Bloomberg Línea — A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro nas eleições de domingo (25) tem importância que ultrapassa as fronteiras brasileiras, segundo cientistas políticos e pesquisadores que analisaram o resultado imediatamente após sua divulgação.
“Em nível global, o Brasil permanece como um baluarte contra a ascensão da extrema-direita”, escreveu o professor Guilherme Casarões da Florida International University, em um artigo publicado na manhã de segunda-feira no site de divulgação científica The Conversation.
“Em eleições recentes na América Latina e na Europa, partidos e líderes de extrema-direita avançaram em quase toda parte. O Brasil, a quarta maior democracia do mundo, contrariou essa tendência e tornou-se um símbolo que democratas em outras partes do globo não ignorarão”, argumentou.
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A reeleição do presidente de esquerda também serve como um contraponto à “Doutrina Donroe”, uma referência à estratégia do governo Trump de trazer o Hemisfério Ocidental para mais perto da esfera de influência dos EUA, disse.
Além disso, segundo Casarões, Lula desafiou a chamada “maldição do incumbente”. “Na última década, na América Latina, partidos que estavam no poder perderam eleição após eleição, punidos pelos eleitores devido à inflação, à insegurança e à estagnação econômica.”
A avaliação é semelhante à da professora Débora Thomé, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP). Segundo ela, a vitória de Lula pode representar uma pausa no movimento que vinha colocando a extrema direita em quase todos os países da América Latina com o apoio dos Estados Unidos.
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“Agora cercado por nações governadas por políticos extremistas, o Brasil escolheu preservar e fortalecer a sua jovem democracia”, escreveu em uma análise publicada no início de segunda-feira no mesmo portal de estudos.
Escrevendo dias antes da eleição de domingo, Dawisson Belém Lopes, professor de política internacional e comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), argumentava que a reeleição de Lula indicaria que o Brasil é um dique de contenção das pretensões intervencionistas de Donald Trump nas Américas.
“No contexto regional, o Brasil, ao lado de Canadá e México, é um dos poucos países que não sucumbiu às ingerências e tentativas de interferência de Donald Trump”, escreveu.
Segundo Péricles Andrade, professor de ciências sociais da Universidade Federal de Sergipe, por outro lado, a vitória de Lula representa um alívio democrático, mas não encerrará o ciclo que levou a extrema-direita ao centro do poder.
“O resultado preservará condições institucionais para reconstruir a democracia. Não eliminará, porém, a força da direita no Congresso, suas redes de mobilização ou sua capacidade de disputar ideias nas plataformas digitais”, escreveu, também no Conversation.
O desafio, segundo ele, será transformar a vitória em mudanças concretas. “Lula terá de governar uma sociedade polarizada e negociar com um Congresso de forte presença conservadora. E a possível saída do presidente da vida pública traz outra pergunta: a esquerda conseguirá construir um projeto para além de sua principal liderança?”




