O futuro nos ataca novamente. Enquanto travamos nossa briga fratricida bianual polarizada, a OpenAI divulgou centenas de artigos científicos de matemática, com descobertas e estudos que irão ocupar teóricos e acadêmicos por anos a fio.
Muitos matemáticos, entre o assombro e a excitação, já comparam o efeito desses trabalhos a uma explosão atômica no setor. Outros sustentam que a divulgação foi apenas uma demonstração de força do que os robôs podem fazer. Seja como for, não há como minimizar o impacto para estudos teóricos de ciências exatas.
O que a OpenAI fez foi provar, mais uma vez, que a inteligência mudou de natureza. Ela agora pode ser produzida em galões, de forma automática e sem depender de inspiração, essa magia fugaz que nos encanta e nos amaldiçoa desde que nos entendemos como vivos. Nos campos científicos e cartesianos, onde padrões e regras estáveis são a premissa de qualquer avanço, a mudança é mais feroz. Foi assim com o desenvolvimento de códigos de programação desde o ano passado.
Nesse ritmo, restarão aos matemáticos a filosofia de pensar os resultados dos estudos e suas aplicações. Resta-lhes também a humildade de reconhecer que passaram a dividir o campo com ferramentas de outro nível de produção.
É nesse ponto que a sugestão de Bill Gates ganha peso. Em ensaio publicado em agosto, ele propôs a categoria “Human Reserved”: atividades que a sociedade escolheria deixar apenas para pessoas, mesmo quando máquinas pudessem executá-las . Entre os exemplos estão o cuidado infantil e o de idosos, além da medicina. Na versão mais ousada, até 40% dos empregos ficariam reservados a humanos. Gates também defende um imposto sobre o uso de robôs e de IA para financiar a transição. No domingo (11), na CNN, ele repetiu que a sociedade terá de decidir como tributar a IA e quais empregos reservar.
A ideia também ecoou em Lisboa. No sábado anterior (10), diante de cerca de 10 mil pessoas no Game Changers Forum, Barack Obama disse que a IA vai transformar o trabalho do conhecimento, como a automação transformou as fábricas. Segundo ele, advogados, contadores e médicos terão tarefas assumidas por robôs, num processo de 10 anos, não de 30 ou 50. Mas apontou realidades em que as máquinas não substituem pessoas, como a educação e a enfermagem. Obama não propôs uma reserva formal de empregos como Gates, mas considera insubstituíveis aqueles de biomédicas e medicina.
Obama acrescentou um ponto que Gates deixa menos explícito, lembrando que, “como sociedade, desvalorizamos essas profissões”. Isso mostra que reservar funções para humanos não bastaria. Se a reserva não vier acompanhada de valorização social e salarial, protegeremos empregos mal pagos. Obama também alertou que governos se movem lentamente diante de uma tecnologia que muda a cada poucos meses.
Os dois chegam na mesma questão: reservar profissões seria manter o controle ou preservar a humanidade que acreditamos ter? Obama chegou perto de responder. Disse que a maior prova da nossa humanidade é não querermos abdicar do controle. Disse também que a resposta final precisa ser humana, e deu o exemplo de nunca entregar a uma máquina o comando de uma arma nuclear. Se a reserva existir porque a máquina ainda não consegue, ela cairá com o próximo modelo. Se existir porque a sociedade não quer abrir mão, será uma escolha de valores que precisaremos defender.
E a nós, mortais que usamos calculadora até para as contas do mercado, resta a convicção de que nos restarão as ciências humanas, a fortaleza de nossas incertezas e experiências, imprevisíveis e impossíveis de prever no deslizar do planeta pelo tempo. Nos restará a esperança de que todo este progresso desemboque em uma nova era de humanidades e introspecção em nossas almas, inexpugnáveis aos amigos de silício.




