Bloomberg Línea — Os 158,7 milhões de eleitores do Brasil votam no domingo (4) em 5.571 municípios para escolher presidente, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais, entre 18.861 candidaturas aprovadas pela Justiça Eleitoral.
A campanha de rua dura 49 dias, de 16 de agosto ao sábado (3), com caminhadas, carreatas e santinhos (impressos com foto, nome e número do candidato). Nas calçadas, o wind banner, bandeira vertical de tecido que gira com o vento, se consolidou como a peça que disputa a atenção do eleitor.
“Na eleição, tivemos um grande foco nos wind banners, que se consolidaram como realidade neste ano”, disse Julião Flaves Gaúna, presidente da Abigraf (Associação Brasileira da Indústria Gráfica), por escrito à Bloomberg Línea.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
A demanda reforçou a carteira de pedidos do setor. As gráficas esperam crescer 15% em volume de trabalhos e em faturamento sobre o pleito de 2022, segundo levantamento prévio da Abigraf com empresas de todo o país.
Leia também: Eleições no Brasil vão colocar ‘Doutrina Donroe’ de Trump à prova, segundo pesquisador
A pesquisa pede a variação esperada em percentual, e não valores, porque as gráficas geralmente não abrem seus resultados, de acordo com a assessoria.
O setor somou receita líquida de R$ 73,6 bilhões em 2024, dado mais recente da Pesquisa Industrial Anual do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O valor reúne as indústrias de impressão (R$ 24,3 bilhões) e de embalagens de papel e papelão (R$ 49,3 bilhões), que a Abigraf inclui no setor.
Dinheiro das campanhas
A demanda eleitoral chega depois de um período de produção em baixa. Em 2024, o volume produzido pelas gráficas caiu 2,8% e ficou 18,8% abaixo do registrado em 2019, antes da pandemia, segundo a Abigraf.
Do lado das campanhas, o dinheiro público não aumentou. O FEFC (Fundo Especial de Financiamento de Campanha), conhecido como Fundo Eleitoral, soma R$ 4,961 bilhões nesta eleição, o mesmo valor de 2022 e de 2024, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O montante foi dividido entre 30 partidos, ante 32 há quatro anos.
Além do fundo, as campanhas podem receber recursos do Fundo Partidário, doações de pessoas físicas e dinheiro do próprio candidato, limitado a 10% do teto de gastos do cargo, segundo a Lei das Eleições.
O balanço das gráficas ainda não está fechado, porque a eleição pode ter segundo turno para presidente e governador, com votação no domingo (25), nos casos em que nenhum candidato alcançar a maioria dos votos válidos no dia 4. Nesse cenário, a propaganda de rua volta e segue até a véspera (24), segundo o calendário eleitoral.
As encomendas de campanha também puxaram o emprego nas gráficas. As contratações efetivas e temporárias subiram cerca de 20% neste ano, sobretudo em turnos extras no acabamento, na logística e no transporte, informou a entidade, que representa um parque de 15.691 empresas e 176 mil empregos diretos.
“Se, há quatro anos, os candidatos e suas campanhas pareciam apostar as fichas na internet, agora vemos o contrário: a volta de investimentos em materiais de campanhas impressos”, afirmou Gaúna.
Na cidade de São Paulo, maior colégio eleitoral entre os municípios brasileiros, com 9,1 milhões de eleitores, segundo o TSE, a Bloomberg Línea encontrou dezenas de wind banners sobre bases plásticas no gramado de praças e canteiros centrais.
Peças de candidatos ao Senado, à Câmara e à Assembleia Legislativa dividem o mesmo trecho, lado a lado, junto a faixas de pedestres.
Feito de tecido de poliéster com estampa digital, o wind banner não é impresso em papel, mas sai das mesmas gráficas que produzem santinhos, cartazes e adesivos.
Para Gaúna, o crescimento do setor se deve sobretudo à credibilidade do produto impresso, num ambiente em que a informação na internet aparece e some com rapidez.
“Existe muita fake news, e, como o papel é um registro que não se pode apagar, tem a força de um documento e transmite maior seriedade e credibilidade”, disse.
