VALE DO TAQUARI (RS) — Uma das regiões mais afetadas pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, o Vale do Taquari guarda histórias de uma das maiores indústrias de frango do mundo, a MBRF. E de famílias que precisaram começar do zero após terem suas casas e negócios devastados pela chuva.
É o caso da família Schwambach, produtora integrada de suínos da MBRF no município de Estrela (RS). Na atividade há décadas, pai, mãe e filho viram o galpão com 1.400 suínos ser devastado pelas chuvas da janela de casa. Nas contas deles, 33 animais morreram em decorrência do temporal.
“Eu lembro de estar em casa. Olhando pela janela, a gente via os relâmpagos batendo e eu comecei a dizer ‘pai, acho que os telhados do galpão não estão mais lá’, porque dava para ver as paredes do fundo do galpão. O pai não queria acreditar”, conta Alex Schwambach.
Demorou, mas a família conseguiu reconstruir o galpão, tendo que comprar ainda um pedaço adicional de terra de três hectares — uma transação complicada por causa de questões familiares do vizinho. Na visita da reportagem à propriedade, a família tinha acabado de receber o primeiro lote de animais.

Para conseguir colocar tudo de pé, a família se virou com muito trabalho e até um “brique” — um arranjo na gíria local. Em troca de um trator, Renato, o pai da família, construiu uma casa para o próprio tio na praia.
“Desde pequeno, aprendi que tem que aprender de tudo que estiver na frente”, conta.
Para ajudar a população devastada pelas chuvas, a MBRF mobilizou recursos para apoiar a recuperação do Rio Grande do Sul por meio da campanha “Juntos pelo Sul”. Na época, BRF e Marfrig contribuíram com R$ 1 para cada R$ 1 doado, entre recursos internos e externos, alcançando R$ 6 milhões em doações.
A empresa também distribuiu mais de 2,7 milhões de refeições e doar 2,3 toneladas de alimentos não perecíveis, além de mais de 20 toneladas de ração para animais. Ao todo, 20 municípios foram alcançados.


“Em mais de três anos, foi toda a reconstrução, a retomada da vida comunitária, e agora estamos na parte do desenvolvimento regional, com outras parcerias e outras formas de trabalho através do Instituto MBRF”, conta Graziela Weiss Urnau, analista da gerência agropecuária da companhia.
Esse trabalho de desenvolvimento regional é feito principalmente com uma parceria com a Univates, envolvendo um apoio da MBRF à preparação das defesas civis do Vale do Taquari para responder às enchentes.
A demanda continua bastante atual. Durante a visita da reportagem, no mês passado, a região enfrentava a quarta enchente no ano. De proporções menores, mas longe de passar despercebida.
Mudança demográfica
As chuvas de 2024 foram tão relevantes para a história da região que causaram até uma mudança demográfica, segundo relatos de famílias que habitam ali.
“Estamos muito próximos da cidade de Estrela, que foi afetada pela enchente, então vimos uma migração da população para o lado de Teutônia. Na semana passada, vi que [Teutônia] teve um acréscimo de cartão SUS de 1.500 pessoas”, conta Eduardo Fell, produtor integrado de suínos ligado à MBRF em Teutônia.
A busca por moradia na região impulsionou, inclusive, o valor das terras na cidade. Hoje, segundo Fell, é praticamente impossível conseguir vender uma área rural em Teutônia: falta bolso para o patamar de preços em que as propriedades chegaram.
“Hoje, não se encontra mais área pequena por aqui em R$ 200 mil o hectare. Está de R$ 250 mil para mais. Áreas maiores, de 20 hectares, por exemplo, se fala em R$ 180 mil. Mas a gente chega a ver aqui pedidos de R$ 400 mil por um hectare”, afirma o integrado.
No caso dele, a propriedade em que trabalha vem de uma tradição de família. O pai dele, Darci, está na região há décadas e os dois dividem a criação de 9 mil animais por lote nas granjas da família.
A busca por uma mudança de endereço em uma região que não tenha alagamentos é justificada diante do tamanho do estrago de 2024. No centro de Lajeado, uma livraria chegou a ficar totalmente submersa. A água, no limite, subiu até o primeiro andar do prédio, alagando também o apartamento, contam moradores da região.
A força da agroindústria
Em Lajeado, um terço dos assalariados trabalha na indústria de transformação. Desses, a indústria de alimentos responde por 63%, o que inclui os frigoríficos.
Só a MBRF emprega mais de três mil pessoas no frigorífico que pertencia à Perdigão em Lajeado — adquirido em 2007 da Avipal. Eles se somam a cerca de dois mil na planta da Companhia Minuano de Alimentos — uma outra planta industrial da região, contratada pela MBRF para completar a capacidade de abate de aves.


José Luiz Serra é um deles. Com 35 anos de empresa, Serra hoje ocupa o cargo de diretor da regional Sul de Agropecuária da empresa — que compreende os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul e responde por quase metade da produção da MBRF no Brasil.
“Eu sou engenheiro agrônomo de formação. Meu pai queria que eu fosse bancário, mas vi uma vaga na Sadia, na época, me candidatei e fui contratado como estagiário, ainda lá em Concórdia (SC). Depois fui para Uberlândia, para Lucas do Rio Verde, Toledo e recentemente vim para Lajeado”, conta Serra.
A produção de aves e suínos de Lajeado atende tanto ao mercado brasileiro como o externo. São 175 mil frangos de corte abatidos por dia para a MBRF na Minuano, além de outros 410 mil frangos abatidos por dia na unidade própria de Lajeado.
Também são abatidos 4 mil suínos por dia no frigorífico da MBRF, além de serem produzidas 19 toneladas de produtos industrializados diariamente.


“A cada 100 quilos de suínos, aproveitamos 93 quilos. Dos outros sete [quilos], seis e meio são ossos”, diz Cassiano Chierentin, gerente de logística, planejamento e controle de produção da MBRF em Lajeado.
Entre os produtos fabricados, estão a costela vendida nas redes Outback (com uma produção de 1,6 tonelada por dia) e o frango dos restaurantes do KFC (43 toneladas por dia). Ainda para o mercado interno, são produzidos o Bacon Manta (19 toneladas por dia) e a tira de costela (6,5 toneladas diárias).
Em relação às aves, além do frango pesado (de 3,8 quilos), a unidade também vende o griller, um frango menor, de 1,4 quilo, embalado inteiro para os clientes do Oriente Médio.
A unidade industrial também exporta os cortes de carnes e suínos para países como Japão, Hong Kong, China, Singapura, Chile, África do Sul, Filipinas, Geórgia, Vietnã, Cuba e Irã.
Boa parte dos produtos industrializados é enviada para outras regiões do Brasil, além de matérias-primas (como pernil, paleta e gordura) para outras unidades da própria MBRF, como Videira e Concórdia.




