Depois de um primeiro semestre de crise de oferta, a suinocultura vive um momento mais favorável, mas precisa usar a experiência recente para pensar mudanças estruturais na cadeia. A avaliação é de Iuri Pinheiro Machado, consultor de mercado da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), em entrevista à Agrimídia durante a AveSui 2026, em Cascavel (PR).
“No primeiro semestre, tivemos uma crise de oferta em que tivemos muita dificuldade para colocar o nosso produto. Ele até estava escoando, mas a um preço muito baixo para o produtor”, lembra. “Sempre que tem uma crise de oferta, a gente começa a questionar onde pode, estruturalmente e no longo prazo, melhorar a cadeia.”
Nova fronteira de produção e consumo
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Um dos pontos centrais, segundo Iuri, é a distância entre onde a carne suína é produzida e onde ela pode ser consumida. A produção está concentrada no Sul, enquanto os grandes mercados consumidores, atuais e potenciais, estão no Sudeste e no Nordeste. Para ele, o Matopiba, região que vem expandindo a produção de grãos, representa uma nova fronteira para o setor.
O primeiro passo para abrir esse caminho é a erradicação da peste suína clássica na zona não livre da doença, que engloba estados do Norte e do Nordeste. “Isso vai abrir, inclusive para a imagem da carne suína naquela região, um cenário muito mais positivo, e a possibilidade de ter novas agroindústrias produzindo carne lá”, afirma.
O consultor lembra que a logística dos grãos também precisa entrar na conta, já que o Centro-Oeste é hoje o maior produtor. Nesse cenário, o Paraná leva vantagem por estar próximo tanto das regiões consumidoras quanto das áreas produtoras de grãos. “Todos esses arranjos devem ser considerados de forma estrutural pelas entidades ligadas ao setor.”
O ciclo que trava a tecnologia
Ao comparar a suinocultura com a avicultura de corte, Iuri aponta diferenças importantes. A produção de frango é mais verticalizada, concentrada em poucas empresas, padronizada e incorporou muita tecnologia nos últimos anos. Já a suinocultura é mais heterogênea, com cooperativas, agroindústrias, produtores independentes e frigoríficos de pequeno e médio porte, o que fez com que a adoção de tecnologia avançasse de forma desigual.
As crises intensas ajudam a explicar esse descompasso. “Quando o produtor está ganhando dinheiro, muitas vezes ele está pagando a conta da última crise. Ou, quando sobra um pouco mais, em vez de melhorar o sistema de produção, ele coloca mais fêmeas e expande a produção, muitas vezes para compensar a crise anterior”, explica. “A gente precisa de mais estabilidade de mercado. Esse é o primeiro ponto para que a suinocultura consiga agregar tecnologia.”
Os juros elevados também pesam e inibem investimentos de longo prazo. Ainda assim, segundo ele, a incorporação de tecnologia precisa estar no radar do setor, inclusive para otimizar a mão de obra e garantir produtividade sustentável.
Hábito de consumo e sustentabilidade
Iuri destaca duas frentes de trabalho da ABCS. A primeira é o marketing da carne suína, voltado à mudança de hábito do consumidor. “A carne suína não perde em nada para as outras proteínas em preço, qualidade e saudabilidade. Mas é o hábito. Nós temos que criar esse hábito.”
A segunda é a sustentabilidade, área em que a suinocultura tem evoluído nos últimos anos, tanto por iniciativa dos produtores quanto por novas regulamentações, especialmente em bem-estar animal e uso responsável de antimicrobianos. “O novo consumidor está atento ao bem-estar animal, ao uso prudente de antimicrobianos, a como os animais são criados”, conclui.
Da Redação




