Um áudio, que circula em grupos de WhatsApp, de 12 minutos e 42 segundos, atribuído a uma discussão entre o vereador Júnior Féfin (União Brasil) e sua companheira, reúne declarações depreciativas sobre trabalho e condições financeiras, além de momentos em que a mulher chora e relata sofrimento emocional. A gravação surge um dia depois de o Marília Notícia divulgar um vídeo em que o parlamentar aparece imobilizando a namorada no chão, com as pernas em torno do pescoço dela.
No novo material, ao qual a reportagem teve acesso, uma voz feminina questiona o tratamento recebido durante uma discussão sobre dinheiro, relacionamento e viagens. A interlocutora demonstra abalo emocional em diferentes momentos e chega a afirmar que se sente ofendida e humilhada.
“Você só me ofende. Você só acaba comigo”, diz a mulher em uma das passagens registradas na transcrição preliminar.
Em outro momento, ela questiona: “Eu estou desequilibrada? Eu não estou desequilibrada”. A declaração ocorre em meio a um diálogo sobre o comportamento da própria mulher durante o conflito.
Também há referências ao impacto emocional da situação. “Você acha que eu estou saudável? Você acha que a minha cabeça fica como?”, pergunta a interlocutora, antes de relatar, em outra passagem, que considera a situação humilhante.
A gravação apresenta ruídos constantes, interferências sonoras e trechos em que as falas se sobrepõem ou ficam parcialmente inaudíveis. Em determinados momentos, a voz da mulher fica embargada e é possível perceber choro. Parte da conversa não pode ser transcrita com segurança.
O Marília Notícia ressalta que o arquivo é atribuído ao parlamentar, mas não passou por perícia de autenticidade. A reportagem também não conseguiu estabelecer a data da gravação nem confirmar todas as circunstâncias em que o diálogo ocorreu. Dessa forma, a identificação dos interlocutores e a integridade do material ainda dependem de verificação por parte dos órgãos competentes.
Falas sobre trabalho e dinheiro
Além das declarações da mulher, a gravação contém comentários de uma voz masculina sobre sua capacidade profissional e financeira.
“Você não estudou o suficiente. Você não trabalhou o suficiente para ter dinheiro o suficiente”, afirma o homem, segundo a transcrição preliminar.
Em outro trecho, ele faz referência à atividade profissional da interlocutora e à ausência de comissões recebidas por vendas de imóveis.
“Ainda não entrou na sua conta uma comissão de venda de casa. Nenhuma. Então para de sonhar em coisas que ainda não aconteceram”, diz.
O homem também afirma que ela estaria querendo resultados antes de conquistá-los e acrescenta: “Você quer tudo na mão”.
Durante a discussão, a mulher contesta a maneira como suas condições financeiras são apresentadas e menciona ter trabalhado desde os 15 anos. Ela também afirma que recursos próprios foram investidos em uma casa, embora tivesse outros planos para o dinheiro.
Em outra passagem, a interlocutora questiona se poderia receber ajuda financeira por estar desempregada.
A conversa se estende à divisão das despesas de viagens. O homem afirma que não pretende sustentar financeiramente uma mulher.
“Eu não sou homem de bancar mulher. Não vou bancar mulher na minha vida. Nunca”, declara.
A interlocutora rebate: “Você nunca me bancou. Eu nunca falei para você bancar. Em todas as viagens eu sempre dei o valor que era possível”.
O conteúdo registra uma discussão sobre responsabilidades financeiras, mas, isoladamente, não permite determinar se houve alguma forma de controle econômico ou patrimonial.
Mulher relata humilhação e promessa descumprida
Em outros trechos, a mulher afirma que o interlocutor teria feito uma promessa que não foi cumprida.
“Você deu a sua palavra que você não ia fazer mais isso comigo”, declara.
A gravação contém referências a mensagens envolvendo outras mulheres, aparentemente relacionadas a um desentendimento anterior do casal. Entretanto, parte desse diálogo apresenta falhas de áudio, o que impede estabelecer com precisão o conteúdo das mensagens e as circunstâncias mencionadas.
A interlocutora também faz referência a tarefas domésticas, utilizando as expressões “babá” e “empregada”, enquanto questiona uma possível viagem do companheiro. O contexto integral dessa passagem não está suficientemente claro.
Ao longo da conversa, a mulher volta a questionar o comportamento atribuído ao interlocutor e relata sentir-se emocionalmente afetada.
“Isso é humilhante demais para mim”, afirma em uma das passagens.
As declarações merecem atenção no contexto de uma possível investigação sobre violência psicológica, mas não constituem, por si só, comprovação de crime. A avaliação depende da confirmação da autenticidade do material, das circunstâncias da relação e dos demais elementos eventualmente reunidos pelas autoridades.
Vídeo anterior e possível investigação
O novo conteúdo chega à reportagem após a divulgação, na segunda-feira (19), de um vídeo que mostra Júnior Féfin imobilizando a namorada durante um conflito dentro de uma residência.
Nas imagens, gravadas pelo próprio vereador, a mulher afirma estar sendo sufocada e reclama de dor no braço, enquanto pede para ser solta. O parlamentar, por sua vez, diz que tenta contê-la e a descreve como descontrolada.
Na reportagem anterior, fontes ouvidas sob reserva pelo Marília Notícia relataram que o episódio teria chegado ao conhecimento da Polícia Civil e que um inquérito teria sido instaurado para apurar os fatos. O jornal, entretanto, não obteve acesso aos documentos policiais e judiciais relacionados ao caso.
Não há confirmação de que o áudio agora analisado tenha sido entregue à Polícia Civil ou incorporado a eventual procedimento investigativo. Caso sua autenticidade seja confirmada, o material poderá ser submetido à avaliação das autoridades como um dos elementos para esclarecer as circunstâncias da relação e dos conflitos relatados.
A Lei Maria da Penha reconhece a violência psicológica como uma das formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, incluindo condutas que provoquem dano emocional ou envolvam humilhação, manipulação, insultos e outras formas de degradação ou controle. A configuração de eventual crime, porém, depende da presença dos requisitos legais e da apuração dos fatos.
Na reportagem publicada na segunda-feira, a Polícia Civil informou que não se manifestaria sobre o caso. O vereador também havia sido procurado, mas não apresentou resposta até aquela publicação.
As circunstâncias da gravação, a identificação definitiva das vozes e a eventual relação entre o áudio e o episódio registrado em vídeo permanecem sem confirmação independente.




