Uma tutora de um cão em processo de socialização para se tornar guia relatou ter sido impedida de permanecer na Praia da Baleia, em São Sebastião, no litoral norte paulista.
Segundo ela, a abordagem foi feita por guardas municipais com base em uma lei local que proíbe a presença de animais na faixa de areia.
Mesmo após apresentar identificação e explicar que o animal integra um programa de formação, Maria Julia de Almeida Cesarano afirma que foi orientada a deixar o local e chegou a ser ameaçada com multa.
Abordagens e ameaça de multa
Maria Julia estava na praia com o filho e amigos quando o caso aconteceu. O cão, Atlas, está na fase de socialização, etapa anterior ao treinamento técnico, em que o animal aprende a conviver em diferentes ambientes.
Ao IG, ela contou que a viagem era um reencontro entre amigos e que a presença do cão havia sido previamente informada.
“Comentei que hoje sou família socializadora de um cão-guia e disseram que não teria problema levar o Atlas”, relatou.
No primeiro dia, não houve intercorrências. A situação mudou no sábado, quando começaram as abordagens de guardas municipais.
“Tentei explicar que ele não era um pet comum, falei da lei, mas eles não estavam abertos a ouvir. Foram várias abordagens, cada vez com um tom mais agressivo e irônico”, afirmou.
Segundo ela, os agentes citaram uma lei municipal e entregaram um aviso com previsão de multa que poderia chegar a R$ 2 mil. A tutora diz que estava com toda a documentação do animal, incluindo colete, identificação e carteirinha.
“Mesmo assim, disseram que todo mundo fala que está dentro da lei e não quiseram entender o projeto”, disse.
As abordagens teriam ocorrido diversas vezes ao longo do fim de semana. No domingo, segundo Maria Julia, houve novas ameaças, inclusive com menção à possibilidade de acionamento policial.
Constrangimento
Além das ações dos agentes, a tutora relata ter enfrentado situações de constrangimento com frequentadores da praia.
“Teve gente que foi gentil e quis entender, mas também ouvi comentários como ‘alguém avisa que aqui não pode cachorro?’”, contou.
O momento mais tenso, segundo ela, ocorreu quando já deixava o local.
“Um senhor veio gritando, me xingando, chamando o Atlas de ‘sujo’ e ‘nojento’, mandando eu sair da ‘praia deles’. Foi constrangedor, muita gente olhando, e eu preferi ir embora.”
Apesar do episódio, Maria Julia afirma que não pretende tomar medidas judiciais neste momento e que o objetivo é ampliar a conscientização.





“Quando as pessoas entendem o projeto, a reação é completamente diferente. Falta informação”, disse.
Papel da socialização
O Atlas faz parte de um programa gratuito de formação de cães-guia. Nessa etapa inicial, os animais vivem com famílias voluntárias e são levados a diferentes ambientes para aprender a se comportar em locais públicos.
Esse processo é considerado essencial para que, futuramente, o cão possa atuar com segurança ao lado de uma pessoa com deficiência visual.
Nota do projeto
Em nota, o gestor técnico do Instituto Adimax, Fabiano Pereira, afirmou que a circulação de cães-guia, inclusive em fase de socialização, é garantida por legislação federal.
Ele destacou que esses animais são considerados ferramentas de inclusão e fundamentais para a autonomia de pessoas com deficiência visual.
“Existe uma lei federal que assegura o direito de ir e vir desses cães, que são uma tecnologia assistiva. Eles ajudam a garantir mobilidade, independência e qualidade de vida”, afirmou.
Segundo ele, a legislação também permite que instituições promovam a socialização dos animais em diferentes ambientes.
“O decreto que regulamenta a lei garante às instituições o direito de proporcionar experiências diversas, justamente para que o cão esteja preparado para atuar no futuro”, completou.




