Ao analisar os reflexos das eleições no mercado de terras, procuro entender como o resultado das urnas pode alterar o custo do capital e a disposição dos compradores para investir. Investidores buscam ambientes sólidos e previsíveis de longo prazo.
A reação ao primeiro turno mostrou como essas expectativas podem mudar: depois de Flávio Bolsonaro terminar a votação de 4 de outubro com 47,03% dos votos válidos, à frente dos 45,16% de Lula, os investidores passaram a atribuir maior probabilidade a uma mudança na condução econômica do país.
No primeiro pregão após o primeiro turno, o Ibovespa subiu 7,70%, para 206.912 pontos, e o dólar à vista caiu 4,12%, para aproximadamente R$ 5,00; no dia sequente, a bolsa recuou 0,52%, enquanto o dólar permaneceu abaixo de R$ 5,00.
Flávio propõe reduzir a máquina pública, reformular as regras fiscais e retomar desestatizações; Lula defende manter o arcabouço e a atuação do Estado na articulação de investimentos públicos e privados, enquanto a dívida bruta do governo atual atingiu 82,9% do PIB em agosto de 2026, segundo o Banco Central.
É nesse ambiente que o comprador de terras decide quanto pode investir e qual retorno precisa obter. Se a melhora da confiança vier acompanhada de uma redução sustentada do custo do capital, pode favorecer as condições de financiamento e tornar mais atraentes novos investimentos em terras.
Para que essa disposição se transforme em expansão, porém, a atividade precisa gerar margens positivas e caixa suficiente para sustentar os compromissos assumidos. Confiança pode antecipar uma decisão, mas é o caixa que permite sustentá-la.
Por isso, a valorização do real merece uma leitura cuidadosa no agro: o dólar menor pode aliviar compras futuras de insumos importados e reduzir o valor em reais das obrigações em moeda estrangeira, mas também diminui a receita em reais das exportações, mantidos os demais fatores.
A melhora das expectativas pode estimular propostas e encurtar negociações, mas seus efeitos no mercado de terras precisam aparecer nas transações, nos prazos de venda e nas condições efetivamente aceitas.
Uma propriedade pode manter o preço nominal anunciado e ter menor valor econômico se o vendedor aceitar uma entrada menor ou alongar o recebimento sem compensação suficiente por juros, correção e risco.
Na minha leitura, uma vitória de Lula, sem mudanças relevantes na condução fiscal, traz o risco de prolongar um ambiente de juros elevados, confiança fragilizada e maior cautela na destinação de capital a novos negócios.
Uma vitória de Flávio pode fortalecer a disposição para investir, desde que a expectativa de ajuste se transforme em execução, especialmente se a Selic voltar a um dígito.
Considero possível que os efeitos sobre os negócios com terras ganhem consistência a partir do segundo ano de mandato, caso essas condições se confirmem.
Independentemente do vencedor, continuo vendo nas terras produtivas um patrimônio capaz de atravessar ciclos e contribuir para a preservação de valor no longo prazo, pela oferta cada vez mais limitada e pela capacidade de gerar renda, além da histórica valorização no mínimo acima da inflação. A eleição define um mandato; uma boa decisão sobre terras precisa servir a gerações.