Dos eventos esportivos às calçadas
Fabricantes de comunicação visual atribuem a origem do wind banner a eventos esportivos e festivais de grande porte, em que patrocinadores precisavam exibir marcas a distância.
O formato circulou primeiro em países como EUA, China e Austrália antes de chegar ao Brasil, segundo empresas do setor, que não registram data nem inventor.
Nas campanhas, ações na Justiça Eleitoral atestam o uso em 2020 e 2022, ainda em menor escala. A peça fica de pé sozinha, sobre uma base plástica de 8 a 16 litros, enchida com água para ganhar peso, e dispensa cabos eleitorais para segurá-la, o que reduz gastos e a burocracia da prestação de contas. Um conjunto com base, haste e bandeira custa a partir de cerca de R$ 150.
O formato também cumpre uma função de imagem. Os chamados corredores de bandeiras, peças do mesmo candidato enfileiradas ao longo de uma avenida, transmitem percepção de força e de organização da campanha.
Coordenadores de campanha ouvidos pela reportagem descrevem o objetivo como manter o nome e o número do candidato no campo de visão do eleitor até o dia da votação.
A Lei 9.504/1997, conhecida como Lei das Eleições, permite bandeiras em vias públicas desde que sejam móveis e não atrapalhem a circulação de pessoas e veículos, mas proíbe propaganda em outdoor. As peças só podem ficar na rua entre 6h e 22h, conforme resolução do TSE.
A lei não fixa quantidade máxima de wind banners, e os tribunais regionais passaram a agir caso a caso. O TRE-SE (Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe) publicou em 18 de setembro um ato que limita a quatro peças cada conjunto do mesmo candidato, com 5 metros entre elas e faixa livre de 1,20 metro na calçada.
Leia também: Incerteza com eleição lembra a de 2002 e desafia gestão de patrimônio, diz CEO da Jera
O mesmo tribunal mandou uma candidata a deputada federal retirar ou reposicionar bandeiras enfileiradas num calçadão de Aracaju, por criarem efeito visual de outdoor. Em Cambé (PR), a Justiça Eleitoral ordenou a retirada de peças instaladas em canteiros considerados jardins públicos.
Em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, as bandeiras foram vetadas nas ruas dos desfiles de 20 de setembro, por causa da circulação de cavalos.
Até 24 de setembro, o Pardal, aplicativo de denúncias do TSE, havia recebido 45.408 reclamações sobre a campanha, 42,9% delas contra propaganda em ruas e calçadas que atrapalha a passagem de pedestres, cadeirantes e ciclistas. As multas vão de R$ 5 mil a R$ 25 mil.
Questionamentos ao formato
As bandeiras também abriram uma disputa com lojistas, que em algumas cidades são proibidos de usar a mesma peça nas calçadas. Em Goiânia, onde o código de posturas veta o uso pelo comércio, cerca de 30 empresários procuraram a Acieg (Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás) para reclamar da diferença de tratamento.
Em Cuiabá, o prefeito Abilio Brunini (PL) enviou à Câmara Municipal um projeto para dar aos comerciantes as mesmas condições dos candidatos durante a eleição.
No Congresso, a discussão segue na direção oposta, com o projeto de lei 5.393/2026, do deputado federal Bibo Nunes (PL-RS), que proíbe wind banners em vias públicas e, em troca, libera outdoors licenciados pelas prefeituras.
O projeto justifica a medida com riscos à acessibilidade e à segurança viária. Ainda que seja aprovado, o texto só valeria a partir da próxima eleição, porque a Constituição exige um ano de antecedência para mudanças no processo eleitoral.
Enquanto o futuro das bandeiras nas ruas depende do Congresso, as gráficas já contam com o Natal, quando a Abigraf também espera aumento de volume.
As encomendas mudam de perfil e passam a ser de cartazes promocionais, decoração de vitrines e sinalização em pontos de venda, segundo Gaúna.
Leia também
Mudanças no Nordeste desafiam domínio histórico de Lula e do PT às vésperas da eleição




