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Em Cuba, a La Bodeguita del Medio guarda a história nas paredes e a solidão nas mesas

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A música continua, os mojitos também. Mas faltam clientes em La Bodeguita del Medio.

Um dos bares mais famosos de Havana, o endereço que desde 1942 atrai escritores, artistas e turistas virou um retrato da crise do turismo em Cuba.

Entre janeiro e julho de 2026, o país recebeu 419,9 mil visitantes internacionais, queda de 62,8% em um ano.

Na Bodeguita, durante pouco mais de uma hora e meia, a reportagem do NeoFeed encontrou apenas dois pequenos grupos de turistas.

“Há dias em que eu não atendo ninguém”, conta Juana, funcionária identificada por um nome fictício a seu pedido. “Minha única companhia são as grandes histórias contadas e vividas aqui.”

O mojito custa cerca de US$ 7, mais que o salário mínimo mensal cubano convertido pelo câmbio informal.

Músicos se revezam no salão, visitantes filmam, tiram fotos e saem. Nas paredes, assinaturas e fotografias guardam a memória de um tempo áureo. Às mesas, sobra espaço.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Havana – Em Havana Velha, basta subir em um bicitáxi e dizer o nome. La Bodeguita del Medio é daqueles endereços que não precisam de introduções ou explicações. Na capital cubana, histórias sobre o bar atravessam gerações. Vividas ou escutadas, elas fazem parte da memória do país desde 1942.

Na Calle Empedrado, entre as ruas Cuba e San Ignacio, o casarão colonial de fachada azul e placa amarela durante décadas atraiu turistas do mundo inteiro. Lotavam o lugar em busca da combinação que virou uma das imagens exportadas por Cuba: rum, hortelã, limão, água com gás, açúcar e gelo em um copo de mojito, ao som de salsa e ritmos tradicionais cubanos.

A música continua lá. Ao longo do dia, artistas se revezam no salão principal do bar. Tocam seu repertório, enquanto poucos visitantes entram, filmam, tiram fotos. Alguns ensaiam passos de dança e deixam dólares ou pesos cubanos nos chapéus dos músicos. Depois, saem. Falta gente que fique para ouvir.

O esvaziamento da Bodeguita é mais um retrato da crise do turismo em Cuba, que compromete uma importante fonte de divisas da economia do país.

Entre janeiro e julho de 2026, Cuba recebeu 419.863 visitantes internacionais, queda de 62,8% em relação ao mesmo período de 2025, segundo a Oficina Nacional de Estadística e Información (ONEI). Do Canadá, principal emissor de turistas, vieram 127.645 visitantes, ante 478.382 um ano antes.

A Bodeguita nasceu quando o comerciante cubano Ángel Martínez Borroto comprou o pequeno estabelecimento da Calle Empedrado e abriu ali a Casa Martínez. Aos poucos, o lugar deixou de ser apenas uma pequena bodega e passou a servir refeições e bebidas, atraindo jornalistas, escritores e artistas.

O nome, que atravessou fronteiras, veio da própria localização. Enquanto boa parte dos estabelecimentos comerciais ficava nas esquinas, o bar está no meio do quarteirão: en el medio. Os frequentadores começaram a se referir ao endereço como a la bodeguita del medio. Em 1950, o apelido virou oficialmente o nome do bar.

Franquias mundo afora

Entre seus primeiros frequentadores estavam nomes importantes da intelectualidade cubana, como o poeta Nicolás Guillén e o escritor Alejo Carpentier. Na história da Bodeguita, é difícil não esbarrar no nome do escritor americano Ernest Hemingway. Durante décadas, a frase “Mi mojito en La Bodeguita, mi daiquirí en El Floridita” foi atribuída a ele e ajudou a reforçar a fama global do bar.

A autenticidade dessa narrativa, porém, é contestada. Pesquisadores da vida e da obra de Hemingway afirmam não haver evidências sólidas de que ele tenha frequentado a Bodeguita. Verdade histórica ou parte de uma lenda cultivada ao longo do tempo, a associação com o escritor contribuiu para transformar o endereço da Calle Empedrado em um dos símbolos de Cuba.

A própria empresa estatal Palmares, responsável pela administração do estabelecimento, apresenta a Bodeguita como a “Catedral do Mojito”. O bar se tornou internacionalmente associado ao coquetel cubano, embora a origem da bebida seja anterior à criação da Bodeguita.

Algumas franquias oficiais surgiram ao redor do mundo: México, República Checa, Argentina e Turquia. Segundo o governo cubano, essas franquias pagam royalties pelo uso da marca, que pertence ao Estado.

As assinaturas são tantas que as paredes parecem não comportar mais nomes

O ritual de preparar mojitos com hortelã fresca e rum cubano continua, mas os visitantes são cada vez mais raros

No meio do quarteirão da Calle Empedrado, o bar ganhou o nome pelo qual se tornaria conhecido mundo afora (Foto: Rafaella Ramos)

Do lado de fora da Bodeguita, a reportagem do NeoFeed encontrou vendedores de livros, pinturas e cartões-postais. Cubanos conversam na calçada, enquanto moradores e trabalhadores atravessam o centro histórico em seus percursos cotidianos. A música que sai do bar se mistura aos sons de Habana Vieja. Há movimento, mas não necessariamente consumo.

No balcão principal, logo na entrada, está Juana, identificada por um nome fictício a seu pedido. Diante dos raros clientes, ela repete o ritual de preparar os mojitos.

“Faz parte da história da casa… Ramos frescos de hortelã e rum cubano”, diz. “O rum precisa ser cubano! Se não for, perde a originalidade”, brinca.

O drinque custa cerca de US$ 7 – mais que o salário mínimo mensal cubano, equivalente a US$ 4,60 pelo câmbio informal de 16 de setembro.

Enquanto Juana monta as bebidas, os músicos entram e saem do salão. Um grupo termina a apresentação e, minutos depois, outro ocupa o mesmo espaço. O rodízio de músicos é maior que o de clientes.

Durante pouco mais de uma hora e meia em que a reportagem do NeoFeed esteve na Bodeguita, o bar recebeu apenas dois pequenos grupos de turistas: um da Argentina e outro da Colômbia. Eram os primeiros e únicos visitantes daquela tarde até então, segundo Juana.

“Trabalho no bar mais famoso do mundo… é assim que nos referimos à Bodeguita del Medio, e há dias em que eu não atendo ninguém”, conta ela. “Minha única companhia são as grandes histórias contadas e vividas aqui.”

No restaurante, a nostalgia se torna quase palpável. Fotografias antigas, dedicatórias e assinaturas de clientes ilustres e anônimos tomam as paredes do salão, enquanto as mesas estão postas à espera de quem raramente vem. É a síntese de Cuba hoje: histórica, famosa e cada vez mais vazia de visitantes.



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