jornal O Estado de S. Paulo informou que ele enviou mensagens e tentou telefonar ao banqueiro dias antes da prisão, em novembro. O senador disse que o voo fez parte de uma viagem de família e que desconhecia o dono da aeronave.
Propostas e mercado
Flávio deu poucos detalhes de seu programa. Na economia, a principal assessora é Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, que já defendeu cortes de gastos equivalentes a 1,5% do PIB. A campanha fala em reforma administrativa e venda de ativos do governo.
Em setembro, o senador anunciou um programa de renegociação de dívidas das famílias pela Caixa, que seria financiado por um fundo de R$ 3 trilhões, batizado de ‘SOS Brasil’, a ser criado com receitas do petróleo, securitização e imóveis da União.
O candidato também acompanhou o presidente no tema das apostas. “Os cassinos online têm que acabar”, disse em transmissão nas redes sociais, antes de Lula proibir as bets por medida provisória. Na segurança pública, tema em que a AtlasIntel lhe deu vantagem sobre Lula em julho, prometeu ser “radical” e citou o modelo de Nayib Bukele, de El Salvador.
Parte do mercado mudou de posição em relação a dezembro. Mercados de previsão atribuem cerca de 60% de chance de vitória a Flávio. Gestores compraram opções que ganham com a valorização do real e da bolsa após a eleição.
Os obstáculos persistem. A rejeição a Flávio é próxima à de Lula, e a AtlasIntel o apontou em agosto como o único candidato com rejeição superior à do presidente.
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