Bloomberg Línea — O custo de vida, os juros e o endividamento das famílias foram alguns dos principais temas econômicos do último debate entre os candidatos à Presidência antes do segundo turno, marcado para domingo (25).
No encontro promovido pela TV Globo na noite de sexta-feira (23), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) divergiram sobre o papel do gasto público e do Banco Central.
Os dois, no entanto, convergiram em promessas como o reajuste do salário mínimo acima da inflação, uma política apontada por economistas como uma das fontes de pressão sobre as contas públicas por seu impacto nas despesas da Previdência.
O encontro ocorreu com a disputa indefinida. Na pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (22), os dois candidatos têm 50% dos votos válidos cada um. No primeiro turno, Flávio teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. Foi o segundo confronto entre eles, depois do debate da Band, no domingo (18).
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O debate teve quatro blocos. Nos três primeiros, com regiões sorteadas e temas escolhidos pelos candidatos, houve espaço para propostas de infraestrutura, saúde, educação e segurança.
O último, de tema livre, foi ocupado em sua maior parte por acusações sobre patrimônio, pedidos de quebra de sigilos e relações com o Banco Master. Flávio fez a maior parte dos pedidos de direito de resposta ao longo da noite, e a maioria foi negada pela produção.
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O debate ocorreu em uma reta final de campanha marcada por promessas que elevam gastos dos dois lados, com poucos detalhes sobre como seriam financiadas.
Em vários momentos, Flávio se comprometeu a manter políticas do atual governo. Disse que vai reajustar o salário mínimo e as aposentadorias acima da inflação, manter o Pé-de-Meia e garantir reajuste ao Bolsa Família.
Também declarou apoio à tarifa zero no transporte público nos fins de semana, proposta que Lula associa ao fim da escala 6×1, e afirmou que não vai privatizar Banco do Brasil, Caixa e Petrobras.
Lula sustentou que, sem a política de valorização do salário mínimo dos governos do PT, o piso estaria hoje em R$ 900.
A política monetária foi um dos pontos de divergência. Flávio afirmou que a taxa Selic, hoje em 13,75% ao ano, é resultado de um “governo gastador”. Disse que a dívida pública, de R$ 11 trilhões segundo ele, custa quase R$ 1 trilhão por ano em juros.
Pelos dados do Banco Central, a dívida bruta do governo geral somava R$ 10,9 trilhões em julho, ou 82,5% do PIB. Segundo o senador, a projeção em 2022 era de uma Selic próxima de 7% hoje caso Jair Bolsonaro tivesse sido reeleito.
Lula devolveu a pergunta e questionou por que o grupo político do adversário aprovou a autonomia do Banco Central. Flávio defendeu a medida como forma de impedir que um presidente reduza os juros “na canetada” e citou a Argentina dos governos de Cristina Kirchner e Alberto Fernández. Lula atribuiu o peso da dívida ao nível dos juros e defendeu o crescimento econômico como caminho para reduzi-la.
“Toda vez que a economia não cresce, aparece alguém falando em corta gasto, tesouraço, teto de gasto”, disse Lula. “Quanto mais a economia crescer, mais a gente vai poder diminuir a dívida com relação ao PIB.”
Em entrevista após o fim do debate, Lula disse que rever a autonomia do BC não é prioridade de seu programa e que confia no presidente da instituição, Gabriel Galípolo. Atribuiu o patamar dos juros ao câmbio e às guerras e disse que o país paga um preço alto para subsidiar combustíveis. “Eu quero é que o Banco Central baixe o juro”, afirmou.
Flávio afirmou que os juros futuros caíram depois do primeiro turno, com ele na frente. Segundo ele, isso abriria um espaço de mais de R$ 200 bilhões no Orçamento. O senador prometeu usar parte desses recursos para abater a dívida pública e para comprar dívidas das famílias junto aos bancos, com refinanciamento pela Caixa, que chamou de “Banco da Prosperidade”. Pela proposta, pessoas físicas ficariam seis meses sem pagar e empresas, um ano.
“Eu vou comprar a sua dívida dos bancos e vou refinanciar pelo Banco da Prosperidade e a Caixa Econômica Federal”, disse Flávio.
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Lula afirmou que o adversário copia um programa que o governo já enviou ao Congresso. Segundo o presidente, uma medida provisória prevê um leilão de dívidas de famílias com bancos ainda neste mês, com descontos de 90% a 95%, que pode superar R$ 150 bilhões.
Ele citou as duas edições do Desenrola, que teriam atendido cerca de 15 milhões de pessoas, e o perdão de quase R$ 15 bilhões em dívidas de microempreendedores individuais. Lula também defendeu o fim das apostas online, que associou ao endividamento das famílias.
Flávio criticou a carga tributária e a regulamentação da reforma tributária. Disse que a alíquota do novo IVA pode chegar a 28%, o que, segundo ele, seria a maior do mundo, e acusou o governo de criar ou elevar mais de 30 tributos.
Também afirmou que o governo gastou mais de R$ 400 bilhões em medidas não previstas no Orçamento para buscar a reeleição. Lula não respondeu diretamente às críticas sobre o IVA.
No agronegócio, Flávio disse que o juro real do crédito rural se aproxima de 20% e prometeu proteger o seguro rural e o Plano Safra de contingenciamentos. Lula respondeu que o crédito agrícola do BNDES e do Banco do Brasil é subsidiado e não segue a Selic. Ele citou a abertura de 700 novos mercados para exportações depois do tarifaço dos Estados Unidos.
Saúde, segurança e meio ambiente
Na saúde, Lula questionou o compromisso do adversário com o financiamento do SUS. Flávio disse que vai investir no sistema, atualizar a tabela de pagamentos a médicos e hospitais e refinanciar as dívidas das Santas Casas com a Caixa.
Sobre a educação, Lula prometeu chegar a 100% de escolas em tempo integral até o ensino médio e estender o Pé-de-Meia à universidade. Flávio defendeu ensino técnico no contraturno, auxílio-creche com vagas na rede privada onde faltar vaga pública e parcerias entre escolas e empresas.
Já em relação à segurança, Flávio prometeu classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas, reduzir a maioridade penal e elevar as penas para roubo de celular. Lula disse que, com a aprovação da PEC da Segurança, vai criar um ministério para a área e fortalecer a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal.
Na questão da Amazônia, Lula defendeu a economia da floresta em pé e o Fundo Amazônia. Em entrevista após o debate, Flávio disse que seu programa prevê zerar o desmatamento ilegal até 2029, com participação das Forças Armadas. Ele também defendeu a exploração de petróleo na Margem Equatorial.
Nas considerações finais, Flávio pediu ao eleitor que avaliasse se a vida melhorou ou piorou nos últimos quatro anos e se comprometeu a “devolver o seu poder de compra”.
Lula pediu desculpas pelo tom do debate e lembrou sua trajetória, de vendedor ambulante e torneiro mecânico até a Presidência. “Vocês sabem o que nós fizemos juntos”, disse, antes de pedir o voto.
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