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Após o primeiro turno das eleições de 2026, as redes sociais se tornaram a principal fonte de informação política, superando a TV.
A esquerda, em resposta à desvantagem de Lula, intensificou sua presença digital, mobilizando jovens políticos que se destacaram nas redes.
Lula, aos 80 anos, adotou formatos mais autênticos, como vídeos em selfie, e aumentou significativamente suas interações nas redes, especialmente no Instagram.
O canal de WhatsApp “Exército do Lula” cresceu rapidamente, enquanto a direita, com uma presença mais orgânica, criou o “Tropa do Flávio”.
No Congresso, influenciadores digitais, como Nikolas Ferreira e Erika Hilton, mostraram a força do capital político digital, embora a quantidade de seguidores não se traduza diretamente em votos.
A dinâmica política está mudando, favorecendo uma política mais ideológica e concentrando votos em poucos influenciadores, o que pode impactar a representação local e a base dos partidos de centro.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Após o primeiro turno das eleições 2026, as redes sociais alcançaram um novo patamar como fonte de informação política. No levantamento divulgado pela Quaest na quarta-feira, 21 de outubro, as redes abriram dez pontos percentuais de vantagem sobre a televisão na preferência do brasileiro em consumo de informação.
Na pergunta “Como você se informa sobre política?”, os dois meios apareciam, em média, praticamente empatados ao longo de 2026, na casa dos 35%. A virada veio após o primeiro turno, quando as redes passaram a ser citadas por 40% dos brasileiros como principal meio para acompanhar política, enquanto a TV caiu para a casa dos 30%.
Esse crescimento é reflexo do peso das redes sociais na construção das candidaturas mais competitivas no primeiro turno. Os três deputados federais mais votados, por exemplo, têm entre 8 milhões e 38 milhões de seguidores somados no Instagram, no TikTok e no X. O desempenho das urnas no primeiro turno foi equivalente à audiência no ambiente digital.
No segundo turno, a disparada das redes sociais como veículo de informação eleitoral ganhou fôlego após a entrada da esquerda na disputa digital, uma reação ao fato de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ter terminado o primeiro turno atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL).
“Vimos uma mobilização acima do padrão para o segundo turno por parte da esquerda, que até então não sabia como trabalhar nesse ambiente. Agora, temos dois grupos fazendo política pelas redes. O bolsonarismo já tinha essa capacidade de operação, e a esquerda está aprendendo a trabalhar com esse mecanismo”, afirma o estrategista Felipe Soutello, idealizador da chapa Lula-Alckmin em 2022, ao NeoFeed.
Soutello reforça que o dado não indica uma mudança de tendência definitiva, na qual a TV perde espaço, mas é um registro da intensa atividade que as redes tiveram nas últimas semanas.
O grande foco da mudança está na campanha do presidente Lula. Três dias depois de Flávio sair em vantagem para o segundo turno, Lula recebeu políticos jovens do seu campo que se elegeram no domingo, 4 de outubro, com campanhas centradas no digital, como as deputadas Ana Elisa (PT-MG), Erika Hilton (PSOL-SP) e Sâmia Bomfim (PSOL-SP).
De lá para cá, a campanha reforçou o foco no digital. Aos 80 anos, Lula, que até pouco tempo atrás dizia sequer ter celular, passou a explorar formatos mais espontâneos, como vídeos gravados em selfie, e a mobilizar apoiadores diretamente pelas redes, como em convocações para lives.
“A busca por autenticidade é a grande lição das eleições de 2026. As pessoas querem um pouco mais de verdade, do político exposto, e as redes trazem isso”, diz Soutello.
Lula ampliou a vantagem sobre Flávio Bolsonaro em volume de interações nas redes sociais no período anterior ao segundo turno, especialmente no Instagram. As interações semanais do presidente cresceram 470%, de 11,9 milhões para 67,9 milhões, ante uma alta de 136% do senador, de 10 milhões para 23,6 milhões, segundo levantamento da Bites, consultoria de inteligência de dados e redes sociais.
“A hegemonia brutal que se via da direita nas redes sociais deixou de existir com essa mobilização. Mas não significa que eles não possam retomar [o protagonismo] em algum momento”, afirma André Eler, diretor técnico da Bites.
O maior foco de mobilização tem vindo do canal no WhatsApp “Exército do Lula”, criado e administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), que contava com 9,8 milhões de inscritos até o fechamento desta reportagem – um crescimento perto de 100% no número de inscritos apenas na semana que antecede a votação do segundo turno.
