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A Strategy, anteriormente conhecida como MicroStrategy, está se afastando do foco exclusivo em bitcoin para se concentrar em uma nova plataforma chamada Mosaic, que organiza dados para inteligência artificial. A empresa planeja migrar mais de 150 clientes no Brasil para essa plataforma nos próximos dois anos, com 50% a 60% já em processo de transição.
O Mosaic visa centralizar definições e regras de dados, facilitando o uso de inteligência artificial nas grandes organizações. A Strategy, que acumula 848 mil bitcoins, também reportou um crescimento de 9,4% na receita global no primeiro semestre de 2026, com um aumento significativo nas assinaturas.
A empresa enfrenta concorrência de gigantes como Microsoft e Snowflake, que oferecem soluções semelhantes. O desafio será demonstrar que a nova camada de organização de dados traz retorno suficiente para justificar o investimento.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Michael Saylor transformou a antiga MicroStrategy em sinônimo de bitcoin. Agora, a companhia quer dar uma nova razão para as empresas comprarem seu software ao organizar os dados que alimentam a inteligência artificial. É um passo de volta às origens, mas sem abrir mão da criptomoeda.
No Brasil, essa aposta passa pela migração de uma base de mais de 150 clientes para o Mosaic, plataforma com a qual a Strategy pretende ampliar seu espaço na infraestrutura de dados das grandes empresas. A meta é concluir esse movimento nos próximos dois anos.
Entre 50% e 60% dos clientes brasileiros já estão nesse processo, segundo Mariano Urman, diretor regional para Brasil e América do Sul da Strategy. A companhia não divulga o faturamento da operação local.
“Estamos descontinuando o modelo antigo. A ideia é levar todos os clientes para essa nova versão”, diz Urman ao NeoFeed.
O plano busca renovar o negócio que deu origem à MicroStrategy e, segundo o executivo, ainda concentra 98% dos funcionários. Sua visibilidade, porém, ficou pequena diante da estratégia financeira construída por Saylor a partir de 2020.
Desde então, a companhia passou a acumular bitcoins, financiando aquisições com emissões de ações, dívida conversível e ações preferenciais. A transformação ganhou expressão até no nome. Em 2025, a MicroStrategy passou a se chamar Strategy.
Em atualização divulgada na segunda-feira, 5 de outubro, a empresa informou que sua posição chegou a 848 mil bitcoins, adquiridos por aproximadamente US$ 64 bilhões.
Para Urman, as duas atividades convivem. “A realidade é que a Strategy é as duas coisas. É pioneira em termos de investimentos em bitcoin e líder também em software de inteligência de negócio”, afirma ele.
No software, os números mostram uma mudança na composição do faturamento. No primeiro semestre de 2026, a receita global cresceu 9,4%, para US$ 246,7 milhões. As assinaturas avançaram 56,2%, para US$ 121,7 milhões, passando de pouco mais de um terço para quase metade do total. Na outra ponta, as receitas de licenças caíram 36,5%, e as de suporte recuaram 19,3%.
O balanço não discrimina quanto desse crescimento veio do Mosaic. Os dados mostram o avanço das assinaturas, mas ainda não permitem medir a contribuição da plataforma para o negócio.
Além dos dashboards
Fundada em 1989, a MicroStrategy cresceu vendendo ferramentas de business intelligence (BI) para grandes empresas. Seu software organizava grandes volumes de dados e os transformava em relatórios, análises e painéis usados por executivos para acompanhar a operação e tomar decisões.
A chegada da inteligência artificial generativa abriu novas formas de consultar essas informações e levou a companhia a rever o espaço que pretende ocupar nesse mercado.
“Por 20 anos, fomos uma ferramenta para criar relatórios e painéis, fazer análises. E, na realidade, isso morreu”, diz Urman.
A provocação traduz a aposta em ampliar o uso da tecnologia que sustenta essas análises. Com o Mosaic, disponibilizado em junho de 2025, a Strategy quer ocupar o espaço entre as bases de dados das empresas e as ferramentas que consomem suas informações, incluindo aplicações e agentes de inteligência artificial.
No centro dessa proposta está a chamada camada semântica. Ela organiza relações entre diferentes bases e incorpora definições, cálculos e regras próprias de cada negócio, além de preservar permissões de acesso.
Na prática, uma mesma pergunta pode produzir respostas diferentes conforme a definição utilizada. “Receita”, por exemplo, pode ter significados distintos para as áreas comercial e financeira. Antes de responder a um executivo, a IA precisa saber qual conceito aplicar, onde buscar a informação e quais dados aquele usuário tem autorização para consultar.
A proposta do Mosaic é centralizar essas definições e regras para que sejam utilizadas por diferentes ferramentas, sem exigir que a empresa concentre todos os dados em uma nova base. Segundo a Strategy, a plataforma funciona com diferentes bancos de dados, ambientes de nuvem e ferramentas de análise.
“Hoje, o problema não está em ter acesso aos modelos de inteligência artificial. Está em ter os dados organizados e conseguir dar contexto para a IA”, afirma Urman.
Disputa pelos dados da IA
É principalmente nas grandes organizações que a Strategy vê oportunidade. Quanto maior a companhia, maior tende a ser a quantidade de sistemas, bases de dados, regras de acesso e definições para uma mesma informação.
Entre os clientes da carteira brasileira estão o Banco Central e a Procuradoria-Geral da República (PGR), no setor público, e Bradesco Seguros, Totvs e Tim, entre as empresas privadas. Essa base é o ponto de partida para a expansão do Mosaic no País.
Um dos exemplos citados por Urman é o de um varejista que analisou cerca de 1,5 mil promoções para identificar quais descontos aumentavam as vendas o suficiente para compensar a perda de margem. Depois da análise, conseguiu reduzir esse universo para aproximadamente 300 promoções.
O caso ilustra o tipo de decisão que a companhia pretende apoiar: cruzar informações de vendas e rentabilidade para selecionar ações comerciais. O executivo não informou o nome do cliente nem o impacto financeiro da mudança.
A oportunidade também atrai concorrentes com forte presença nas grandes empresas. A Microsoft já utiliza modelos semânticos do Power BI para dar contexto ao Copilot e orienta seus clientes a preparar essas estruturas para melhorar as respostas da inteligência artificial.
A Snowflake, por sua vez, oferece estruturas chamadas semantic views, que registram definições e relações dos dados. Elas são utilizadas pelo Cortex Analyst para interpretar perguntas e gerar consultas às bases das empresas.
A disputa alcança, portanto, a infraestrutura que ajuda a IA a interpretar as informações de cada negócio. Nesse mercado, a Strategy apresenta a integração entre diferentes sistemas e ferramentas como argumento para conquistar espaço.
O desafio é converter essa proposta em contratos maiores e novos clientes. A companhia terá de demonstrar que uma camada adicional de organização e governança dos dados gera retorno suficiente para justificar o investimento, inclusive em empresas que já utilizam soluções dos gigantes de tecnologia.
O bitcoin deu à Strategy uma nova identidade no mercado financeiro. Com o Mosaic, a companhia tenta construir um novo ciclo de crescimento para o software que deu origem à empresa.




