Bloomberg — O senador Flávio Bolsonaro desembarcou em Miami, nos EUA, na manhã desta quarta-feira (28), encerrando dias de especulação sobre seu paradeiro após ter fugido do Brasil na sequência de sua derrota na eleição presidencial de domingo (25).
Bolsonaro, de 45 anos, foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva em uma eleição presidencial acirrada no domingo, dando início a 48 horas de informações desencontradas e especulações sobre sua situação.
O senador conservador, que enfrenta diversas investigações criminais no Brasil, falou publicamente pela última vez na segunda-feira (26), quando afirmou, em um vídeo nas redes sociais, que o Supremo Tribunal Federal havia determinado a entrega de seus passaportes em um prazo de 24 horas e que disse que não pensava em deixar o país.
Ele não cumpriu o prazo e, na manhã de terça-feira (27), começaram a circular relatos na imprensa argentina e brasileira de que ele havia fugido para os EUA. Mais tarde naquele dia, o Departamento de Estado americano informou que concederia vistos a Bolsonaro e sua família para entrarem nos EUA, enquanto o jornal brasileiro O Globo e outros veículos chegaram a noticiar que ele já havia desembarcado em Miami.
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Na quarta-feira, no entanto, a autoridade migratória da Argentina informou que Bolsonaro e sua família entraram no país nas proximidades de Foz do Iguaçu, antes de partirem em um voo privado rumo ao Equador, às 23h30.
O relato descreve uma trajetória que parece ter passado por uma rede de aliados ideológicos nas Américas. O gabinete do presidente Daniel Noboa não respondeu prontamente a um pedido de comentário. Não há evidências concretas de auxílio direto por parte de um chefe de Estado.
A versão apresentada pela Argentina — que contradiz uma declaração anterior do gabinete do presidente Javier Milei, o qual havia negado a entrada de Bolsonaro no país — acrescenta um novo desdobramento a uma saga caótica que tem tomado conta do Brasil desde a eleição de domingo.
A autoridade migratória da Argentina informou que Flávio Bolsonaro e sua família apresentaram “documentação de viagem válida” e não enfrentaram impedimentos legais para entrar no país.
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Essa versão parece divergir das ações das autoridades brasileiras, que haviam cancelado os passaportes de Bolsonaro na terça-feira. Não ficou claro, de imediato, qual documento de viagem ele utilizou para cruzar a fronteira.
O principal assessor de Milei, Santiago Caputo, estava na região de Foz do Iguaçu no momento em que o avião de Bolsonaro decolou de lá, segundo o jornal argentino La Nación.
Na terça-feira, o Partido Liberal, ao qual Bolsonaro é filiado, convocou uma reunião de emergência para discutir o paradeiro dele. Desde seu advogado até o coordenador de sua campanha, muitos deram a entender que não faziam ideia se ele havia partido ou para onde estaria indo. “Estou tão surpreso quanto vocês”, disse o advogado Frederick Wassef a jornalistas.
Seu irmão, Eduardo Bolsonaro — que atualmente está nos Estados Unidos —, afirmou antes da votação de domingo que Flávio talvez precisasse deixar o país caso perdesse a eleição. Um juiz brasileiro mencionou esses comentários em sua decisão de apreender os passaportes, por considerar que havia risco de fuga.
Visto dos EUA
O governo Trump planeja conceder vistos a Flávio Bolsonaro, segundo uma autoridade sênior do Departamento de Estado ouvida pela Bloomberg News.
O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, a quem a família Bolsonaro há muito acusa de perseguição política, exigiu que ele entregasse os documentos em meio a preocupações de que o senador representava risco de fuga.
A derrota de Flávio para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno de domingo representou um enorme revés para uma família que havia buscado consolidar uma dinastia política no Brasil.
O senador havia feito da libertação do ex-presidente Jair Bolsonaro, seu pai, que cumpre uma pena de 27 anos por tramar um golpe após sua derrota eleitoral de 2022, um tema central de sua campanha.
Falando no Texas na tarde de terça-feira, Donald Trump evitou mencionar Flávio, mas reiterou suas afirmações infundadas de que houve fraude na eleição do Brasil. Ele atacou os democratas como os “maiores fraudadores de eleições” antes de acrescentar que “o Brasil também está fazendo um belo trabalho”.
O líder americano é aliado dos Bolsonaro e no ano passado impôs tarifas sobre produtos brasileiros numa tentativa malsucedida de ajudar Jair Bolsonaro a evitar seu julgamento por golpe.
“O ato de deixar o Brasil é vergonhoso”, disse Lula num evento para marcar seu aniversário de 81 anos. O esquerdista teve uma relação conturbada com Trump e, no início deste ano, negou vistos a duas altas autoridades americanas em meio a temores de que elas planejassem questionar a integridade de seu sistema eleitoral.
Flávio Bolsonaro enfrenta ao menos duas investigações federais sobre acusações de lavagem de dinheiro, uma das quais decorre de seus vínculos com o ex-dono do Banco Master, apanhado no maior caso de fraude bancária da história do Brasil. Ele negou irregularidades.
Suas iniciativas desde a votação de domingo já evocavam as de seu pai mesmo antes das reportagens de que ele estava deixando o Brasil. Ele inicialmente disse que pediria a anulação dos resultados devido a uma decisão do Supremo Tribunal Federal de estender o horário de votação, ecoando a recusa de Jair Bolsonaro em aceitar sua estreita derrota para Lula quatro anos atrás.
Jair Bolsonaro deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos após a derrota. Ele retornou meses depois e foi posteriormente proibido de ocupar cargos públicos por oito anos por espalhar alegações falsas sobre o sistema de votação eletrônica do Brasil antes da eleição, e então condenado por tramar um golpe.
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