Em resposta, a campanha de Bolsonaro criou o canal “Tropa do Flávio”, atualmente com 2,1 milhões de inscritos. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) é um dos administradores e, assim como Janones, publica mensagens de mobilização para que os apoiadores tenham ações em conjunto nas redes, como subir uma hashtag ou impulsionar uma postagem.
Eler, da Bites, destaca que existe um risco de que o canal de WhatsApp de André Janones e a estratégia digital da esquerda percam força caso Lula não vença as eleições. Isso porque a mobilização foi impulsionada justamente por uma missão de curto prazo: reeleger o presidente.
A direita, por outro lado, tem uma presença mais orgânica nas redes que vem sendo construída desde 2013, não depende do canal “Tropa do Flávio”, e se mostra sustentável mesmo fora do período eleitoral.
“O trabalho do Janones de motivar a militância é excepcional, mas é algo que a direita já vem fazendo ao longo de anos”, diz Eler. “Ainda assim, existe o argumento de que a esquerda voltou a ganhar as ruas por causa dessa capacidade de se organizar nas redes”.
No dia 11 de outubro, apoiadores de Lula ocuparam 12 quarteirões da Avenida Paulista, em São Paulo, em um dos maiores atos da esquerda dos últimos anos. No final de semana seguinte, ato de campanha de Flávio reuniu 71,9 mil pessoas, segundo o Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e da More in Common. A contagem não foi feita na manifestação de Lula porque a campanha do presidente não autorizou drones no ato.
Influenciadores no Congresso
Para além do Palácio do Planalto, a influência do capital político digital se mostrou ainda mais forte no Congresso. Com 3,12 milhões de votos, Nikolas Ferreira (PL-MG) se tornou o deputado federal mais votado da história do Brasil. O parlamentar é também o principal expoente político da direita no país, com 25,3 milhões de seguidores apenas no Instagram.
Entre os dez deputados federais mais votados do país, todos têm mais de 2 milhões de seguidores no Instagram. No campo da esquerda, o principal nome é Erika Hilton (PSOL-SP), que tem 7,1 milhões de seguidores e foi a mulher mais votada da história para o cargo de deputada, com 1,59 milhão de votos.
A cientista política Tathiana Chicarino lembra, no entanto, que a quantidade de seguidores não se traduz diretamente em votos. “Isso acontece na medida em que esta pessoa vai além do engajamento e da visualização e consegue, de alguma maneira, pautar o debate. Ela consegue trazer enquadramentos discursivos que vão ser trabalhados por outros públicos”, afirma ela.
Coordenadora do curso de sociologia e política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP) e pesquisadora do Observatório de Conflitos Online da Universidade Federal do ABC (UFABC), Chicarino vê Nikolas Ferreira como grande expoente desse movimento.
Além de consolidar sua presença digital ao longo de várias eleições, Nikolas articulou apoios e inclusive formou outros candidatos. Com sua bênção, por exemplo, Lucas Pavanato (PL-SP) foi o deputado federal mais votado da história de São Paulo, com 2,8 milhões de votos – superando o recorde de Eduardo Bolsonaro em 2018.
No campo da esquerda, a deputada Erika Hilton apoiou Sofia Favero para a Assembleia Legislativa de São Paulo. Com seu apoio, Favero foi a terceira deputada mais votada de São Paulo, mesmo com apenas 131 mil seguidores no Instagram.
“O uso estratégico do digital é importante e esses candidatos fazem isso muito bem porque não separam redes e ruas”, afirma Chicarino. “Estar nas redes e mobilizar as redes também é participação política efetiva”.
Para Felipe Bailez, CEO da Palver, que monitora e analisa as redes e plataformas de mensagens, como WhatsApp e Telegram, o legado digital das eleições de 2026 é ainda maior no parlamento do que no Executivo.
“Antes, acreditava-se que o modelo de prefeitura e emendas era suficiente para eleger um parlamentar, e essa dinâmica se enfraqueceu. E ganha espaço uma política mais ideológica. Essa foi a grande mudança”, afirma.
A avaliação é que o algoritmo das redes sociais favorece a concentração de votos em poucos influenciadores de alto volume, prejudicando a representação local de nomes mais associados a uma política tradicional e territorial.
É algo que poderia, inclusive, afetar a base dos partidos de centro no Congresso. “Sem uma reforma política, eu acho difícil que o Centrão consiga manter o mesmo tamanho de base no próximo ciclo eleitoral”, diz Bailez.




