Adriano de Oliveira
Nunca foi tão fácil encontrar pessoas!
Basta abrir uma rede social, enviar uma mensagem ou participar de um grupo e ao mesmo tempo, nunca se falou tanto sobre solidão entre jovens. Essa aparente contradição talvez revele uma das transformações psicológicas mais importantes do nosso tempo: conexão digital e vínculo emocional não são exatamente a mesma coisa.
Nesta semana, o debate sobre uma possível “geração solitária” voltou aos grandes veículos internacionais. Reportagens e revisões recentes apontam redução da sensação de pertencimento e aumento da solidão entre jovens, mesmo em uma época de comunicação permanente, segundo o the Guardian
O adulto jovem vive uma fase particularmente vulnerável a esse fenômeno, afinal a escola terminou e muitas amizades deixaram de acontecer espontaneamente. Colegas mudam de cidade, relações amorosas terminam e ambientes profissionais nem sempre produzem intimidade, momento em que pela primeira vez, construir uma rede social significativa pode exigir intenção.
É aí que surge uma armadilha: preencher a ausência de vínculo com presença digital.
O celular oferece a impressão de companhia, afinal há mensagens, vídeos, comentários e pessoas disponíveis constantemente, mas podemos passar horas acompanhando a vida dos outros sem que ninguém saiba realmente como estamos.
Vínculo exige algo diferente, requer disponibilidade, repetição, vulnerabilidade e reciprocidade. É preciso convidar, aceitar um não, aparecer novamente, ouvir problemas, contar os próprios, suportar a possibilidade de rejeição e isso é muito mais trabalhoso do que rolar uma tela.
O resultado pode ser um adulto jovem com centenas de contatos e pouquíssimas pessoas para quem poderia telefonar às três da manhã.
A solidão também pode produzir um ciclo difícil, afinal quanto mais tempo alguém permanece isolado, mais ameaçadora pode parecer a aproximação social. Surge medo de rejeição, sensação de não saber mais conversar ou crença de que todos os outros já possuem grupos estabelecidos e para evitar desconforto, a pessoa se afasta ainda mais.
Nesse contexto, frases como “aprenda a gostar da própria companhia” precisam ser usadas com cuidado. Autonomia emocional é importante. Entretanto, os seres humanos também precisam de pertencimento. Independência não significa ausência de necessidade afetiva.
Para alguns jovens, a dificuldade aparece ainda nos relacionamentos amorosos. Aplicativos ampliam enormemente o número de possibilidades, mas podem produzir também sensação de descartabilidade, afinal sempre parece existir alguém melhor a um “deslizar” de distância.
Construir vínculo, exige exatamente o oposto, é sobre permanecer tempo suficiente para conhecer alguém imperfeito.
Do ponto de vista psicológico, precisamos recuperar uma competência pouco valorizada: manutenção de relacionamento. Amizades também exigem investimento. É necessário marcar encontros, telefonar, aparecer e tolerar pequenas frustrações.
Se o isolamento vier acompanhado de tristeza persistente, perda de interesse, ansiedade social intensa ou sensação de não pertencimento, procurar ajuda profissional é importante. Psicoterapia não existe apenas para tratar crises. Pode também ajudar alguém a compreender padrões relacionais e reconstruir espaços de conexão.
Talvez o grande paradoxo desta geração seja o fato de termos ferramentas extraordinárias para encontrar pessoas, mas estamos precisando reaprender a construir intimidade.
Porque ser visto numa tela não significa necessariamente ser conhecido e estar conectado não significa pertencer.
Se você chegou até aqui é porque esse texto faz sentido para você, Vamos conversar?
Adriano de Oliveira
Psicólogo Clínico e Neuropsicólogo
CRP: 06/150383
Instagram: @psicologoadrianodeoliveira




