A expansão desenfreada do grupo paraguaio Concepción, dono da indústria frigorífica brasileira BMG Foods, está cobrando um preço alto.
Com a liquidez estrangulada, o grupo do empresário Jair Lima não pagou os juros deste mês de uma linha de crédito fornecida pelo BofA (Bank of America), mostrou uma reportagem da Bloomberg.
O atraso no pagamento marca o início de um processo de reestruturação financeira que pode culminar em uma recuperação judicial, inclusive no Brasil, apurou The AgriBiz.
As dificuldades deixaram um rastro de insatisfação entre pecuaristas e prestadores de serviços que estão sem receber. Importadores chineses, que adquiriram o produto dos frigoríficos do grupo na Bolívia, também se queixam dos atrasos no envio dos contêineres.
Para lidar com a crise financeira, o grupo contratou a Pantalica Partners, firma brasileira especializada na reestruturação de dívidas.
A companhia está trabalhando com diferentes escritórios de advocacia em cada país: nos Estados Unidos, Linklaters LLP ; no Brasil, Diamantino Advogados Associados e Guedes & Manocchio Advogados Associados; no Paraguai, Ovelar Abogados; na Bolívia, Dentons Guevara & Gutiérrez.
“O objetivo é estabelecer negociações com os diferentes grupos de credores para alcançar uma solução integral a respeito das obrigações em todas as jurisdições pertinentes”, informou o Concepción, em uma nota distribuída no Paraguai.
A empresa ainda está analisando a melhor a alternativa para encaminhar a reestruturação. Uma recuperação (judicial ou extrajudicial) está na mesa, disse uma fonte.
Em dezembro, a dívida líquida do Concepción somava US$ 820 milhões. Com um Ebitda de apenas US$ 120 milhões, o índice de alavancagem passava de 4,3 vezes, mostram os dados do último balanço.
Segundo a Bloomberg, o grupo tem US$ 65 milhões em dívidas para pagar entre junho e julho. É um montante substancial para a liquidez da companhia, que encerrou o ano passado com apenas US$ 23,1 milhões em caixa.
No mês passado, o ex-CEO da BMG, Renan Lima, chegou a dizer à Bloomberg que a companhia estava avaliando a venda das operações de suínos no Brasil e no Paraguai — onde acabou de inaugurar um frigorífico — para equilibrar o balanço. Na ocasião, ele admitiu que a companhia expandiu rápido demais.
As dificuldades do Concepción estão relacionadas ao rápido crescimento dos negócios especialmente no Brasil, onde a companhia arrendou diversos frigoríficos, numa postura que a colocou como uma das quatro maiores em carne bovina. Além disso, a BMG fez investimentos significativos na área de suínos.
A companhia ancorou essa expansão com capital de giro de terceiros — em alguns casos, com juros de CDI+8% ao ano —, o que se tornou um fardo difícil de carregar em meio à pressão de margens na indústria de carne bovina.
Não à toa, a BMG Foods já vinha devolvendo diversos frigoríficos no País, como informou The AgriBiz.
Nas demonstrações financeiras, a companhia calculou que as plantas fechadas ou devolvidas registraram US$ 391 milhões (quase R$ 2 bilhões) em receita no ano passado. Ao todo, o grupo faturou US$ 2,1 bilhões (cerca de R$ 10,5 bilhões) em 2025.
Nos Estados Unidos, onde o grupo paraguaio emitiu US$ 300 milhões em bonds, o preço dos títulos despencou ao longo dos últimos meses, sendo negociados a menos de 20 centavos de dólar. Há menos de um ano, os mesmos títulos eram negociados a 75 centavos de dólar.
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Procurada, a BMG Foods enviou uma nota sobre a contratação dos assessores jurídicos e financeiros. O conteúdo segue abaixo, na íntegra.
“O Frigorífico Concepción S.A., por si e por suas subsidiárias, comunica que iniciou um processo de revisão de sua estrutura de capital e de suas obrigações vigentes. A Companhia contratou assessores financeiros e jurídicos para auxiliar nesse processo.
O objetivo da Companhia é iniciar negociações com seus diferentes grupos de credores, com vistas a alcançar uma solução abrangente em relação às suas obrigações em todas as jurisdições pertinentes.
O Conselho de Administração e a equipe de gestão da Companhia, em conjunto com seus assessores, decidiram que a abertura de conversas com os credores nesta etapa tem como finalidade preservar e potencializar o valor das operações e dos negócios da Companhia, em benefício dela própria e de todos os seus stakeholders.
A Companhia designou a Pantalica Partners como sua assessora financeira. Além disso, conta com a assessoria da Linklaters LLP como sua assessora jurídica internacional, da Ovelar Abogados (Paraguai), da Diamantino Advogados Associados (Brasil), da Guedes & Manocchio Advogados Associados (Brasil) e da Dentons Guevara & Gutiérrez (Bolívia)”.




