O quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), após assegurar pouco mais de 64,24 milhões de votos no segundo turno para vencer Flavio Bolsonaro (PL) nas urnas, por uma diferença superior a 4,4 milhões de votos, deve ser recebido com pessimismo pelo mercado, com bolsa de valores em queda e dólar e juros futuros em alta.
A reação à reeleição de Lula será um ajuste de expectativas. Nas últimas semanas, o mercado vinha apostando em uma mudança na condução da política econômica, especialmente na área fiscal. Com a continuidade de Lula no Planalto, os investidores terão de recalibrar essas apostas.
Camilo Marcantonio, sócio-fundador e CIO da Charles River Capital, diz que espera um movimento expressivo nos mercados com a reeleição do petista. “Como o Lula não era favorito, pelo menos pelos mercados preditivos, é de se acreditar que tenha um grande movimento nas várias classes de ativos”, afirma Marcantonio.
Para ele, a reação pode ser particularmente intensa no mercado de juros futuros, que vinha incorporando a expectativa de uma política fiscal mais restritiva sob Flávio – no primeiro pregão após o primeiro turno, em 5 de outubro, os juros futuros chegaram a recuar mais de 130 pontos-base nos vencimentos longos.
“Imagino um movimento relevante, que pelo menos deveria reverter uma parte, ou totalmente, o que tinha sido visto no primeiro turno. Dado que o mercado entendeu que a vitória do Flávio deveria levar a um fechamento da curva de juros, é esperado que a gente tenha uma reversão desse movimento”, diz Marcantonio.
Outro investidor mantém essa visão pessimista. “Com a vitória do Lula, com certeza teremos um circuit breaker na segunda-feira, não tenho nenhuma dúvida sobre isso”, afirma essa fonte que atua com ações, que pediu para não ser identificado. “O primeiro circuit breaker é de 10%, fácil.”
Na avaliação dele, esse pode ser apenas o começo de uma correção capaz de derrubar o principal índice da B3 em até 20%, revertendo o ganho visto depois do primeiro turno das eleições.
Levantamento feito pela consultoria Elos Ayta mostra que o valor de mercado das empresas listadas em Bolsa aumentou em R$ 515 bilhões nos primeiros 13 pregões de outubro e registrou crescimento de 10,02%, o quarto maior avanço mensal desde 2020.
O mesmo movimento deve ser visto no dólar. Para Gustavo Rostelato, economista da Armor Capital, a surpresa provocada pela reeleição de Lula deve levar o dólar a R$ 5,30 nos primeiros dias após a votação, num movimento mais expressivo do que a valorização do Real que ocorreria com uma vitória do senador. A moeda americana fechou com queda de 1,04% na sexta-feira, 23 de outubro, a R$ 4,99.
“A desvalorização do real seria um pouco maior em comparação à valorização que viria em uma confirmação do cenário de Flávio. Acho que um dólar a R$ 5,30, logo nos primeiros dias, é justo. Seria um baita susto no mercado”, afirma Rostelato.
Já Marcelo Mello, CEO da SulAmerica Investimentos, trabalha com um cenário cambial menos extremo, mas também espera uma alta da moeda americana. Segundo ele, o dólar pode alcançar entre R$ 5,10 e R$ 5,20 no curto prazo, antes de encontrar um novo patamar de equilíbrio de acordo com as primeiras sinalizações econômicas do governo.
“À medida em que o mercado vai entendendo a mensagem do futuro presidente, ele vai oscilar conforme a ortodoxia que for anunciada”, diz o CEO.
A conta de 2027
Se a segunda-feira promete ser turbulenta para os mercados, o horizonte econômico também não oferece muito alívio para Lula, nem para os mercados.
O presidente iniciará seu quarto mandato diante de uma combinação de fatores que preocupa gestores e economistas: famílias endividadas, consumo perdendo força, crescimento mais fraco e uma dívida pública cuja trajetória exigirá medidas de contenção de despesas.
O mercado não tem dúvida de que 2027 será um ano de ajuste, independentemente das medidas adotadas pelo governo.
Luis Otavio Leal, economista-chefe da G5, acredita que o desafio será agravado pelo cenário internacional, diante da competição crescente por recursos entre governos endividados e empresas de tecnologia. Com as principais economias mundiais precisando financiar déficits fiscais expressivos, países emergentes como o Brasil poderão encontrar condições mais restritivas de financiamento.
“O Brasil está nesse resto do mundo que vê o capital disponível reduzido. Provavelmente o mundo vai ser mais seletivo no ano que vem do que foi neste ano com países com problemas de endividamento e problemas fiscais”, afirma Leal.
Essa combinação de fatores torna difícil a tarefa de promover um ajuste fiscal, uma vez que medidas de contenção de gastos poderão aprofundar a desaceleração e provocar desgaste político. E aí vem a dúvida sobre se Lula estará disposto a tomar medidas duras.
Leal acredita que o presidente poderá anunciar iniciativas para conter os gastos, mas vê dificuldades para manter essa trajetória diante de uma economia enfraquecida e o custo político de um ajuste fiscal, ainda mais depois da experiência do último mandato.
Ele destacou ainda que a dificuldade está também na visão econômica predominante no entorno do presidente, que tende a apostar no crescimento como caminho para aumentar a arrecadação e equilibrar as contas públicas.
“O pensamento do PT é: você investe, isso gera crescimento, o crescimento vai gerar aumento de arrecadação, que vai compensar o aumento do investimento. O problema dessa equação é que as coisas acontecem em momentos diferentes”, diz o economista-chefe da G5.
A capacidade de Lula de convencer os investidores de que conseguirá controlar o crescimento das despesas será determinante para a trajetória dos juros — e, consequentemente, para a recuperação da economia e uma visão mais benigna para os ativos.
No entanto, dado o histórico de Lula, a expectativa é de que a renda variável não veja uma recuperação significativa. E para as empresas listadas na Bolsa, a perspectiva de juros elevados por mais tempo se soma ao risco de deterioração dos resultados operacionais.
Para Marcantonio, olhando para Bolsa, quem deve navegar o cenário são empresas ligadas ao exterior. “Se o dólar tiver realmente uma valorização mais expressiva, a gente poderia imaginar que as empresas exportadoras tivessem um benefício nesse cenário ou fossem menos afetadas do que aquelas voltadas para o mercado interno”, afirma.
O cenário ajuda a explicar por que o gestor que pediu para não ser identificado chegou ao segundo turno com uma carteira comprada em ações, mas protegida contra uma vitória de Lula. Em vez de reduzir drasticamente sua exposição à Bolsa, ele optou por comprar opções de venda, as chamadas puts, com valor nocional equivalente a 30% do patrimônio do fundo.
Também concentrou suas posições em ações de maior liquidez, especialmente de empresas de utilities, com destaque para distribuidoras de energia, ao invés de buscar beta em áreas como consumo, varejo, saúde e educação. A estratégia permite reduzir ou alterar rapidamente a exposição caso o cenário se deteriore.
“Eu prefiro me posicionar para o cenário em que acredito e comprar bastante proteção. Estou bem comprado no fundo, mas muito líquido, com ações muito líquidas. Em um ou dois dias, mudo a carteira inteira, se precisar”, diz esse gestor.
A versão inicial do texto atribuia incorretamente ao gestor da Charles River Capital as informações dos três últimos parágrafos, quando na verdade são informações do gestor ouvido em off. O texto foi ajustado para corrigir o equívoco.




