
Os Estados Unidos vão sediar dois dos próximos grandes eventos esportivos mundiais: além da Copa do Mundo deste ano, a cidade americana de Los Angeles abriga as Olimpíadas de 2028. Mas o que está em jogo vai além dos troféus: é a boa fama como anfitrião que os americanos sempre ostentaram. Já que, ao menos do ponto de vista financeiro, o país é tratado como um dos poucos casos de grandes retornos após a realização desses eventos.
Neste ano, EUA compartilham a sede da Copa do Mundo com o México e o Canadá — único anfitrião estreante. Um dos motivos por trás da escolha desses países é a infraestrutura já existente de hotelaria e estádios capaz de sediar uma edição do evento sem grandes gastos.
Há uma razão por trás disso: países democráticos estão menos dispostos a apostar nos altos investimentos para realizar uma Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos, sob o risco de que os gastos não se paguem em curto ou longo prazo e tenham impacto na popularidade do governo.
“Historicamente, em geral, Olimpíadas e Copas do Mundo tem sido usados como veículos para o desenvolvimento econômico e canalizar dinheiro em projetos de infraestrutura importantes que não teriam sido construídos de outra forma”, diz o head de economia da América Latina na Moody’s Analytics, Jesse Rogers, em entrevista ao InfoMoney.
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É difícil, no entanto, medir o impacto desses investimentos em longo prazo. Rogers cita o exemplo do Brasil: “minha equipe vê que é muito difícil medir se os gastos realmente contribuíram para qualquer melhora a longo prazo na Copa do Mundo e nas Olimpíadas no Brasil”.
Na verdade, é bem possível que as Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, e Barcelona, em 1992, sejam os dois únicos casos em que investimentos para atrair mega eventos esportivos em algum país tenham rendido frutos do ponto de vista econômico ou de infraestrutura para suas sedes.
É o que defende o economista e professor do Smith College, Andrew Zimbalist, em seu livro “Circus Maximus: The Economic Gamble Behind Hosting the Olympics and the World Cup” (sem tradução para o português).
Segundo a obra, após a realização dos Jogos Olímpicos de 1984, a cidade de Los Angeles registrou lucros de US$ 215 milhões, um resultado sem precedentes para um evento esportivo deste porte à época. Nem mesmo Los Angeles poderia esperar por todo esse sucesso.
A década anterior não havia colocado a realização de Jogos Olímpicos em um patamar exatamente prestigioso. Protestos políticos e violência marcaram as Olimpíadas da Cidade do México, em 1968, enquanto um grupo terrorista assassinou 11 atletas israelenses no Massacre de Munique, em 1972.
Quatro anos depois, em 1976, Montreal seria a sede de uma Olimpíada que custou 9,2 vezes mais que o orçamento inicial. A realização dos Jogos em Moscou, em 1980, em meio à Guerra Fria, levaria a um boicote de mais de 60 países capitaneados pelos Estados Unidos.
Nenhuma cidade se ofereceu para sediar a edição de 1984, e a ‘batata quente’ ficou na mão do Comitê Olímpico Internacional (COI). “Sem concorrência, Los Angeles se apresentou e fechou um acordo. O COI garantiria quaisquer prejuízos sofridos, e Los Angeles poderia basicamente se virar com sua infraestrutura esportiva existente, em parte proveniente da organização dos Jogos Olímpicos de 1932”, conta Zimbalist em seu livro.
Chefiado por Peter Ueberroth, o Comitê Organizador de Los Angeles se aproveitou dos bons termos arranjados com o COI e impulsionou os ganhos com as Olimpíadas em uma estratégia de marketing baseado em patrocínios corporativos em categorias exclusivas de produtos, o que permitiu a arrecadação de US$ 130 milhões em patrocínios.
O exemplo de Barcelona
O sucesso alcançado por Los Angeles recuperou o glamour em sediar os Jogos Olímpicos. Depois de um ano com apenas uma candidatura, o número de cidades que se inscreveram partiu para seis em 1992, oito em 2000 e onze em 2004. O processo de candidatura sozinho chegou a custar US$ 100 milhões.
No entanto, apenas os jogos de Barcelona, em 1994, conseguiriam reproduzir um retorno similar ao de Los Angeles para a cidade sede. A cidade na Catalunha passou por anos de negligência durante o regime do ditador Francisco Franco e, até 1975, viu um crescimento urbano desordenado separar a cidade do mar por fábricas e ferrovias.
Barcelona instituiu então, em 1976, após o fim do franquismo, o chamado Plano Metropolitano Geral para reestruturar a cidade. As Olimpíadas foram colocadas a serviço desse plano, e não o contrário: cerca de 83% dos investimentos foram destinados à infraestrutura não esportiva que passou pela revitalização da zona industrial obsoleta, expansão da rede de metrô, atualização do sistema de esgoto, ampliação do aeroporto e criação de novos espaços públicos. Tudo isso ajudou a sustentar o boom turístico que tomaria Barcelona pelas décadas seguintes.
Experiências seguintes, no entanto, não tiveram o mesmo sucesso. As Olimpíadas de Atenas em 2004 chegaram a estourar seu orçamento inicial, de US$ 1,6 bilhão para US$ 16 bilhões. Já a Copa do Mundo da África do Sul extrapolou uma previsão inicial de US$ 300 milhões para até mais de US$ 5 bilhões. No caso de Londres, em 2012, o valor passou de US$ 4 bilhões para até US$ 20 bilhões, segundo estimativas.
Mas nada se compara com as Olimpíadas de Inverno de Sochi. Com gastos previstos em US$ 12 bilhões, os jogos na cidade russa chegaram a casa de US$ 70 bilhões, segundo estimativas. Para se ter ideia, o Banco Estatal de Desenvolvimento (VEB), precisou pedir um resgate de até US$ 5 bilhões para cobrir perdas relacionadas apenas à construção civil para o evento.
Uma aposta arriscada
Dados de um relatório da Moody’s apontam que o impacto das Olimpíadas e dos Jogos Olímpicos em curto prazo não será tão relevante para os países sede deste ano. No caso do México, o incremento do evento ao PIB deve ser de 0,13%. Já para o Canadá, o número chega a 0,07%, enquanto para os EUA ele é de 0,05%.
“O tamanho relativo e o turismo em si para o México devem igualar os fluxos turísticos para os EUA, apesar de haver ganhos reais menores. Parte disso se deve às políticas restritivas de viagens e imigração nos EUA”, aponta Roger. “A indústria de viagens dos EUA está em recessão há um ano e meio.”
Mas a questão do turismo pode ir além. Zimbalist defende que mega eventos esportivos podem gerar um “efeito de deslocamento”, no qual turistas comuns evitam cidades anfitriãs de eventos gigantes para evitar aglomerações, segurança restritiva e preços abusivos.
No caso das Olimpíadas de Pequim, por exemplo, a cidade recebeu 30% menos chegadas estrangeiras em agosto de 2008, durante os jogos, em comparação com o mesmo período do ano anterior. A ocupação de hotéis na cidade chegou a cair 39%. Já em Londes, houve uma redução de 6,1% no fluxo estrangeiro durante os meses de julho e agosto de 2012 na comparação com 2011.
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